Tribo

O grande destaque dos últimos dias na Etiópia foi a visita ao povo Mursi, uma das tribos mais características da África Oriental, famosa pelos adornos que as mulheres usam no rosto, em especial na boca. Isolados o suficiente, vivem em aldeias entre as montanhas e o rio Omo no sul da Etiópia, em áreas hoje definidas como Parques Nacionais, como o Mago National Park. Para chegar até lá, fui ao povoado de Jinka, e deste peguei uma moto, junto a um guia. Seria quase impossível para um estrangeiro chegar lá sozinho, pra não dizer bastante arriscado.

 

 

 

 

 

Após quase duas horas cruzando as majestosas vistas do Vale Omo, dentro do parque, chegamos numa área árida onde um pequeno clã dos Mursi se estabelecera. Havia outros nas redondezas, mas o guia me disse que esse era um dos mais amistosos. Não foi essa exatamente a minha primeira impressão, ao notar, logo na entrada, um grupo de 5 homens deitados sob uma sombra, em posição de alerta,  alguns deles com armas em punho. Eram os seguranças da aldeia, explicou o guia, que me orientou a não fotografá-los, ou então que negociasse um pagamento com eles. Essa era a regra do local: pagar, negociando o valor, aqueles que você quisesse fotografar. Logo os Mursi foram aparecendo na minha frente, provocando alguns dos momentos mais excitantes e também desconfortáveis da viagem.

A excitação surgiu tão logo me encontrei no meio daquele povo absolutamente diferente de tudo que eu já tinha visto. Homens com o corpo pintado, crianças com arco e flechas, mulheres seminuas com um disco na boca. Esse é elemento visual mais característico da tribo: um pequeno prato de argila que estica todo o lábio inferior, considerado por eles um enfeite, uma forma de a mulher se embelezar para o seu marido. E, não podemos negar, de atrair a atenção dos turistas. De qualquer maneira, elas usam aquilo mesmo sem a presença de forasteiros, e eu era o único a estar ali.

Situação bastante desagradável foi ter de escolher alguns deles para fotografar. Num determinado momento, todos se postaram alinhados, lado a lado, esperando que eu apontasse quem ganharia uns trocados para servir como modelo das minhas lentes. Parecia que tinham um preço, como se eu estivesse num mercado humano, o que me incomodou bastante. A maioria não falava qualquer outra língua que não seu dialeto tribal  (felizmente o guia entendia mursi) e tampouco eram amistosos numa tentativa de comunicação. O povo Mursi tinha o hábito de beber, e, eu já tinha lido sobre isso, era desaconselhável visitá-los à tarde, quando poderiam estar um pouco bêbados – e alguns agressivos. Bem, já eram quase 4 horas da tarde, e definitivamente eu estava pouco à vontade ali.

Resolvi parar de fotografá-los e apenas caminhar pela aldeia, o que me deixou mais tranquilo por alguns momentos. Mas eu era um estranho absoluto no ninho, e alguns deles pareciam desgostar. Decidimos nos mandar sem muita demora. As duas horas em que permaneci por ali, apesar de toda estranheza, foi uma das experiências mais surpreendentes que já tive em viagem – se a Etiópia já era outro mundo, vivenciar aquela aldeia foi como adentrar em outra dimensão, outra época, outra civilização.

Ao partir de Jinka, no dia seguinte, a caminho do Quênia, fui ter outra experiência bizarra, involuntária – que me deixou ainda mais desconfortável do que quando estava entre os Mursi alcoolizados: uma viagem de ônibus, um velho veículo identificado apenas por “Boeing 777″, que teve como passageiros… presidiários, uns 6 ou 7, sem algemas, nada! Acompanhando eles, apenas dois policiais armados, e com maior pinta de despreparados. E eu ali no meio. Num determinado momento rolou uma discussão entre eles, vozes exaltadas. Só não pulei do ônibus pois achei que ficaria horas parado na estrada – e numa zona de malária. Mas eu não podia reclamar. A Etiópia havia superado todas as inimagináveis expectativas.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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