Que Hotel É Esse Companheiro?

 

Eu tinha o endereço de dois hotéis anotados na minha caderneta de anotações viajantes. Eram dicas de um guia de viagem – na falta de um Guia O Viajante que contemplasse a Bielorrússia, tive que apelar para aqueles destinados aos anglossaxões.  Eram pouco mais de 7 horas da manhã e uma névoa cobria a cidade. Cenário oportuno para quem chega totalmente perdido numa cidade meio estranha. O câmbio da estação rodoviária estava aberto e troquei alguns euros – 1 euro valia 11.000 bielo-rublos. 20 euros, 220.000 rublos. Parecia a velha Itália nos tempos da lira, com seu monte de zeros.

Um único táxi se encontrava na rua, o motorista me chama. Mostro o endereço e pergunto quanto custaria a corrida até lá. Ele arranhava o inglês o suficiente pra me dizer “ten euros”. Se ele oferecia 10 euros, certamente é porque podia fazer por 5. “Five euros”, retruco. Ele diz que por esse valor, não. Me afastei um pouco, tentando avistar outro táxi. Ele veio atrás de mim: “ok, ok, five euros”. E vai me levando para o seu carro. Noto que era um carro particular, e próximo dali havia um táxi de verdade, com a identificação no capô e o motorista sentando dentro do veículo. Pô, você nem mesmo é um taxista e ainda queria me cobrar 10 euros –, digo a ele. Me fiz de louco e fui até o verdadeiro táxi, entrego o endereço ao motorista, e ele, sem falar inglês, me mostra na calculadora: 35.000 rublos.  Peguei a sua calculadora e reduzi a 20 mil. Ele demonstra que por esse número não faria, mas que por 30.000 me levaria, seu preço final – menos de 3 euros, 7,50 reais. Achei justo. Também gostei dele ter me cobrado na moeda local e, principalmente, de não ir com o outro cara, o inflacionado taxista fajuto.

Mostro novamente a ele o endereço do hotel, um nome russo impronunciável, um local que, pela descrição do meu guia, seria bom e razoavelmente barato. Algumas voltas e alguns minutos depois, paramos em frente a um moderno prédio de um internacional 5 estrelas. É aqui, me indica o motorista. Não, não, não é esse, veja o nome do hotel na minha caderneta, não é o mesmo. “Hotel Yuryzbkywskwsky” , diz ele, “no”. Esses guias de viagem… O hotel não exista mais… Havia outro, de luxo, no lugar. Embora comunista, a Bielorrússia cedia espaço para empreendimentos estrangeiros que se instalavam nas principais cidades. Na verdade, não vejo nenhum problema nisso. Se é para melhorar o serviço e aumentar o oferta, que venham os ianques. Mas por favor, preservem a cultura local. Não precisa um moderno 5 estrelas substituir um tradicional (e barato) soviético. Haveria espaço para os dois. A entrada do investidor estrangeiro e da iminente internacionalização cultural é uma tendência no país, assim como foi nas demais nações que um dia foram socialistas. Infelizmente isso acontece deixando poucos rastros do passado. Só me restou passar ao taxista o endereço do segundo hotel, na esperança de que esse continuasse de pé. Chegamos num grande prédio, nada moderno, identificado por letras do alfabeto cirílico que eu não conseguia ler acrescido da emblemática estrela vermelha de 5 pontas. Eram um bons sinais.

A única recepcionista que falava inglês me confirma que havia vaga e me oferece um quarto – 572.000 rublos, ou 52 euros (148 reais). Ainda que não fosse a diária mais alta do mundo, era caro pelo porte do hotel. Eu tinha certeza que havia tarifas mais em conta e a questionei sobre isso. Bem, me diz ela, havia, mas eram de quartos “não reformados”, me explica. Nas entrelinhas, “quartos soviéticos”. Ela suspeita que eu não fosse gostar, e me pergunta se eu desejava ver antes de aceitar. Vamos lá.

Subo ao quinto andar – o andar soviético com os quartos soviéticos. Abro a porta. Não só não me assusta como me entusiasma – agora sim estava num país comunista! Moveis de madeira, não rústicos, apenas antigos. Papel de parede  meio deteriorado. Piso de parquê com um tapetinho básico. Uma geladeira enorme no canto. Uma mesa meio perdida entre duas camas. Preocupação estética, zero. No banheiro, banheira, pia e uma privada que não encostava na parede – ficava quase em frente à pia, no meio banheiro. Preocupação estética, -10. O papel higiênico? Minha avó tinha uma lixa de pés mais macia. Mas se é isso que o Camarada Stalin nos oferecia, ok. O mais importante: era tudo limpo e bem cuidado, e pouco me importava que aquela velha TV não tivesse a CNN em canal a cabo. Ah sim, e o quarto custaria 162.000 rublos, ou 14 euros (40 reais). Onde assino minha filiação ao Partido Comunista?

 

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Nota do escritor de guias de viagem: hotéis na Bielorrússia – pela minha pesquisa, constatei: há os novos ou modernizados, que publicam suas tarifas em dólares ou euros, e os mais antigos ou tradicionais, que expõem seus preços em rublos, e são significativamente  mais baratos.  Esses últimos, porém estão gradualmente  desaparecendo – isto é, se modernizando, se adequando ao padrão europeu; da mesma forma, é possível achar alguns quartos nos hotéis reformados que ainda pertencem ao velho estilo pré-Gorbachev. Além da economia, esses locais oferecem uma pitoresca amostra de como era o período soviético. Alguns hotéis e albergues em cidades do leste europeu, como Praga e Berlim, hoje recriam ambientações daquela época. Pois aqui ainda é original. Ainda.

 

3 comentários para “Que Hotel É Esse Companheiro?”

  • João Paulo disse:

    Excelente narrativa.

    Agora eu já tenho um plano de fundo para as histórias que minha namorada russa me conta sobre o tempo da União Soviética.))

    Abraço.

  • Arie disse:

    Oi Zizo

    este post me fez lembrar quando estive em Moscou em 1991, foi bem no periodo de transicao entre Gorbachov e Ieltsin. Fiquei 15 dias completamente sozinho vagando e explorando as ruas da cidade. Dias dificeis aqueles. filas por todos os lados. tive que me virar pois a grana era curta e nem pensar em restaurante de amerciano .Lembro que nao encontrei albergue e acabei ficando num bairro afastado na casa de estudante de cinema que conheci la. Eram aqueles edificios padronizados com um banheiro para todo andar e cada peca vivia uma familia. viva o comunismo!!!!!!!!!!!!! abracao e boa viagem

  • Henrique disse:

    kkkk
    Por 1/3 do preço? com certeza eu tbm encaro!

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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