Um ônibus chamado aventura

Eu sempre dependo da bondade de estranhos. Essa é uma daquelas frases famosas do cinema, imortalizada pela atriz Vivien Leigh no filme Um Bonde Chamado Desejo. E poderia ser bem aplicada a toda minha viagem pela África.

Considerando que você não fala amárico, no caso da Etiópia, nem é um afrodescendente, será inevitável em algum momento, em algum lugar (pra não dizer em vários momentos, em vários lugares), se encontrar perdido. É aí que o instinto samaritano do africano, do etíope em especial, se manifesta de forma latente, e sempre aparecerá alguém, com uma surpreendente base de inglês, para te ajudar, indicar que caminho seguir – ou onde pegar o ônibus certo.

Só assim, no emaranhado de veículos parados naquele aterro tomado por poças d’água (havia chovido à noite), entre milhares de viajantes africanos acompanhados de suas malas e sacolas, ainda no crepúsculo da madrugada, consegui descobrir qual era o ônibus que iria ao povoado de Jinka, no sul do país. Um cara cujo rosto eu mal podia enxergar me levou até o carro certo – e o fez de forma que não pude deixar de achar engraçado: me conduzindo pela mão, como se eu fosse um garoto de 8 anos guiado pelo pai.

O veículo, como eu já esperava, era uma lata velha que testaria todas as minhas virtudes viajantes (bom-humor, paciência, instinto de aventura), aliás, como deve ser em qualquer viagem, principalmente aqui, no continente africano. Para confirmar se eu estava no carro certo e conseguir comprar a passagem contei com a ajuda de outro estranho – que em algumas horas iria ganhar o status de irmão africano -, o carismático Mango.

Mistura de Muçum com Aílton Graça, Mango vestia uma camisa que fazia com que ele parecesse o turista estrangeiro. Divertido, conversador, fluente no inglês, não economizava no largo sorriso. E assim foi fácil nos tornarmos amigos, ainda mais quando ele mudou de lugar (não que houvesse lugares marcados) para sentar ao meu lado. Quando o ônibus encheu e estava prestes a partir, perto das 7h da manhã (quase 1h após eu ter chegado), surge uma passageira que, num improvisado banquinho no meio do corredor, senta ao lado de Mango. Bersheva era seu nome. Estava formada a dupla que seria minha companheira pelas próximas 10 horas.

Bersheva era engenheira civil. Se dirigia a Arba Minch, para trabalhar nas estradas que estavam sendo construídas no sul do país, obra dos chineses invisíveis que invadiram parte do continente. Simpática, discreta, nascida na capital, era o retrato da etíope urbana, classe média, profissional liberal.

Já Mango era a verdadeira figura folclórica africana, e sobre sua história passamos longas horas conversando. Ele pertencia à tribo Konso – se destinava para lá, no vilarejo de mesmo nome, para um casamento -, e demonstrava grande orgulho de seu povo. Nos mostrou vídeos em sua filmadora, com cenas de músicas e danças. Descreveu as casas típicas, sem paredes e com teto de palha. Comentou aspectos culturais, como a poligamia. Ele, no entanto, que morava em Addis Ababa, tinha somente uma esposa. Mas flertava com Bersheva descaradamente. Não resisti em lembrá-los que ela poderia ser a segunda esposa dele. Rimos da situação, Mango confirmando que sim, Bersheva afirmando que jamais seria a segunda mulher de ninguém.

Também passei boa parte da viagem fotografando as paisagens rurais pela janela do ônibus. Isso se tornaria um hobby ao longo dos trajetos rodoviários seguintes. Já na metade da viagem todos os passageiros demonstravam estar íntimos comigo, e me incentivavam a ir para a parte da frente do veículo para fotografar alguma determinada imagem ou mesmo algum dos passageiros.

 

 

Mango, ciente da minha inesgotável curiosidade, me faz uma proposta indecente: acompanhá-lo em seu vilarejo. Hesitei num primeiro momento, mas logo percebi que era uma rara oportunidade de conhecer uma das tribos africanas pelo olhar de um verdadeiro nativo.

O ônibus terminaria seu trajeto aquele dia em Arba Minch, por volta das 16 horas (continuaria a Jinka no dia seguinte – por questões de segurança, aliado a uma impressionante falta de pressa, raramente os veículos trafegavam à noite). E no dia seguinte, pela manhã, passaria por Konso, o povoado do meu novo amigo, de modo que eu poderia ainda naquele fim de tarde conhecer o seu vilarejo, passar a noite com sua família e, no dia seguinte, embarcar no mesmo ônibus.

Na última hora, a hesitação partiu de Mango. Talvez receoso que eu não fosse gostar, ou que achasse seu modo de vida muito simples, ou ainda que eu ficasse desconfortável em sua casa, senti que ele titubeou por um momento. Se eu não quisesse, que não me constrangesse a não ficar com eles. Tarde demais. Ainda que um pouco inseguro, eu já havia decidido: queria conhecer a tribo Konso e passar à noite por lá, sem ter a menor ideia de como seria isso.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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