Perdeu boy, perdeu

Comecei a andar por Addis Ababa com minha câmera fotográfica bem guardada na mochila. Não me sentia à vontade de tirá-la dali. Como único branco nas ruas, era constantemente olhado, o que inicialmente me deixou pouco confortável. No momento, porém, em que vi vários burrinhos atravessando umas das avenidas principais com a maior naturalidade, não resisti. A partir dali comecei a relaxar e a caminhar mais tranquilamente, fotografando e seguidamente interagindo com o povo local.

Algumas situações, claro, eram inconvenientes. Quando apareciam os pedintes. Os que queriam te vender algo. Os que começavam a puxar papo. Esses formam o grupo mais ingrato, pois você deve distinguir o chato que te aborda como “hello, how are you, where are you from?” pra logo na sequência te empurrar algo que você não quer comprar daquele outro que está realmente interessado em você,  em trocar uma ideia sincera, no intercâmbio cultural, que é afinal o ponto alto de uma viagem independente.

De qualquer maneira, imponho limites nessa abordagem, considerando que não estou falando com o nativo do último caso. Não insistir demais. Não me seguir ou me acompanhar. E, de modo geral, não me tocar (excetuando apertos de mão, claro, ou contato físico num ambiente amistoso).

Pois eis que surgem uns meninos, de uns 11, 13 anos, sinalizando estarem com fome (gesto que aqui, infelizmente, ficou banalizado), que rompem todas essas barreiras. No primeiro momento, enquanto eu tentava me livrar deles, uns etíopes que caminhavam por ali gritaram alguma coisa que os fizeram se afastar. Mas não durou muito, e logo os pirralhos retornaram, quebrando a mais inadmissível das regras, me pegando pelo braço. Novamente, vem a intervenção dos cidadãos locais. Um deles chega de maneira mais veemente em cima dos garotos, e literalmente os bota pra correr em definitivo. Perdeu, boy, perdeu. Atravesso a rua e outro etíope me alerta que aquelas crianças, não tão inocentes assim, estavam tentando me roubar. Bom, não foi dessa vez que eu seria roubado na Etiópia. Não dessa vez. Ironicamente, um dos garotos, o líder do grupo, vestia uma jaqueta da Seleção Brasileira.

Eu passaria a andar mais desperto ainda – mas o quase roubo de forma alguma me intimidou a continuar percorrendo a cidade a pé ou mesmo a fotografar. Muito menos conversar com as pessoas. Como brasileiro, somos formados e pós-graduados na questão segurança. Ainda que eventualmente, ao longo do curso, possamos escorregar algum dia. Alias, esse dia seria o dia seguinte.

(Nota do viajante: trombadinha na Etiópia com camiseta do Brasil é a sacanagem da piada pronta. Mas aqui nesse país africano isso não quer dizer muito. No começo até contava, mas lá pelo quarto ou quinto cara, desisti: vi mais etíopes vestindo a nossa camiseta do que de todas as outras seleções de futebol do planeta somadas).

3 comentários para “Perdeu boy, perdeu”

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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