O crime de Addis Ababa

Planejar uma viagem pela Etiópia, pela África em geral, é façanha das mais complicadas. Eu planejava conhecer algumas das ancestrais tribos do sul do país, e chegar até lá não era tarefa fácil. Ou melhor, até seria, se eu contratasse um tour particular. O local não costumava ser muito procurado – a maioria dos turistas seguia ao norte, em especial a Lalibela, visitar as famosas igrejas monolíticas, esculpidas em rochas. Portanto, segundo os agentes de turismo que consultei, dificilmente haveria alguém a fim de compartilhar os custos de uma viagem ao sul – e me custaria 850 dólares, por 3 dias de viagem.

O alto custo da viagem era o estímulo que precisava para viajar como os nativos, de ônibus comum, pagando a mesma passagem e enfrentando as mesmas dificuldades que o povo local (ou até mais, pela barreira da língua). Decidi, a fim de buscar informação de preço e horário, ir até uma das “estações de ônibus” de Addis Ababa, de onde saíam os veículos ao sul do país. No caminho, passei pelo merkato, considerado o maior mercado aberto da África (na verdade um enorme camelódromo). Quanto à estação, tratava-se de um grande terreno aberto, de terra, onde os ônibus paravam em qualquer lugar, aparentemente com pouco ou nenhuma organização. O guichê da bilheteria era outro caos. Mas eu só entraria no universo das viagens rodoviárias no dia seguinte.

No caminho de volta, esbarrei num cara que, simpático, se desculpou. Começou, como fazem muitos dos etíopes, a puxar conversa. Foi aí que falhei em deixar que quebrasse uma das regras que mencionei num post anterior: o toque, ainda que no estilo fraternal estilo tapinha nas costas. Na despedida, assim que o cara saiu, passei a mão nos meus bolsos frontais, conferir bolso esquerdo, carteira (com o dinheiro do dia, pois o montante maior guardo sempre em doleira, dentro das calças); bolso direito, celular. Celular? E cadê o celular???

O cara tinha levado. Com a habilidade de um ilusionista, ele pegou sem que eu percebesse nada. Fazia provavelmente menos de 30 segundos, mas o tal marginal já tinha desaparecido. Impulsivamente gritei “ladrão, fui roubado”, o que iniciou um pequeno alvoroço. Vi um cara com a mesma camisa amarela da Etiópia que o ladrão vestia, e apontei pra esse cara, ele tentou fugir mas eu o segurei pelo braço. Uma multidão começou a surgir. Assustado, ele sinalizou que não sabia de nada, e de fato não sabia, não era ele, e imediatamente o soltei. Mas o tumulto estava formado. Os etíopes não admitem o roubo. Os que estavam à minha volta pareciam tão ou mais indignados do que eu. Alguns se ofereceram a ligar pro meu celular, mesmo sendo um número do Brasil. Olhavam ao redor, tentando achar o ladrão. Tentavam me ajudar de alguma forma. Eu já sabia, porém, que a aquela altura era impossível encontrar o aparelhinho. Aí surge um policial, que sugeriu que eu fosse à delegacia, o que é imediatamente incentivado pela plateia que havia se formado. Eu tinha certeza que aquilo não iria dar em nada, mas resolvi ver qual era e segui com o guardinha até um posto policial próximo, o que se demonstrou algo bizarro.

