Suficientemente perdido

Uma das coisas que mais gosto do meu trabalho – e que você pode fazer enquanto viaja – é fugir dos pontos mais turísticos e explorar algumas regiões menos conhecidas, me perder pelas ruas e sozinho me achar, enquanto vou descobrindo alguns lugares bacanas que de repente valem uma indicação nos nossos guias de viagem.

Com o domingo de sol, longe, bem longe da muvuca de Carnaval (o que não é exatamente um problema pra mim), decidi ir a Hampstead, uma agradável área no norte de Londres, tradicionalmente habitada, desde meados do século 19, por artistas, escritores e intelectuais (muitas casas hoje revelam os inquilinos ilustres por uma plaquinha fixada na fachada) e conhecida pelo parque homônimo, Hamsptead Heat.  Não que esse lugar seja exatamente secreto, antes pelo contrário, mas o turista menos ligado ou que fica poucos dias na capital inglesa dificilmente vai muito além do Hyde Park (e faz muito bem de visitar este, repleto de atrativos). E há até quem viva em Londres e também não conheça Hampstead – mas aí é por comodidade de não sair muito de sua regiãozinha (e como tem brasileiro aqui vivendo assim…).

Hampstead é uma das regiões mais valorizadas e onde dizem moram mais milionários de toda Inglaterra – mas não pense que vá encontrar enormes mansões cercadas por muralhas: a arrogante ostentação, tão comum em tantos bairros brasileiros, aqui dá lugar a uma elegante simplicidade. É praticamente um tranquilo subúrbio rodeado por algumas ruas de maior movimento e temperado com cafés, lojinhas, livraria, pubs, restaurantes, igrejas. Tudo muito bem cuidado. O McDonald’s por muitos anos tentou entrar no bairro, ideia rechaçada pelos moradores locais. Só em 1992, após uma ação judicial, a cadeia americana por fim conseguiu se instalar aqui, mas se vendo obrigada a um marketing visual menos agressivo do que costuma praticar.

A primeira parte do programa, me perder no parque, não foi muito fácil: entre campos abertos, zonas florestais e lagos azulados (onde se pode tomar banho no verão), trilhas bem delimitadas ajudam a achar os caminhos. Pra quem não tiver a menor noção de onde se está, é só ir atrás dos suaves morros (suave mesmo, 98 metros de altitude, mas significativo para uma cidade majoritariamente plana): terá uma inesperada vista de Londres, com direito a contemplar a London Eye, a cúpula da catedral de St. Paul’s e vários prédios modernos da City. Na falta de cão, o negócio foi passear com minha câmera fotográfica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A segunda parte, foi a vez da village, como eles chamam o bairro em referência a uma quase cidadezinha. E nessa de “se perder”, o cara acaba achando uns lugares surpreendentes – uma antiquíssima igreja de 1745, um cemitério anexo com arte fúnebre, outra igreja, esta do século 19, com uma enorme torre gótica, um belo casarão vitoriano que fora um orfanato de meninas, um pub tradicionalíssimo onde dá vontade de você chegar, pegar uma mesa, tomar uma guiness e pedir uma ovelha do cardápio… – ops, aliás foi exatamente isso que fiz, agora acompanhado de um amigo que veio da França.

Se uma saborosa carne servida com batatas, verduras e o insosso yorkshire pudding (gastronomia britânica em futuros posts) foi o almoço num pub (£14), a sobremesa foi um dos clássicos locais: o famoso crepe de Hampstead (£3,50). Costumava ser tão bom que nem importei de ser o 31º da fila. Na primeira mordida, ainda só na massa, achei “apenas bom”, mas ao chegar no chocolate – belga, amargo – eu já estava comendo de joelhos, chorando por aquela panqueca mágica estar próxima ao fim. Tive que limpar bem as mãos lambuzadas para chegar na livraria ao lado e paquerar uns livros de Charles Dickens. Quando às 18h anunciaram que ia fechar, conclui que hora de terminar o dia.

