As camas do travel-writer – Parte 1 / Luxo em Munique

Como travel-writer, estou acostumado a me hospedar tanto num descolado albergue da juventude (hoje longe de ser apenas para jovens) como num invejável hotel de luxo – passando por outras inóspitas alternativas de acomodação. Na sequência dos dias e dos países, logo após a Oktoberfest, pude experimentar, nesta temporada europeia, o mais variado cardápio de hospedagens.

Em Munique, ficamos no elegantíssimo Louis Hotel. Chique mesmo sabe, tipo roupão e chinelinho disponível, DVD em TV de LCD, creminhos variados no banheiro (cuja banheira conta com vitrine para o quarto) e outros mimos que lamentavelmente nunca conseguimos aproveitar. E o café, ah o café da manhã… Croissants, geléias e queijos diversos? Claro! E muito mais do que isso. O chef (sim, breakfast com chef) é daquele tipo que adora misturar elementos, no melhor estilo cozinha oriental mediterrânea contemporânea. E porque não levar essa modernidade gastronômica para o café da manhã oras?!

Assim, em nossa ceia matinal havia tofu com castanha de caju, tapioca de coco com gengibre e limão e “não-tenho-a-menor-ideia-do-que-seja-mas-era-muito-saboroso pakora-breatlinge aus kicher”. Além de outras coisas super básicas como salmão, cuscuz e salada de abacaxi com pimenta. Ah sim, tudo devidamente servido e paparicado por donzelas japonesas que só faltavam te oferecer uma massagem oriental de complemento.

Vale lembrar que estávamos no “day after”, pra não dizer poucas horas depois, da nossa “se beber não viaje” noite na Oktoberfest. E assim, quase no piloto automático, comparecemos, sem sacrifício, é verdade, ao suntuoso café da manhã – eu de bermuda e chinelo de dedos, Vitor com sua melhor cara de sono e a sua melhor roupa especialmente confeccionada para quatro ocasiões consecutivas (passeio da tarde anterior, traje da festa, pijama da madrugada e agora vestimenta casual da manhã).

O problema é que travel-writers devem estar sempre a postos. Sempre. Não nos deixemos enganar. Não ganhamos um hotel fantástico com um café da manha animal servido por gueixas maravilhosas porque somos pessoas bacanas (o que, sabe, seria um motivo bem razoável) ou porque já comi pão amassado pela sogra do diabo em duas décadas de mochileiro e agora mereço hotéis 5 estrelas (ah, extremamente bem razoável!). Não. Ganhamos porque a gerente de comunicação quer publicar o seu hotel numa revista ou, no caso, num guia de viagens. Portanto, quem não nos brinda com sua aparição surpresa para uma reunião surpresa em nossa ressacada e bem-servida mesa? A elegantérrima e fashionista gerente de comunicação!

E assim, um pequeno momento “café de negócios” toma conta do ambiente. É claro que saber do arrojado arquiteto do hotel é importante, mas será que os guardanapos de algodão egípcio escondem minha bermuda e pernas cabeludas? Quem sabe a partir daquele momento as alemãs estilo Wall Street não adotariam havaianas para suas reuniões de negócios… E o que fazer com a cara de sono do Vitor!? Pensei em despertá-lo jogando suco de framboesas frescas no rapaz, mas além de eu querer beber um pouco mais poderia respingar no tailleur de seda daquela bela e gentil loira que, naquele momento, apresentava a brochura do seu hotel. Havia uma esperança: se eu dissesse “pirlimpimpim”, será que eu não desapareceria?? Pirlimpimpim!!!

Não desapareci. Mas como o profissionalismo não está nos 10 dedos dos pés à mostra, tudo correu bem. Tampouco os paparicos ou cortesias comprometem o nosso trabalho. Antes pelo contrário, é a forma como podemos conhecer um hotel com quartos de 400 euros diária. E não nos acostumemos, pois o dia seguinte pode nos aguardar com uma hospedagem bem menos silenciosa… Mas antes de pensar nisso, porque não repetir o quiche de amoras silvestres??

3 comentários para “As camas do travel-writer – Parte 1 / Luxo em Munique”

  • Henrique disse:

    tsccc… Esse café da manhã foi o bicho, hein!

  • Cida Fernandes disse:

    Muito legal, não dava para guardar um pouco deste café da manhã dos Deuses na mochila???kkkkk, Sabe como é, nunca se sabe a hora da necessidade de um…quiche de amoras silvestres,kkkkk, hummm deu água na boca de tantos quitutes!
    Você é um ótimo profissional e com um jeitinho brasileiro daqui, um jeito simpático (que é muito seu) dali, garanto que a gerente nem reparou na bermuda, nem nas havaianas, afinal elas não soltam as tiras e são última moda no Brasil,kkkk. bjos

  • Angela disse:

    Essa cara do Vitor foi antes ou depois da reuniao? hahahahahahahha
    Que saudade de vocês!

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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