A primeira mesa

Fui para o Taitu hotel, popular entre viajantes, famoso por ter sido o primeiro hotel de Addis Ababa (é de 1898). Se alguns quartos eram originais, o meu deveria ser um deles. O banheiro em particular era muito precário. Não era caro, 21 dólares, mas também não achei exatamente uma barbada considerando a estrutura do lugar e por estar na Etiópia, um país supostamente barato. E logo veio o pensamento: será que não há mosquitos/baratas/aranhas/cobras/jacarés nesse quarto? Quando pensei em lançar um olhar mais aguçado sobre o que se escondia entre o chão, o teto e as quatro paredes, lembrei do lema que adoto desde que viajei pela Ásia, há 18 anos: “não procure o que você não quer encontrar”.

O maior estresse foi a internet. A rede wireless não funcionava (“tomorrow maybe”, disse a recepcionista… sei, já ouvi essa história antes) e havia um computador na recepção que se me disserem que é um modem de ligação telefônica, eu acredito. Bons tempos em que eu podia viajar sem me preocupar em me conectar com o mundo, sem saber o que acontece no trabalho, sem espiar o facebook. Viajávamos, não sabíamos o que era internet e éramos felizes.

O hotel compensou mesmo pela manhã: o breakfast, pago a parte (4 dólares), era muito bom, um buffet repleto de comidinhas etíopes, entre algumas não tão etíopes assim (como fatias de uma pizza meio durinha mas ok), servido numa agradável área rústica. A verdade verdadeira era que nada era muito estranho ao paladar, apenas não costumo comer no café da manhã – como uma espécie de massa de lasanha, apimentada e cortada em retângulos; pedaços de batata com tomate, cebola e chili;  rolinho de primavera, como de restaurante chinês; ou massa de panqueca enrolada em tiras. Mas era tudo saboroso. Já o café propriamente, o famoso café etíope… bem, fiquei no suco de mamão…

Ao final do café da manhã, chamei a garçonete e pedi pra ela me explicar os pratos e informar os nomes originais. Ela apontava e dizia “potato”, “tomato”, onion”. Eu: “não, não, os nome originais”. Ela chamou uma segunda moça, que chamou uma terceira. E começaram a discutir em amárico (a esquisita língua etíope), de forma bastante exaltada. Percebi que por algum motivo eu havia provocado uma polêmica. Simplifiquei, indicando apenas 2 ou 3 pratos, acabando com a sei-lá-porque-tanta-discussão.

Um dos pratos, a tal panqueca, chama-se injera, e é uma das vedetes da culinária local (pra quem acompanha meu facebook, acabei de publicar uma foto onde estou comendo injera – e sobre uma grande injera). Ao longo dos próximos posts, vou falar mais da gastronomia etíope, que desde já posso apontar como um dos pontos altos no país.

Barriga cheia, só me restava caminhar. Nada melhor para explorar uma nova cidade. Tal como faço quando estou trabalhando como travel-writer dos guias O Viajante, elegi como primeiro destino o centro de informações turísticas, que ficava a uma razoável distância. Haveria um bom número de ruas e avenidas para percorrer. Saindo do hotel e do café da manhã eu saia também da minha zona de conforto. E começava a encarar o choque de realidade de um grande centro urbano africano, da capital de um país que está entre os 15 piores IDH do mundo.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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