A razão do clichê

Para a maioria dos passageiros daquele voo, a Etiópia era apenas um país de conexão. Mas não para mim, que realmente desceria na capital, Addis Ababa. Me separei deles quando fui em direção ao guichê de imigração, para obter o visto de entrada no país. Como não peguei o visto previamente, no Brasil, será que sofreria algum longo interrogatório? Formulários e mais formulários para responder?? Em pouquíssimo tempo saberia. Afinal, havia uma fila de… 1 pessoa. Em segundos chegou minha vez.

Homem da segurança etíope: How long you will stay in Ethiopia?

Eu: One week, maybe ten days.

Homem da segurança etíope: Pay me twenty dollares.   

Fim da entrevista.

Troquei uma nota US$20 por um adesivo etíope no passaporte.

O relógio na parede da sala do “homem da segurança etíope” indicava 3h45. Mas eram quase 10 horas da noite. Não, depois constatei que eram realmente 3h45. Deste outro planeta para o qual eu estava entrando.

A Etiópia, acredite, tem um horário próprio. O país está 3 horas à frente de Londres (6 horas em relação a Brasília), mas os etíopes não estão nem aí para o Meridiano de Greenwich e a verdadeira hora local é outra. Quando são 18h, ou 6 da tarde (no padrão ocidental), são na verdade 12 horas na Etiópia. E uma hora depois, são 1h. A lógica etíope? É a primeira hora do anoitecer. Até que faz sentido. 8h da manhã? 2h na Etiópia – duas horas após o amanhecer. Como regra geral, 6 horas de diferença – coincidentemente, igual ao Brasil, trocando o dia pela noite.

Mas não é só. Se eu realmente cheguei às 3h45 (ao invés de 21h45), também voltei no tempo: mais exatamente ao ano de 2005. A Etiópia segue o Calendário Juliano (e não o Gregoriano, como o Ocidente), o que significa 13 meses ao ano – 12 de 30 dias (sempre, nada de 31 dias) e um de 5 ou 6 dias.

A Etiópia é considerado um país diferenciado também na comparação com outras nações africanas. Por um motivo bem específico: foi o único na África, juntamente com a Libéria, que não foi colonizado por nenhum país europeu (houve uma breve invasão italiana, na época de Mussolini, mas nada que caracteriza-se uma colonização).

Chamar um país estrangeiro de “outro planeta” é por vezes um clichê exagerado. Mas não aqui. Como eu iria constatar assim que saísse do amplo e pseudo-moderno aeroporto.

5 comentários para “A razão do clichê”

Comente este post

Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
travel-writer z.
Apoio