Que viagem, cara!

Foi animador conhecer Konso. Agora eu me destinava a outra tribo, Mursi, esta bem mais inóspita do que a anterior: ainda vivem isolados, em vilarejos sem acesso por transporte público. Viajar pela África definitivamente não é fácil! O maior transtorno é na questão tempo. Os africanos têm uma espantosa despreocupação com isso, a ponto de ficar horas dentro de um ônibus, esperando calmamente o veículo partir – o que só acontece quando o carro estiver cheio. De maneira geral, os ônibus sempre saem de manhã cedo, em torno das 5h30 da madrugada.  O problema é que frequentemente esse é o único ônibus que vai a tal localidade no dia, mesmo que não seja muito longe.

 

 

 

 

 

A anatomia da viagem rodoviária. Você está na cidade A e que ir à cidade D, que fica a uns 500km, trajeto que na concepção ocidental pode levar em torno de 6 horas. Pois na África pode levar 3 dias! Afinal, para chegar em D, você precisa pegar um ônibus que parte de C, que por sua vez se toma em B. Então você sai às 6h de A, viaja 150 km e chega às 10h em B. Mas de B para C, embora seja mais uns 150km de distância, só há um ônibus saindo às 6h ou 7h da manhã também, de modo que você só conseguirá partir no dia seguinte. E o mesmo provavelmente ocorrerá no dia seguinte, no próximo destino. Estou aprendendo a trabalhar minha paciência como nem em países budistas fui testado! Mas estou feliz com o resultado. Tenho curtido muito essas viagens de ônibus – que sempre tocam um som africano no rádio dos carros, o que ajuda no clima, por oras me fazendo sentir como se estivesse dentro de um alternativo filme on the road.

 

 

 

 

 

Ao sair de Konso, peguei o mesmo ônibus com o qual partira no dia anterior de Addis Ababa, com o mesmo motorista, cobrador e até passageiros. Eu me tornara um “velho amigo” de todos, o branquela que andava pela Etiópia fotografando sabe-se lá o que. Nessa condição, me cederam um lugar bem na frente, a fim de que pudesse fotografar tudo que desejasse. Das montanhas baixas que avistava ao longe aos vilarejos perdidos junto à estrada. Dos passageiros dentro do veículo que apenas esperavam o tempo passar (raros liam ou conversavam) ao cobrador descolado que mastigava uma folha meio ilegal. Que aliás, ele me ofereceu.

Ilegal fora da África Oriental, diga-se. Ou ao menos da Etiópia. Trata-se do khat, uma plantinha estimulante, que dizem ser similar a uma anfetamina, provocando euforia e excitação. O cara mastigava ali, abertamente. Perguntei se era permitido e ele me garantiu que sim. Insistiu que eu provasse. Neguei. Depois, porém, pensei “oras, não quero conhecer a cultura africana? Então vamos lá”. Peguei de sua mão aquela plantinha, que me lembrou a folha de coca, bastante consumida na Bolívia e no Peru (igualmente legalizada por lá, mas proibida fora desses países) e joguei na boca. Percebi que estava sendo completamente observado por todo o ônibus, que aguardava ansiosamente pela minha reação.

 

 

 

 

 

 

 

E qual seria a reação de um estrangeiro ao provar uma polêmica substância natural africana? Bom, só sei como eu reagi. Fiz uma inevitável careta de quem achou o gosto muito, muito ruim, tentei dar algumas mastigadas mas não me contive – abri a janela e cuspi aquela gosma verde. Só ouvi gargalhadas no ônibus. Deu barato? Ora, eu era o único gringo dentro de um velho ônibus africano que tocava sons tribais no sul da Etiópia, contemplando uma paisagem absolutamente singular… a última coisa que eu precisava era de uma plantinha alucinógena pra dar barato!

Um comentário para “Que viagem, cara!”

  • Cristiane disse:

    Realmente, pra quê mais barato do que toda essa viagem…Foi como se estivesse neste ô nibus contigo, deu pra ouvir os sons, sentir a forma e sabor da folha, a expectativa ansiosa de todos por sua reação, parar de respirar alguns segundos e gargalhar juntos. Gratidão por compartilhar conosco!

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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