Passei por três policiais até chegar em alguém que falava inglês. Uma menina policial. Ela me explica o procedimento: vão tomar informações sobre o “crime” e aí vão “investigá-lo” – foram essas palavras que ela usou mesmo. E aí sou passado a um outro policial, junto a um novo tradutor (que surgiu do nada, e aparentemente nem trabalhava na polícia) que, em prol do processo investigativo, me faz inúmeras perguntas importantes, como qual era a minha religião e de quanto era o meu salário (sim, e ainda insistiu nessa questão depois que tentei desconversar). O policial solta um longo e engraçado suspiro quando digo que poderia reconhecer o cara que me roubou. Pergunta se eu poderia reconhecer também olhando fotos de um livro de “criminosos”. Mais do que pensar na resposta, me imaginei folhando fotos e mais fotos de africanos acusados de todo tipo de furto e respondi que provavelmente não – embora o reconheceria se ele aparecesse na minha frente. Aí o cara me diz que iriam investigar e que iriam trazer alguns “suspeitos” pra que eu identificasse. Confirmei o entendimento: vocês vão trazer aqui suspeitos de terem roubado meu celular?? Vão catá-los nessa cidade de 3 milhões de habitantes??? Baseado na minha descrição???? (Black, short hair, yellow shirt?? – na verdade fizeram mais perguntas sobre mim do que sobre o larápio). Sim, era isso mesmo.

E aí o guardinha dos longos suspiros diz que vai passar o caso pra polícia civil investigar (pois ele era polícia militar) – e me encaminha a uma mulher, aparentemente a chefe, que me passa a outro cara, algo tipo de detetive, para mais uma rodada de perguntas, o que começava a me cansar. E eis que o tal investigador me pergunta se eu poderia “reconstituir o crime no local onde aconteceu”. Claro, até porque já estava me sentindo eu o preso naquele quartel. E assim voltamos à rua.

Fazendo o papel do bandido, e o detetive no papel de Zizo, mostro como foi o esbarrão e o imperceptível afano do meu bolso. O policial conversa com locais. Um novo circo é formado. Ele pede mais uma reconstituição. Aprimoro meu trabalho de interpretação. Talvez no futuro posso seguir na dramaturgia especializado em papeis de ladrões etíopes.

Satisfeito, o detetive diz que podemos voltar à policia. Nem pensar. Digo que preciso ir. Ele insiste, diz que devo “reconhecer os suspeitos”. Reafirmo que não posso, que tenho de entrar em contato com a operadora do celular, bloquear o número, mas que eles tinham meus contatos no hotel, que “me ligassem e eu iria a delegacia assim que tivessem os suspeitos”. Achei melhor não comentar que em algumas horas eu estaria fora de Addis Ababa.

Lamentei a perda do celular, mais pelos aplicativos que eu tinha baixado para essa viagem e por alguma fotos antigas do que pelo aparelho propriamente. Passado a chateação inicial, percebi que o episódio nada afetou a curtição da viagem – antes pelo contrário, quem precisa de celular numa viagem??? Bem, eu precisava. Menos pelo telefone em si, nunca habilitado, do que pelo relógio, alarme, calculadora e até lanterna, úteis na viagem. E assim, entrei na lojinha de celulares que havia bem em frente ao “local do crime” e comprei um modelo dos mais baratos que havia.

Quem ja assistiu a uma palestra minha ou ao curso travel-writer sabe que quando abordo o tema “segurança” costumo falar que já visitei países como Bolívia, Índia, Nepal, Marrocos,  Egito, mas fui ter um item meu roubado (no caso, uma carteira) em… adivinhe, adivinhe, adivinhe… na Dinamarca! Bem, lástima que agora vou tirar essa exclusividade de um país europeu.

Mas tudo bem. Se o Silvio Santos me perguntasse: “Zizo, você quer ir a Etiópia e trocar seu iPhone 3 com alguns arranhões na tela por um Nokia de 25 dólares??? – eu prontamente responderia: “siiiiiiiiiiiiim!!!”.

2 comentários para “O crime de Addis Ababa”

  • Gornatti disse:

    Zizo, o “Ababa” no título foi um trocadilho ou te enganaste pela pressa?
    Abraços !

    • Zizo Asnis disse:

      Gornatti, o nome da capital etíope é Addis Ababa. Já vi em português como Adis Abeba, mas realmente não vejo sentido em traduzir, ao invés de adotar o original. Só faz parecer que o cara tá falando o nome da cidade errado. Abraços

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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