Afinal, trabalhar até as 6h da tarde num domingo já tá de bom tamanho né!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PS: Do ofício de travel-writer: esta foi só a primeira vez (desta viagem) em Hampstead. Novas incursões pelo bairro devem ser feitas, desta vez com mais achados do que perdidos. Tem a Casa/Museu de Freud, de Keats, o observatório científico…

 

16 comentários para “Suficientemente perdido”

  • Arie Ertel disse:

    ola Zizo, nao sei se vais lembrar de mim
    nos viamos na epoca do macabi em poa
    ja viajei muito uma epoca por exploraçao pura. hoje mais a trabalho, é diferente.
    entrei no teu blog pela primeira vez , ja tinha escutado o que fazias, achei genial
    vou acompanhar sempre que puder.
    um abraço

  • Thais disse:

    Ola Zizo,

    Vc tem razao em um ano que morei ai, sempre tentei ir a Hampstead, mas acabei nao cumprindo a promessa como muitos outros lugares interessantes na cpital inglesa, uma pena!!!! Mas tive a chance de conhecer Richmond Park, se tiver tempo de uma passada por la, o parque e impressionante, se pode mesmo ver animais que vc nao imagina encontrar perto de Londres. Como vc disse no outro posto continuo dando palpites, foi mal, mas gosto de dividir minhas experiencias e espero te ajudar.
    Ansiosa pra ver o post falando da comida inglesa, verdade que comparada a comida da França (onde vivo atualmente) nao cehga aos pes, mas as vezes da suadade do classico Fish and Chips, cotagge pie, sunday roast e a sobremesa de Natal q eu acho q se chama Truffle hehehheh!!!!!

    • Zizo disse:

      Oi Thais,
      Londres é inesgotavel, sempre tem lugares novos a conhecer!
      Ja fui a Richmond, mas faz tempo… preciso voltar!
      Comida britanica… Dá pra sobreviver… Mas claro nem se compara a francesa!
      Alias, o melhor restaurante q fui foi um francês…
      Vou ter q contar isso num post futuro… rs
      Segue sempre dando “os palpites”… hehe
      Abraços

  • mauro gomes disse:

    Mais uma vez meus parabens pelas dicas Zizo.Moro aqui na Espanha ha muitos anos ,porem ,cada vez que entro neste site reconheço que tenho muito a conhecer.

    Mauro Gomes.

  • Luciano Velleda disse:

    É perto do parque de Pillrose Hill? Pelas fotos parece até o mesmo lugar daquela matéria que publiquei na Lonely. Muito bem, comandante, siga adiante. E o Borought Market, já estufou a barriguinha por lá? Abraço!

    • Zizo disse:

      Fala meu guri! Nao conheço esse parque Pillrose Hill, nao seria Parliament Hill? Essa é parte elevada do Hampstead e foi exatamente lá onde tirei as fotos sim! Cara, do Borough ja virei freguês! Era esse mercado que tu falava na matéria? Boa dica! Alias eu conhecia bem mal essa região… Que mais tu destacava mesmo? (ou manda o pdf da matéria!).
      Abraços

  • Bia Ferrer disse:

    Acompanho todos os relatos…e adoro!
    O Guia foi o responsável pela minha inquietação..e ple vontade de continuar viajando sempre. Parabéns!

  • Gilson Rosa disse:

    Oi, Zizo!
    Morei em Barcelona, em 2001, por três meses. Dentre os guias que comprei, o mais valioso em dicas foi o seu, especialmente a de um restaurante vegetariano indicado no O Viajante Europa. No ano passado, após onze longos anos, retornei a Barcelona, infelizmente só por três dias, e o restaurante continuava lá.
    Nesse última viagem, ocorreu-me uma situação bastante surreal, que descrevo numa crônica que publiquei em meu blog, A Lira do Mercador Chinês: http://gilsonrosa.com/2011/04/26/dom-quixote-e-sua-dulcineia-chinesa/. Omiti muitos detalhes dessa aventura, mas ainda volto a tratar desse tema sobre uma certa clandestina Casa dos Budas Ditosos, que visitei em Barcelona.
    Obrigado pela dica! Quando for a Londres no final de setembro, vou dar uma conferida nesse parque – que aliás me parece familiar, pois me lembro de já ter visto fotos dele no blog de uma amiga chinesa, que vive aí.

    Saudações de Xangai!

  • Julia disse:

    Olá Zizo,
    com o Guia O Viajante descobri a Europa, e por aqui fiquei.
    Moro em Barcelona a 6 anos, e to começando a compartir informaçoes tb.

    meu blog: ascarasdebarcelona.wordpress.com dá uma olhada!

    sempre grata a suas recomendaçoes

  • Daniel Marinho disse:

    Boas pedidas Zizo!!

    Como tb estarei aí por essas bandas bretanhas em junho, vou anotando daqui do Rio suas dicas “beyond the Hide Park”!!! E continue se perdendo por aí que as boas venturas sempre estão à espreita dos caroneiros do acaso!

    PS: Bela edição de imagem no cabeçalho desse blog, hein!!

    Saudações carnavalescas!

    Daniel Marinho

Comente este post

Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
travel-writer z.
Apoio