A classe operária vai a Dublin – crônicas da Irlanda parte 1

Sempre me perguntei: porque brasileiros estudam inglês na Irlanda, onde o povo fala com aquele inglês de arrepiar Shakespeare, se tem a Inglaterra logo ali ao lado? Porque raios, trovoadas e bolachas de chope alguém preferiria Dublin a Londres?? Ao entrar naquele voo da Ryanair – que me custou a fortuna de 12 pounds, ou 36 reais (sim, um voo internacional por 36 reais!) – eu estava prestes a encontrar algumas respostas.

A primeira noite foi na amiga Betânia – viajante pioneira do Guia América do Sul –, na espaçosa casa que ela divide com o gaúcho Fabricio (cuja garrafa térmica do Inter pode me assegurar: ele era bom sujeito!). E já cheguei no meio de uma festa, regada a cerveja, forró, ai se eu te pego, e brasileiros, muitos brasileiros. E como que sentado num banco da Praça da Alegria – ou no caso da cozinha – fui conhecendo e conversando com um a um. Havia o garotão casado com uma inglesa que nunca ninguém viu pois ele sempre ia (e aprontava…) sozinho nas festas, a menina de 18 anos que saiu de São Paulo pois não sabia que faculdade escolher, o tatuador que queria tentar a sorte em Londres mas achou mais fácil entrar em Dublin, a jornalista que ganhava mais e vivia menos estressada cuidando de crianças do que exercendo sua profissão no Brasil.

Enfim, histórias de brasileiros, pseudo-exilados como é comum aos brazucas que vivem na diáspora. O que os atraia particularmente em Dublin era a relativa facilidade do visto de estudante: enquanto a Inglaterra exigia uma baita burocracia, na Irlanda bastava estar matriculado numa escola, e o visto era concedido pelo tempo de estudo, fosse 1 ou 10 anos . E na carona do visto de estudante, a permissão de trabalho. (Mas agora algumas regras mudaram; o visto está restrito a 3 anos, ainda assim um tempo considerável, e há uma exigência quanto a grana mínima a dispor, atenção quem planeja ir pra lá).

A Irlanda, não faz muito, já viveu tempos melhores. Era o chamado tigre celta, na comparação aos prósperos tigres asiáticos. Porém, a crise europeia deu uma rasteira no país, e os bons ventos não sopram para todos. O que não impede de atrair mais e mais brasileiros. Fiquei impressionado com a quantidade que encontrei na rua, exercendo atividades cotidianas. Desenvolvi, modéstia à parte, o dom de detectar um brasileiro nos primeiros segundos de sua primeira fala.  Minha próxima meta não será perguntar “você é brasileiro!?”mas já indagar “você é de Juiz de Fora”, “você não veio de Araraquara”. Mais um tempo no exterior e chego lá.

E assim me deparei com o mineiro que fazia plantão na madrugada no hotel em que fiquei a partir da segunda noite, e o com baiano que dirigia uma bike-taxi levando irlandeses bêbados pra casa que nem sempre o pagavam. E se ao pedir uma fatia de muzzarela conheci um entusiasmado paranaense satisfeito por ganhar 12 euros trabalhando numa pizzaria, também encontrei um desmotivado paulista que trabalhava como homem-placa e ganhava 5 euros por isso.

Talvez em outra circunstância eu achasse graça de pensar no trabalho de um homem-placa. Mas ao ver o garoto, naquela manhã chuvosa, por alguns minutos dos suas 5 a 8 horas diárias segurando um poste publicitário que anunciava cortes de cabelo gratuitos, não me pareceu divertido. Comentei que ao menos ele podia caminhar um pouco. Até a esquina, disse ele. A esquina ficava a 4 metros de distância. Pior: o trabalho era terceirizado. Pagava na verdade 9 euros, mas fora dado a chineses que repassavam o trampo e ficavam com uma comissão de quase 50%.

Quando estive pela primeira vez na cidade, há uns 10 anos, via Dublin como uma espécie de subúrbio de Londres. O subúrbio da classe operária. Que ainda não chegou ao paraíso. Não mudei minha opinião – e olha que visitei lugares bem interessantes: o bem-cuidado parque St. Stephans Green; a colorida e debochada estátua de Oscar Wilde, no Merrion Square Park; a medieval catedral de Christ Church; os imponentes prédios do Trinity College; o cosmopolitismo da O´Connel Street. É, o subúrbio talvez tenha ficado mais elegante… Mas ainda repleta de trabalhadores, nos bons e nos maus empregos. Que por isso bebem – ou pra comemorar, ou pra esquecer! E nisso Dublin não é subúrbio algum! Terra da Guiness e de inúmeros pubs, esse é o lado A da capital irlandesa. Ou talvez o verdadeiro lado B de um álbum duplo. Não importa. ‘Simbora’  pro pub!!

