Se beber, não viaje!

Existem algumas quatro ou cinco celebrações interplanetárias que devem, em algum momento da vida, integrar o currículo de um viajante. A Oktoberfest em Munique é uma delas. (E o Carnaval no Rio é outra). Não foi muito coincidência, portanto, que nos programamos de encontrar o travel-writer Guilherme no sul da Alemanha no final de setembro (e não me pergunte porquê não se chama Sektemberfest).

A primeira impressão é a de um grande parque, onde na lateral de uma larga via de pedestres encontram-se infindáveis barraquinhas de salsichas, daquelas que vendem uma linguiça muito maior que o tamanho do pão (e torna-se parada obrigatória aos não-almoçados). Ao fundo, avistam-se roda gigante e alguns estúpidos brinquedos de altura e velocidade. A festa começa, propriamente, ao se ingressar nos pavilhões das cervejarias situados mais adiante. Escolhemos o da Paulaner, da tradicional cerveja de Munique. Não foi  surpresa, estava absolutamente lotada de beberrões, a maioria deles e delas trajados na tradicional vestimenta bávara e sentados comunitariamente junto a extensas mesas de madeiras. Se o ingresso é liberado, a bebida nem um pouco: 9 euros por uma gorda caneca de vidro de1 litro. Adotamos a máxima do Guilherme (“quem converte não se diverte”) e rapidamente pedimos a nossa inaugural. Achamos um espaço numa mesa de belas alemãs e não demoramos a nos enturmar.

Entrar numa turma aqui não é difícil. Talvez a premissa maior da Oktoberfest seja a união – de amigos, familiares, casais, colegas de trabalho, colegas de mesa, colegas de pavilhão… Ao beber 20% da caneca, você já esta no terceiro “prost” (o brinde alemão) com seus amigos. Na metade, você já está íntimo da loira do lado. No final da caneca, a garçonete é a paixão da sua vida. Ao iniciar o segundo copo do líquido precioso, todos que passam são seus grandes novos amigos. Prost! E dá-lhe mais prost!, prost! e prost! E o que acontece ao longo da segunda caneca – e das demais – bem, aí é preciso ver fotos e vídeos pra saber exatamente tudo o que aconteceu…

O auge da festa é quando a banda toca. Começa com músicas alemãs e segue por um repertório de Beatles Twist and shout (e você se sente como o Ferris Bueller conduzindo o desfile), La Bamba (e todos viram latinos) e até o clássico gay I will survive (preza que o bom macho nesse momento permanece estático, nada de mexer as pernas ou requebrar a bunda… pois bem, não havia mais machos aqui nessa hora!). E ao som de Cole Porter ou Madonna a la bandinha alemã, todos cantam, dançam, brindam, riem. Romances também podem começar ou terminar por aqui agora. Personagens começam a fazer parte de nossas vidas. Como o “Bruno”, que ganhou de nós esse nome pela semelhança – física e espiritual – com o homônimo do filme do “Borat austríaco”, e que aparentemente perdeu a sua “quase-namorada”. Ou a “Fiona”, que mesmo lembrando a mulher do Shrek não teve nenhuma dificuldade, digamos, em conquistar novas amizades…

Depois de beber mais, dançar, cantar, brindar, beber, brindar e fazer mais e mais amigos, decidimos – se é que alguém conseguia decidir alguma coisa a aquela hora – sair do pavilhão. O Vitor foi resgatar seu tripé (não podia entrar com esse equipamento na área fechada da cervejaria) onde deixara na barraca de uma senhora que vendia bolos de chocolate e, como agradecimento, comprou um generoso pedaço, que claro, veio parar em minhas mãos. Encontramos uns alemães pra quem, não sei por que cargas d’água, bradei “Qual é a melhor seleção de futebol do mundo?!?” – e eu mesmo respondi por eles “Brasil!” (acho que só após algumas cervejas eu poderia acreditar nisso). Repeti a pergunta para o grupo “Qual é a melhor seleção de futebol no mundo?!?” e quando ouvi que um deles começava a responder “Alemanha”, não tive dúvidas – toquei o pedaço de bolo na boca do alemão, que engasgado só pode balbuciar “German…uahac…gasp…uac…”.

Encontramos ainda alguns brasileiros, entre eles um sábio catarinense que, diferentemente da obtusa tcheca da loja de Praga, entendia bem de futebol (como os vídeos comprovarão) e duas paulistas num maldito brinquedo do parque. Aliás, não sei como fomos cair nesse lugar, e menos ainda sei como fui andar num negócio cuja “diversão” é te sacolejar pra cima e pros lados, e fazer com que você se sinta dentro de uma grande máquina de lavar. Coisas que só uma Oktoberfest pode explicar.

Só sei que no dia seguinte acordei num elegante quarto de hotel todo desarrumado, onde vi um cinegrafista dormindo vestido, um travel-writer desaparecido, um misterioso hematoma no meu braço, uma caneca vazia de suvenir ao lado do telefone, um porco com um chapéu bávaro embaixo do armário. Tá bom. Parece que o porco com chapéu bávaro não aconteceu. Ao menos não estava nas fotos.

PS: Ouvi rumores que circula na internet um vídeo no qual participo de um flashmob (aquelas coreografias espontâneo-ensaiadas que surgem de repente em lugares públicos) num parque de Salzburg onde danço como uma das crianças da Noviça Rebelde. Quero depor a meu favor que tudo isso foi efeito da Oktoberfest! Sim, sim, estivemos em Salzburg no dia anterior a Munique, mas a Oktoberfest tem esse poder: em situações raras altera o comportamento da pessoa na Áustria um dia antes da festa. Há casos comprovados de que aconteceu isso com o japonês Tomiko Kokimoto em 1966, que incorporou o Capitão Von Trapp, e mais recentemente com o russo Nathanian Basbabarov em 1998, que jurou ser a madre-superiora.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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