A Sustentável Leveza do Ser

    Eu estava para sair da Bielorrússia, onde tive uma experiência fantástica, mas sentia que faltava fazer uma das coisas que mais gosto numa viagem – interagir com os nativos. Tive a oportunidade de conversar com o Embaixador do Brasil em Belarus, que me relatou aspectos muito interessantes do país, as relações dessa nação com a Rússia, com a União Europeia – mas faltava a visão do povo local, do cidadão comum que vivia aquele dia a dia no cenário de aparente perfeição. Queria muito conhecer alguém e, verdade, enchê-lo de perguntas: “como é a sua vida? Sente falta de liberdade? Quais as expectativas de trabalho num país estatizado? Porque as mudanças que ocorreram no resto dos países comunistas não ocorreram por aqui? Tem vontade de imigrar, exilar-se?”. Mas se mal pude trocar um par de palavras com algum bielorrusso, naquela altura achava quase impossível brotar um “papo-interrogatório”.

Meus contatos com os bielorrussos foram sempre breve. A recepcionista que falava inglês no hotel se limitava a me dar explicações do funcionamento da calefação ou da internet (tomorrow, tomorrow). Jovens na rua a quem eu gostava de pedir informação – o que poderia ser o início de uma conversa – ou me diziam que não falavam inglês (a grande maioria) ou se limitavam a me responder exatamente o que eu perguntara, sem sequer esboçar a curiosidade em saber de onde eu era. Na real, nunca me perguntavam nada.

Mas eis que os artilheiros entrariam na prorrogação do segundo tempo, pouco antes de eu atravessar a fronteira. Estava no trem que sairia do país rumo à Lituânia, próximo destino da viagem. Aliás, não lembro de ter viajado num trem tão desconfortável em toda minha vida viajante! Se me disserem que aqueles vagões foram utilizados pelos bolcheviques, eu acredito. Na minha cabine havia uma senhora, meio sisuda, e um cara de feições diferentes do que eu havia visto em Minsk (apostava minhas fichas que era siberiano). E aí entra um jovem casal, aparentando 25-30 anos, sentando um na frente do outro. Não tardam a conversarem entre si, despejando bem-vindas doses de informalidade naquele ambiente cujo único barulho até então vinha dos movimentos do trem.

A menina havia me chamado a atenção: bonita, cabelo castanho até os ombros, pele clara, lembrava muito a Juliette Binoche. Num determinado momento, ela tira umas folhas de papel e começa a ler um texto, em inglês. Foi a brecha pra eu abordá-la: “So, you speak English…”.

Ela não só falava inglês, como falava muito bem – e com simpatia, com vontade de se comunicar. Seu nome era Sasha, e apresentou o companheiro, Vadim, mais tímido, mas igualmente uma figura agradável. Começamos a trocar amenidades, o que eles faziam, no que eu trabalhava, e não demorou para estabelecermos certa confiança. Eram formados em Direito, mas não exerciam a profissão. Diziam que havia pouco mercado de trabalho no país, e, mais do que isso, não queriam trabalhar com as leis bielorrussas. Comentaram como algumas atividades eram desvalorizadas, como a Medicina, na qual um médico, após sete anos de estudo, dificilmente recebia mais do que um salário mínimo de 200 dólares mensais. Acabaram trabalhando na área de tecnologia num banco, uma das poucas instituições privadas do país, e por isso ganhavam salários acima da média, o que lhes permitiu certos luxos, como viajar para a Espanha e para a Tailândia. Lembraram que tirar os vistos, porém, não fora fácil – tiveram de ir à vizinha Polônia para contatar os consulados, e mesmo para entrar na Polônia precisavam de visto, e que para isso era necessário marcar hora, o que levava meses (mais ou menos como é/era para irmos aos Estados Unidos). Viagens sem visto antecipado? Apenas para Rússia, Ucrânia e… Cuba, riram.  Poderiam ir a Cuba a hora que quisessem, como se a ilha de Fidel ficasse ali do lado. Novas risadas surgiram depois, mas aí provocado pelo meu passaporte, quando ao chegar na fronteira, ao sair do país, meu documento foi, na nossa frente, rigorosamente examinado pela polícia, inclusive com uma espécie de microscópio, que tentavam averiguar sua autenticidade, como se um brasileiro fosse um marciano atravessando a fronteira da Bielorrússia para a Lituânia (já vi esse filme antes, vide Rússia, vide prisão…).

Gostava de vê-los sorrir, ficavam ainda mais iluminados. Realmente formavam um bonito casal. Ela, expansiva, era generosa nas risadas, demonstrava uma intensa alegria de viver, mas com uma ponta de tristeza. Ele, sempre discreto, era bastante observador. Se de imediato Sasha me levou à Juliette Binoche, Vadim em seguida me lembrou Daniel Day Lewis, e inevitavelmente ambos no filme A Insustentável Leveza de Ser. Trocava-se o cenário da Praga comunista dos anos 60 pela Minsk comunista dos 2010. Ela conta que têm uma filha, de 4 anos, e, já no auge da nossa saborosa cumplicidade, revela que estavam no meio de um pedido de imigração para Canadá: era o sonho de uma vida melhor, a expectativa de serem mais valorizados profissionalmente e de que sua filha pudesse crescer com maior liberdade.

Repentinamente, após a parada do trem em uma estação, nossa cabine é invadida por três senhoras gordas. Segue um diálogo em russo e meus dois queridos companheiros se levantam e começam a apanhar suas coisas. Transgressores, eles haviam entrado numa cabine que não era a sua – para minha sorte – e agora cederiam aqueles retilíneos bancos para as babushkas. Trocamos emails, e reforcei a eles que qualquer coisa que precisassem do “mundo ocidental”, que não hesitassem em me escrever – como se eu fosse um poderoso diplomata brasileiro. Percebi que desejava a aqueles dois uma profunda boa sorte como desejaria à minha família, aos meus melhores amigos. Por certo, que tivessem um melhor destino do que o de Binoche e o Day Lewis do cinema.

 

3 comentários para “A Sustentável Leveza do Ser”

  • Beatriz Maia disse:

    Interessante este teu relato, parece o início de um livro. Fiquei querendo o próximo capítulo!!!

  • José Jayme disse:

    Essa historia me lembrou quando estive em Pamplona, na Espanha/País Basco. Depois de um primeiro contato terrível com os ideais separatistas daquela região, sendo espremido por um grupo de simpatizantes da causa na abertura do festival de San Fermin, uma conversa com uma vendedora de souveniers me fez entender os princípios.

  • Mathias disse:

    D+ cara!!!! Acho que essas experiencias devem ser inesquecíveis, me imagino numa situação dessas, curto muito esse tipo de coisa mas na real acho que eu nem conseguiria puxar papo com ninguem, sou tímido de mais. I

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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