Um passeio por Guadalajara

Guadalajara, capital de Jalisco, México | Foto por Alejandro Castro

Guadalajara, capital de Jalisco, México | Foto por Alejandro Castro

Por Renata Ferri*

 

A chegada à capital do estado de Jalisco, no México, é um pouco conturbada. Nos ônibus interestaduais que têm como destino Guadalajara, vendedores entram a cada parada oferecendo fritas, manga com pepino, amendoins e outros tipos de alimentos por alguns poucos pesos. E não ficam na mão, pois os mexicanos, que gostam de estar sempre mastigando alguma guloseima, não resistem em comprar quase tudo que se oferece.

 

Os mapas não dizem muito sobre a parada de ônibus na qual você deve descer  para chegar onde quer, e as pessoas parecem dar informações imprecisas e confusas. Para não correr o risco de parar do outro lado da cidade e depois ter que gastar um dinheirão de táxi para chegar onde você queria primeiramente, a solução é sair perguntando várias vezes, a várias pessoas, até que alguém lhe diga alguma coisa útil.

 

É preciso aprender uma grande lição mexicana: nunca confie muito nas informações que você recebe. As pessoas certamente têm boas intenções e querem ajudar, mas muitas vezes não fazem a mínima ideia do que estão falando.

 

Tonalá

Mercado de Tonalá | Foto por Renata Ferri

Mercado de Tonalá | Foto por Renata Ferri

 

Um dos passeios mais tradicionais da cidade, também carinhosamente chamada de “Florença Mexicana”, é o mercado de Tonalá, localizado na região metropolitana de Guadalajara, a mais ou menos uma hora de ônibus do centro.

 

A feira, que também é conhecida pelo nome Nahuatl de Tianguis, que significa, literalmente, mercado, abre às quintas e domingos das 8h às 15h e conta com centenas de barracas e tendas improvisadas, que se amontoam nas calçadas apertadas pelas quais a massa vai passando e despejando até as últimas moedas da carteira.

 

Lá é possível experimentar um pouco do afamado talento mexicano para o artesanato: são 3km de vasos desenhados à mão, esculturas da piedra del sol – também conhecida como calendário azteca –, roupas e tapeçaria de cores vibrantes, que refletem a vivacidade da alma dos mexicanos.

 

 

Muitos artesanatos no Mercado de Tonalá | Foto por Renata Ferri

Muitos artesanatos no Mercado de Tonalá | Foto por Renata Ferri

 

Na grande feira os preços são baixos – uma piedra del sol de tamanho médio, por exemplo, custa R$ 5. Os brasileiros, compradores contumazes, devem se preparar para carregar sacolas e mochilas grandes para todos os presentes que ficarão tentados em adquirir.

 

Também é um ótimo lugar para experimentar a culinária típica e provar a bebida mais antiga daquela terra: o pulque. É um liquido meio viscoso, com gosto de água de coco estragada, feito da fermentação do agave – como se fosse o antepassado primata da tequila.

 

Os astecas tinham o costume de consumir essa bebida há séculos, bem antes da chegada dos espanhóis. Não é muito gostoso, mas vale a experiência. Em algumas barracas eles perguntam se você quer que misture um pouco de tequila e na maioria delas você pode levar para casa o copo – uma linda jarra de cerâmica decorada. Tudo por apenas R$ 5.

 

Tequila

 

Campos de agave em Tequila, México | Foto por Mdd4696 via Wikimedia Commons

Campos de agave em Tequila, México | Foto por Mdd4696 via Wikimedia Commons

 

Depois da visita ao mercado mais famoso da região, estávamos preparados para conhecer a mitológica cidade de Tequila. Normalmente, os albergues e hotéis de Guadalajara estão preparados para atender a demanda de clientes que desejam conhecer o vilarejo onde nasceu a famosa bebida, mas é preciso ficar atento aos preços e pacotes para não entrar em roubadas desnecessárias.

 

O hostel em que nos hospedamos oferecia um pacote razoável: pagando aproximadamente R$ 100 por pessoa, teríamos uma van que faria o translado completo desde Guadalajara, com café de manhã (café expresso e bolo), guia turístico, passeio à plantação de agave e visita a duas destilarias.

 

No horário combinado, a van turística nos pegou no hostel e fomos apresentados ao nosso guia, um senhor de cerca de sessenta anos de idade que se chamava Hernán, o que rendeu trocadilhos referentes ao espanhol Hernán Cortés, conquistador do México. Hernán, o guia, era muito atencioso e, no caminho até Tequila, fez questão de nos explicar as origens indígenas dos nomes dados a cada uma das localidades que cercam Guadalajara. Assim pudemos perceber que os mexicanos têm bastante orgulho de suas origens.

