A miséria

A miséria explode aos olhos. Você sabe que a Etiópia é um país pobre, então está, de certa forma, preparado para ver a pobreza nas ruas – como se fosse em uma favela ou uma área desprovida de uma cidade brasileira. O nosso país, porém, é Europa se comparado com esta nação africana.

Ruas sujas, praticamente sem calçadas, prédios velhos, parecendo abandonados, carros caindo aos pedaços circulando desordenadamente, em vias com semáforos apagados, desviando de cabras ou vacas – esse foi o primeiro cenário com que me deparei. Mas nada foi pior do que o povo na rua: o abandono em que se encontram muitos etíopes. Se a grande maioria parece viver num vasto círculo de pobreza, há os que estão ainda abaixo desse, e não são poucos.

Homens jogados no chão, atirados em algum canto, encostados em algum muro, deitados na calçada, ou mesmo um, que estava exatamente no meio da rua, esticado no asfalto: os veículos desviavam como se fosse um cachorro atropelado. Alguns doentes, por vezes amparados em uma segunda pessoa, cambaleiam por entre os carros parados no tráfego – pedem esmola e exibem explicitamente sua enfermidade: cegueira, aleijamento, lepra. Também vi mulheres raquíticas sentadas no chão e com  crianças no colo, exatamente como aquelas cenas que varreram o mundo nos anos 80 (e que eu julgava passado).

Uma das mulheres, pelo ar desesperador, me chocou muito. Não gosto, não costumo fotografar pessoas assim. Porém, como era um retrato contundente do que estava testemunhando, tive que ligar minha câmera. Após registrar as imagens, deixei umas notas de barr, a moeda local, em sua mão, como que pedindo desculpas por tirar fotos, ao invés de tirá-la dali.

Esse quadro infernal, que de imediato me fez querer ir embora daquele lugar, foi minha primeira impressão da capital etíope. A segunda não foi muito diferente. Mas comecei a enxergar um pouco mais de vida, a notar a batalha diária de cada um para seguir adiante, de não se deixar contagiar pela tristeza que a penosa situação facilmente provocaria. Perceber isso fez crescer minha admiração pelo povo, e assim, só assim, pude começar a viajar pelo país.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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