Uma noite entre os Konso

Mango estava revoltado. Por que o ônibus espera lotar para sair se pode pegar passageiros no meio do caminho? – bradava ele. Eu me perguntaria isso sempre, em todas as viagens que faria pela Etiópia. Os veículos sempre partem cedo pela manhã, em torno das 6h (ou 12h, no horário etíope), e apenas eventualmente em outros horários, conforme os destinos e a procura. Estávamos no meio da tarde no aterrão que era a “rodoviária” de Arba Minch, e precisou de mais umas 2 horas, após certa confusão – o que incluiu a troca por um carro menor, uma van – para partirmos. Assim, só fomos chegar no povoado de Konso no início da noite, o que irritou Mango. Por um motivo específico: não havia luz ali. Até existia um gerador que, em alguns momentos de alguns dias, fornecia energia, mas não era o caso agora.

Descemos junto a um bar que também fazia as vezes de hotel. Hesitante, Mango me pergunta se eu não preferiria ficar naquele hotel, que, segundo ele, seria mais confortável que sua casa. Mas o lugar era tão espelunca que eu duvidava disso. E, além do mais, eu estava ali justamente para conhecer o modo de vida de sua tribo. A menos que ele não quisesse, eu estava decidido a ir com ele. E assim, guiados por uma lanterna, seguimos pela via principal – a estrada – para em seguida entrar numa ruela, de terra, que daria acesso à sua comunidade.

Em menos de um quilômetro chegamos na casa de sua irmã. A escuridão me impediu de observar o lugar, mas de imediato achei bem mais agradável do que aquele hotelzinho à beira da estrada. Logo fui apresentado a todos: irmã, cunhada, sobrinhos – como o menino Israel e a garota Jerusalém. Os nomes já revelavam a admiração da família pelo Estado de Israel – Mango me contaria depois que seu sonho era conhecer este país (Bersheva, nome da nossa amiga de quem nos despedimos em Arba Minch, também é nome de uma cidade israelense, assim como Ariel, o filho de Mango, o que torna evidente a estima de muitos nativos por esta pequena nação do Oriente Médio; aliás, também não é raro encontrar etíopes judeus).

Percebi que a casa era pequena, e fiquei preocupado em tirar a cama de alguém – talvez essa fosse a justificativa pela hesitação de Mango. Embora preferisse dormir ali, perguntei ao meu amigo etíope se não era melhor eu ir pro hotel, a fim de que ninguém perdesse seu colchão, mas ele me garantiu que havia outras casas no terreno, e tinha espaço para todos.

Hora do jantar. Imediatamente recebemos um prato com algo tipo batatas com uma planta verde. Mango me explicou que tratava-se de korkufa com moringa. Korkufa era parecida com batata, só que feita à base de milho e farinha. Mas o orgulho dele era a moringa, cultivada ali mesmo na sua casa. Segundo ele, era uma planta de grande valor nutricional, difícil de ser encontrada na capital, mas abundante na região de Konso. Confesso que não apreciei o sabor, mas seria muito mal-educado não comer. Fiquei imensamente feliz quando surgiu um segundo prato, a minha já conhecida injera, acompanhada de feijão, ou uma temperada lentilha, sei lá, chamada aqui de berbere stew.

Mango me convida a conhecer mais do povoado. Nossa primeira parada é a casa da noiva, e o local já estava em festa. Enquanto os mais jovens escutavam música e dançavam, os mais velhos, em especial as mulheres, preparavam a comida que seria servida no dia seguinte, na cerimônia de casamento. Fui extremamente bem recebido, sendo apresentado a um por um – a maioria familiares de Mango. Logo aprendi o cumprimento nativo: me curvar junto ao ombro esquerdo da pessoa, enquanto ela faz o mesmo comigo.

Sou levado a uma cabaninha onde, em um grande barril, faziam um preparo especial: a cerveja da tribo Konso, que imediatamente me é oferecida. Encorpada e saborosa, aprovei. Conheci a noiva, que me posou para uma foto ao lado do seu vestido. Aliás, fotografei bastante, talvez mais a pedido de Mango do que por minha iniciativa. Havia me tornado uma espécie de “fotógrafo de casamento”, incumbência que não me incomodou nem um pouco.

Eu estava na “zona urbana” de Konso, e Mango queria me mostrar o lado mais típico do povoado. E assim seguimos por mais meio quilômetro até uma área fechada, que ele adentrou com grande intimidade. Se antes havia algumas luzes esparsas, mais a fogueira que fervia a água das caçarolas, agora estávamos numa escuridão absoluta, e a lanterna do meu celular de 25 dólares demonstrava ser de grande utilidade. Andávamos por um labirinto cercado por muros de pedras e galhos de árvores. Mas realmente fui sentir que estava numa zona tribal ao avistar um dos elementos mais tradicionais dos Konso: as cabanas, geralmente abertas, com uma base de pedras, estrutura de madeira e teto de palha. Um cara dormia em uma delas.

Caramba, eu estava num tour particular, era isso que Mango me proporcionava. Enquanto andávamos pelo labirinto de ruelas, aquele simpático etíope me contava sobre a cultura da sua tribo – a funcionalidade das casas, a liderança dos mais velhos, as particularidades da língua própria, a economia baseada na agricultura, o cerimonial de morte. O que muitos faziam de forma turística eu estava tendo o privilégio de vivenciar da forma mais genuína possível.

Escutamos um barulho vindo de algum lugar, e fomos até o local – um grupo de garotos cantava e dançava em estilo tribal (embora estivessem vestidos “normalmente”). Estavam a celebrar o casamento de um deles. A poligamia é costume entre os Konso – não é de se estranhar, portanto, tantas festas de casamento no povoado. Mango, sempre popular e socializante, com nove irmãos (seu pai tinha apenas duas esposas), não tardou a nos inserir no ambiente.

Já era tarde quando voltamos à sua casa. No quarto, havia duas grandes camas de casal. Em uma, dormia sua irmã e duas crianças. A outra estava reservada para nós. Tentei não demonstrar surpresa ao perceber que dividiria a cama com Mango. Nem preocupação por não haver rede de proteção de mosquitos, o que eu sempre havia encontrado até então na Etiópia. Mas não percebi mosquitos por ali. Apenas me acomodei no canto direito e tive uma das noites mais bem dormidas de toda a viagem.

4 comentários para “Uma noite entre os Konso”

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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