6 comentários para “A classe operária vai a Dublin – crônicas da Irlanda parte 1”

  • Arthur Barbosa disse:

    Olha, vivi a epoca de ouro dos Estados Unidos da América, sempre achei que as grandes oportuniddes estão onde você está, trabalhei na antiga VARIG, ajudei mutios amigos a viajar para fora com o sonho de fazer a AMERICA, posso dizer que muitos do que foram realmente consseguram algo, muitos não fazem conta, mas você ganham em dollar ou euro, mas seus gastos tambem são na moeda local do pais. O problema é que o barsileiro não quer fazer no Brasil o que ele é obrigado a fazer em terras estrangeiras., veja o caso dos ORIENTAIS, eles chegam aqui fazem qualquer tipo de serviço, geralmente começam como camelô no Bras ou na Rua 25 de Março, logo estão com seus box e depois sua loja, mas o brasileiro acha porque sai da faculdade com um diploma, tem que exercer uma função superior, Gente os Estados Unidos passou por isso, é exatamente por este motivo que hoje eles estão nesta situação, os americanos com estudo se recusavam a fazer trabalhos de limpesa etc, por este motivo sofre a imigração desordenada, pois o clandestino iria fazer os serviços que o amricano não queria fazer, hoje a coisa mudou, os estrangeiros estão vindo em massa para o Brasil, porque aqui e a bola da vez, quem acreitar neste pais vai ganhar muito dinheiro, só o brasileiro que não ve isso, estamos entregando nosso pais para os estrangeiros, gente vamos aproveitar e estudar, pois só assim teeremos as mesma oportunidades. Agora para quem quer morar fora para curtir a vida, não falo nada, mais o tempo passa, ir para Dublin ou qualquer outro pais, ser ilegal, só para pessoas que não tem nenhum objetivo na vida, agora aqueles que só gostam da bandalheira e da bebedeira, que acham que a vida e só isso, tudo bem.

  • Jaco disse:

    Tambem nao vejo Dublin como uma periferia de Londres. Grande parte de Londres foi invadida por africanos, indianos paquistaneses. Quando falo em grande parte, me refiro que quase nao tem mais londrinos vivendo em Londres. As pessoas mudaram para cidades vizinhas como Kent, Essex, Brighton… Sobre classe C de brasileiros, sim! Londres esta cheia deles. Para conseguir um passaporte falso ou abrir uma conta de banco, soh frequentar a Igreja evangelica dos brazucas que tudo se resolve. Pessoas sem educacao, agressivas, desempregadas e bairros parecendo o oriente medio ou um gueto da africa, sao algumas faces que londres tem. Na opiniao de residente, Londres perdeu sua identidade por tentar virar uma cidade internacional. Perdeu a competencia e educacao britanica porque os imigrantes trouxeram a cultura deles, nao pode tentar mudar a situacao pelos direitos humanos. Se quiserem (ou nao) conferir o desabafo, visitem: Brixton, Camberwell, Peckham, Wilsden, Bethnal green, Limehouse. Hackney, Lewishan e alguns mais que me falha a memoria. COmo eles irao remover as mamas com 5 filhos no baneficio? No way. Salvo as contrucoes antigas e o glamour que ainda resta do passado imponente Ingles, nao vejo muita diferenca entre esses dois lugares.

  • Guilherme disse:

    Me identifiquei! trabalhei no rickshaw, trabalhei segurando placa por 5 euros também (prum cara das ilhas maurício). Arrumei depois outra placa que me pagava 8,65 e cheguei no paraíso! trabalhava 3 horas por dia e só me preocupava em tocar com minha banda de folk rock em um sótão nos subúrbios. curti e aprendi muito sobre a vida me “submetendo” a esses “absurdos”, até porque é mais tranquilo desempenhar essas funções lá do que aqui nesse Brasil Casa Grande/Senzala.

    Só Discordo sobre Dublin ser uma periferia londrina. Uma coisa é ser um lugar próximo e mais pobre, o que de fato é, mas acontece que Dublin e a Irlanda têm uma cultura bastante viva e independente. Existem marcas dos laços históricos, nem sempre harmoniosos, entre as duas nações e obviamente existe influência cultural britânica em Dublin (como até no Brasil tem), mas nada anormal, em medida semelhante e proporcional à influência da cultura irlandesa em Londres eu diria, o que faz com que a hipótese de “periferia” ou “quintal” pareça descabida pra mim.

  • Cristina Grams disse:

    Lendo o texto revive muita coisa.Morei em Dublin em 2008. Adorei.
    Fui para fazer curso de inglês e trabalhar, mas como o trabalho ficou em segundo plano e na época rolou mãetrocínio, fui mesmo viajar e curtir a Europa.Que tempo bom, 4 anos atrás, tudo era diferente.

  • Julie Fank disse:

    Ótimo texto, Zizo!

  • Eduardo Assunção disse:

    muitos brasileiros não se preparam antes de ir e se submetem a coisas absurdas, a meu ver, para viver o sonho europeu. um dos grandes problemas, por incrível que pareça, é a língua. morei lá por um ano e trabalhava na loja da sony, creio que 90% dos brasileiros que atendi, e eram muitos, não conseguiam desenvolver uma conversa em inglês. daí, por necessidade, trabalham nos rickshaws, segurando placas… Mas enfim, Dublin é um lugar legal, uma cidade pacata, mas que dá acesso a Europa de uma forma muito fácil.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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