Clandestinos

9h03. Saímos de Salta. Após percorrer o noroeste argentino, era hora de voltar ao Chile. Mas claro que as inúmeras paradas no caminho, para filmar, fotografar ou pegar informações não ajudaram para que também chegássemos cedo na fenomenal estrada que sobe a cordilheira rumo à fronteira.

19h44. Paso de Jama, aduana argentina. Escurecia. Fizemos o trâmite burocrático e deixamos o país. A alfândega no Chile era quilômetros e quilômetros depois. Mas não teríamos problemas – pensei.

21h36. Estrada Argentina-Chile. 4.235 metros de altitude. 3ºC. Névoa de filme de terror. Carro a 20 km/h. Impossível enxergar. Nos orientávamos pela parca iluminação do acostamento. 20 km/h. Já disso isso. Impossível enxergar. Um motorista e mais dois passageiros de olhos arregalados numa estrada invisível. 20 km/h. Névoa de filme de terror.

23h14. São Pedro de Atacama. Chegamos à fronteira chilena. Um nada simpático segurança chileno nos avisa: a fronteira fechou às 23h. Vocês não podem entrar. Se entrarem estarão ilegais. Pagarão multa. Deveríamos estacionar antes da fronteira e dormir no carro. Mas tínhamos uma reserva num bom hotel. Já fui preso em fronteira (Rússia). Não gosto mais de ser preso em fronteira. Letícia não gosta de pagar multas. Felipe não gosta de dormir no carro a mais de 2 mil metros de altitude.

23h21. Discutimos. O que fazer? Letícia não gostava de pagar multas. Felipe não gostava de dormir no carro em altitudes… Já disse isso. Eu não seria preso. E também não gosto de dormir no carro quando tenho um hotel confortável me esperando.

23h33. Deixamos malas e mochilas no hotel.

23h48. Estacionamos o carro junto à fronteira. O carro dormiria em algum lugar entre Argentina e o Chile. No limbo. A mais de 2 mil metros. Frio próximo ao zero. Pobre carrinho.

23h59. Voltamos ao hotel. No Chile. Ilegais. Clandestinos. Mas numa cama quentinha.

06h45. Despertador toca.

06h59. Saímos do hotel para sair do Chile. Sorrateiros. Enquanto a policia imigratória chilena não abria. Para acompanhar nosso carro no limbo. Letícia não gosta de multas. Eu não quero mais ser preso. Felipe… Já disse.

8h32. Preenchimento e entrega de papeis na aduana. Mais preenchimento e entrega de papeis na aduana. Não desconfiaram que passamos à noite não no gélido limbo. Mas num confortável hotel de São Pedro. Clandestinos.

8h45. Aduana. Momentos finais. O carro é revistado. Perguntas. Descobriram. Que portávamos produtos vegetais. Multa: a prisão de duas bananas.

8 comentários para “Clandestinos”

Comente este post

Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
travel-writer z.
Apoio