Que País é Esse


Mas afinal, que país é esse que a maioria das pessoas não sabe onde fica, e muitos sequer ouviram falar? Belarus, traduzido no português para Bielorrússia, é um raro território do leste europeu que foi esquecido pelos protestos e revoluções que puseram abaixo o comunismo desde o fim dos anos 80. A capital, Minsk, causa um tremendo choque no viajante pelo grande contraste em relação à todas as demais capitais europeias que se encontram a seu oeste. Grandes prédios no melhor estilo soviético, emblemáticos símbolos de suposta potência vitoriosa e largas avenidas cuidadosamente urbanizadas revelam uma assustadora escassez de vida e cores: não há fachadas coloridas, grafites em paredes, músicos nos metrôs, vitrines iluminadas ou pessoas visualmente diferentes. Na verdade o que vi de mais colorido foi um muro com símbolos comunistas e um cartaz vermelho de Lenin.

Os bastidores da nação aparentemente organizada e de povo comportado, porém, escondem uma outra faceta do país. Exilada em Londres, a fundadora do grupo teatral Belarus Free Theatre, Natalia Kaliada, concedeu, em junho passado, uma entrevista ao jornal britânico The Observer, a versão dominical do conceituado The Guardian. Segundo ela, “na Bielorússia é simples: tudo é reprimido”. Kaliada afirma que desde a ruptura da União Soviética nada mudou para melhor. Lembra dos muitos amigos presos, de como a liberdade é suprimida e de duas execuções ocorridas recentemente. A Bielorússia é único país da Europa a utilizar a pena de morte – e o faz fuzilando com um tiro na nuca.

No caso, os executados em questão foram dois suspeitos de 26 anos responsabilizados por um ataque a bomba no metrô de Minsk, em abril de 2011, que matou 25 e feriu em torno de 300. Como agravante à execução, os jovens foram condenados sem defesa e sob a dúvida de se teriam sido eles mesmos os responsáveis pelo ato bárbaro.

A pena de morte é apenas mais um recurso da mão pesada do presidente Alexander Lukashenko, conhecido como “último ditador europeu” – está no comando do país há quase 20 anos (foi eleito em 1994). Eleições até há, porém a mais recente, em 2010, que garantiu um quarto mandato para Lukashenko, foi acompanhada de intensos protestos na rua (tudo devidamente reprimido pelo governo), que alegavam a fraude do pleito.

O turismo é pouco desenvolvido no país – como era de se esperar, já que se dificulta a entrada de turistas. Mesmo cidadãos de países vizinhos, como Polônia e Lituânia, precisam de visto, e o devem solicitar com antecedência. Quem procurar por imagens de cartões postais talvez se frustre. Ora, quem precisa de torres, castelos e pontes por aqui? – ainda mais quando se encontra uma legítima estátua de Lenin! Estar na Bielorrússia, afinal, é uma das viagens mais singulares que você pode fazer na Europa – uma volta de 25, 30, 50 anos no tempo. Mas venha logo, pois isso não vai continuar sempre assim. Ah não vai.


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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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