Andar, dormir, comer

Caminhar, caminhar, caminhar, a melhor coisa a se fazer numa terra estrangeira. Estimula o corpo e a cabeça como nenhuma outra atividade. Seu senso de observação vai às estrelas. Você escreve um livro mental enquanto percorre ruas e esquinas. Defina alguns pontos de visitação, por interesse (museu, praça) ou por necessidade (centro de informações, estação de ônibus) e deixe seus pensamentos correrem soltos ao longo do trajeto. É quando surgem as descobertas – um prédio curioso, um restaurante bacana…

No meu caso, surgiu um hotel. Viciado em escrever guias de viagem, acabo parando nos lugares e pedindo informações – quantos quartos têm, quanto custa pra uma pessoa, e pra duas, tem café da manhã? Era o Churchill hotel, estilo 4 estrelas. A muito simpática recepcionista pergunta se quero ver a habitação. Malditos hábitos de travel-writer… E fico impressionado – parece que estava na suíte presidencial, enorme, confortável, bem organizada com vários ambientes. O moça, sempre sorridente, afirma que o quarto vale 300 dólares, porém, como era baixa temporada, ela poderia fazer por 85. Bom negócio, mas respondo que não preciso de um quarto tão grande . Ela então me oferece um menor, por 60 dólares, com café da manhã incluído, traslado, internet wireless (internet! o blog, ao menos no começo, estaria salvo). Topo.

Schinala, a recepcionista, informa que, como o quarto é menor, se eu não gostasse, ela trocaria pra mim. Peço um andar alto, com vista, e ela me dá no 10º (penúltimo) andar, lembrando novamente que me daria outra habitação se que não gostasse daquela. Estava esperando um quartinho minúsculo de fundos – e eis que levo um susto ao abrir a porta. Amplo, limpo, com TV a cabo (BBC e Al Jazhira me mostraram o papa no Brasil), banheiro espaçoso e ótima vista da cidade. Como poderia querer trocar de quarto??

 

 

 

 

 

 

 

Addis Ababa possui algumas atrações interessantes, e minhas andanças as tinham como pontos de referência. O pequeno porém tocante Red Terror Memorial Museum, que retrata o sangrento período em que a Etiópia foi governada por um regime comunista, nos anos 70 e 80. O National Museum, onde fica Lucy, um dos primeiros seres humanos da história, que acredita-se ter vivido nesta região há mais de 3 milhões de anos. O Etnological Museum, que retrata a história e cultura do país. Este último fica dentro da universidade, que me pareceu um pequeno oásis de arborização na capital etíope.

 

 

 

 

 

 

Ao sair do museu, andando na rua e pedindo informações, conheci Tewodros. Baixinho, meio careca, aparentava uns 35 anos, demonstrava ser um cara bastante tranquilo, do tipo que te inspira confiança de imediato. Seguimos caminhando juntos. Ele me conta trabalhar com turismo, eventualmente atuando como guia, e que viveu por pouco tempo na França, onde não se adaptou – revela ter achado as pessoas “ocupadas demais” (é o outro lado da moeda: os africanos têm uma enorme despreocupação com o “tempo” – esse assunto dá pano pra manga).

Conversa vai, conversa vem, num fluente inglês (o que não é exatamente raro encontrar aqui), ele me convida a ir num típico restaurante etíope, um dos mais antigos e tradicionais da cidade: o restaurante Addis Ababa. O ambiente era absolutamente genuíno. Mesas de madeira de coloração vermelha espalhadas numa ampla sala oval, ocupadas por alguns grupos de etíopes, todos de homens.

O pedido não poderia ser outro – o mais típico dos pratos etíope: a injera. O “prato” é uma grande massa de panqueca sobre a qual vem porções de diferentes carnes – de boi, frango, cordeiro, algumas bastante picantes (existe também a opção vegetariana). Sempre com as mãos, você “arranca um pedaço do prato”, prende uma porção da panqueca entre os dedos e mergulha na carne. Comer dessa forma já seria uma boa experiência não fosse a comida também bastante saborosa. A partir dali, comi injera (com suas variações) praticamente todos os dias em que estive na Etiópia.

Pra completar, Tewodros (a versão latina do nome seria Teodoro) me apresentou a bebida típica do país: tej, o vinho local feito a base de mel. Interessante, mas não exatamente bom, nem ruim; diria “pitoresco”.

Tewodros foi o primeiro das grande figuras com quem me deparei que ajudaram a tornar minha estadia na Etiópia sensacional.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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