 

A tequila é uma bebida alcoólica preparada com o sumo da agave, uma planta nativa do México. Nossa primeira parada foi na fábrica artesanal Tres Mujeres, onde fomos apresentados ao senhor Rafa ‘El jimador’, ou seja, o responsável por cortar as arestas de agave e preparar a planta para a destilação.

 

Entrada da destilaria Tres Mujeres e Rafa, o simpático jimador, e seu cachorro companheiro | Fotos por Renata Ferri

Entrada da destilaria Tres Mujeres e Rafa, o simpático jimador, e seu cachorro companheiro | Fotos por Renata Ferri

 

Rafa era uma figura ímpar e nos contou que já havia participado de alguns filmes e novelas mexicanas. Ele explicou o complexo processo de preparação da bebida, que envolve cuidado no plantio, habilidade na colheita, técnica de cozimento e atenção no envase.

 

Na fábrica foi possível experimentar diversas variedades da tequila Tres Mujeres e o que nos impressionou, além dos sabores excelentes,  foram os preços cobrados: era possível conseguir uma garrafa de boa tequila artesanal por menos de vinte reais (nos entristeceu muito lembrar do preço e do sabor das tequilas vendidas no Brasil…).

 

Quatro tipos de tequila disponíveis para degustação na destilaria Tres Mujeres | Foto por Renata Ferri

Quatro tipos de tequila disponíveis para degustação na destilaria Tres Mujeres | Foto por Renata Ferri

 

Depois que saímos da fábrica, nosso passeio seguiu por vilarejos e paisagens montanhosas. Hernán nos disse que todas aquelas cidades, localizadas em Jalisco, produziam bebida de agave e tinham direito de chamá-la de tequila, já que essa é uma denominação exclusiva, assim como o vinho espumante produzido na região de Champagne, na França.

 

Já no centro da pequena cidade de Tequila constatamos que ela preserva um pouco daquela atmosfera das regiões coloniais: arquitetura tradicional, ruas pavimentadas artisticamente e trânsito intenso de pessoas pelas vias apertadas.

 

Foi na fábrica da José Cuervo  que aprendemos uma nova lição mexicana: nunca fique de estômago vazio, pois a tequila é uma bebida que pode te surpreender de muitas maneiras diferentes. Saímos esfomeados e um pouco alegres da fábrica e fomos ao primeiro restaurante que encontramos. Ali eram servidas deliciosas tortilhas, carne en su jugo – uma tenra carne imensa em um saboroso caldo –, e fantástica guacamole.

 

 Barris para degustação da tequila Jose Cuervo, cada um mostrando o respectivo tempo de envelhecimento da bebida | Foto por Renata Ferri

Barris para degustação da tequila Jose Cuervo, cada um mostrando o respectivo tempo de envelhecimento da bebida | Foto por Renata Ferri

 

À noite

Guadalajara é um ótimo lugar para quem gosta de curtir uma noitada. São inúmeros os bares e baladas. Uma boa pedida é visitar a famosa mezcaleria, Pare de sufrir: toma mezcal! (Pare de sofrer, tome mezcal), que fica na Calle Argentina, 66. O mezcal é como a tequila, porém mais rústica, destilada apenas uma vez, às vezes curtida com um verme dentro da garrafa.

 

Depois, o melhor é entrar em qualquer bar para conhecer as cervejas locais ou micheladas (drinque que leva cerveja, limão, pimenta e outros temperos). Mesmo na noite essas bebidas não custam muito mais do que nos supermercados. Dá para perceber que o pessoal de Guadalajara é muito animado e nunca recusa um bom drinque em companhia dos amigos.

 

* colaboração de Alex Sugamosto


Renata Ferri

Renata Ferri, jornalista, escritora, tradutora e heavy user de internet. Acredita que viajar é sempre bom, nem que seja até a cidade vizinha, embora a viagem ideal seja aquela que a leva ao lugar mais diferente de casa, afinal são as novidades que tornam a experiência fantástica.

  1. Roseli amaral

    Gostei da reportagem. Nunca experimente tequila. Apenas acho as agaves plantas muito bonitas, principalmente as chamadas agave azul, lindissima. Adoro tambem os diversos modelos de garrafas de tequila. Mas prometo que ainda vou experimentar esta bebida que tanto encanta os jovens.

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