A Quase Conturbada Entrada num País Comunista no Século 21

 

O primeiro grande destino desta viagem é a Bielorrússia – o último território comunista ainda vigente no continente europeu, governado por um presidente que há quase duas décadas se perpetua no poder. E tudo isso me excitava bastante – e mais ainda por ter estado em um país comunista quando viajara, nos meus 20 anos, no derradeiro ano de 1989, mesmo ano em que o Muro de Berlim caía o  a Cortina de Ferro começava a desmoronar. Só o que eu precisava agora era organizar minha chegada ao país.

Normalmente viajo com um passe de trem, mas como faria poucos trajetos que o passe cobriria, arrisquei comprar passagens avulsas ou encarar um ônibus. Qual não foi minha surpresa ao saber do preço da passagem de trem de Frankfurt a Minsk, a capital bielorrussa – 265 euros! Sem dúvida, faria de ônibus – 90 euros, mas eram 35 horas de viagem! (e ainda chegava na cidade perto da meia-noite). Decidi dividir o trajeto em duas partes: Frankfurt–Varsóvia (61 euros) e Varsóvia–Minsk (29 euros), o que me permitiria dormir duas noites no ônibus (economizando uma diária de hotel), chegar em Minsk pela manhã (bem melhor) e ainda passar uma tarde na capital da Polônia (entre a chegada de um ônibus e a saída do outro).

Em Varsóvia, aproveitei para conhecer o Museu da Resistência (muito bom!), passear pela Stare Miasto (a cidade velha, sempre bonita) e saborear uma porção de pierogues (pasteizinhos cozidos, recheados de batata e queijo ou carne, cobertos com cebolinha, também conhecido em alguns lugares como varenekis, delícia!). E constatar: a EuroCopa fez bem a Polônia.

À noite, num ônibus bielorruso quase vazio, segui a Minsk. No início da madrugada, alcançamos a fronteira. Lembro lá de 89 que chegar na fronteira de um país comunista causava arrepios. A polícia vinha, te enchia de perguntas, revistava sua bagagem e, meio que aleatoriamente, te deixava ou não entrar. E como era comum ser barrado na borda de países como Romênia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Iugoslávia (aliás, os três últimos nem existem mais). Seria assim também na Bielorrússia, me perguntei?  Eu já tinha o visto (tirado no Rio de Janeiro – é um dos últimos países europeus que ainda exige visto antecipado, e não apenas de brasileiros), e o Cônsul, devido ao meu trabalho no O Viajante, me isentou daquela chata burocracia da carta-convite e dos voucheres obrigatórios da reserva de hotel, que nem na Rússia precisa mais. Mas, sabe-se lá… Poderiam implicar com isso… Além do que, os caras invariavelmente sempre se perguntam “que diabos afinal faz um brasileiro por aqui???”.

Fomos orientados a descer do ônibus, encarar a fria névoa da noite e, levando toda nossa bagagem, a formar uma fila. Percebi que eu era o único estrangeiro. O guarda da alfândega, cara de pouco amigos, grita algo ao motorista, que por sua vez me pergunta em uma única palavra: “Insurance?” (seguro). Engoli em seco. Sabia que o seguro poderia ser solicitado na Europa Central, mas ali, para Bielorrússia não era um dos documentos listados pelo consulado. E eu não tinha! “Yes, I have”, respondi sem convicção. “Good”, retrucou o motorista. E agora José??

Seguindo na fila, chega minha vez. O policial pega meu passaporte e só faz uma afirmação: Insurance!  Pô, o que deu nesses caras, só porque não tenho a porra do seguro todos resolveram me pedir?! Dei uma disfarçada e mostrei meu cartão do American Express, contando uma meia verdade: “Esse cartão dá seguro médico, viu? Se precisar, é só contatá-los”. Acho que não deu certo. O guardinha, ainda mais sisudo, sai de seu posto, grita algo em russo e ordena que eu vá até o motorista. Só faltava me dizer “cara, você está muito encrencado!” Sigo caminhando com o motorista pela gélida madrugada naquela zona fronteiriça, e não resisto em lhe perguntar “problems?”, ao que ele me confirma, sério, no seu inglês macarrônico “problems, very problems!”.

Pronto, vou ser deportado, considerei. Mas deportado pra onde, pra Polônia?? Ou pior, vão me prender… Opa, já cumpri minha cota de prisão russa, não preciso agora de uma prisão bielorrussa… Com sorte, talvez apenas me multassem… Sim, multa. Tudo indicava, seria por aí: eu estava sendo encaminhado a uma bizarra cabana com a identificação “insurance”. Como no burocrático estado soviético, esse deveria ser o departamento que cuidava de seguros, ou da falta de. Senti um cheiro de extorsão no ar. Vinte euros por dia estaria no lucro pensei, mesmo sendo por 3 dias. Não, seria mais. Subi um par de degraus, abri a porta e vejo uma mulher igualmente sisuda atrás de um balcão. Oitenta euros por dia eu tinha certeza. Ele me mostra vários papéis, que notificam a necessidade do seguro para entrar na Bielorrússia. Meu deus, 200 euros por dia, 600 euros é o que me cobrariam. Meu coração palpitava. Minhas mãos formigavam. Minha carteira flamejava.

- You have to pay… – começou ela, enquanto eu me aprontava para o choque… – two euros!

Hein? Como que é?? Two? Dois euros?? Foi isso mesmo que ouvi?? Dois euros por dia??

Não. – Two euros, that´s all?? – Yes, two euros.

Tentando disfarçar minha alegria, dei a ela uma moeda de 2 euros, assinei quatro vezes alguns documentos meio que sem ler (que perigo…) e pronto, já tinha meu seguro, meu querido insurance.  Voltei pro guardinha, que agora, com o seguro em mãos, se mostrava doce como um pudim de ameixa. Até exclamou feliz num inglês com sotaque russo quando abriu meu passaporte “ah, Rio de Janeiro!”, reparando onde tirei o visto. “Yes, Rio de Janeiro” – e complementei com minha cidade natal, também indicada no passaporte – “and Porto Alegre!” E se ele quisesse, eu poderia continuar: “and Aracajú, Belém, Cuiabá…”. Não foi preciso. Eu acabara de ganhar meu carimbo bielorrusso.

9 comentários para “A Quase Conturbada Entrada num País Comunista no Século 21”

  • Nelson Asnis disse:

    Zizo, muitas felicidades e alegrias e te aguardamos prá comemorar, ok. bjs dos teus sobrinhos Yasmin e Guga, do teu brother Nelson e cunhada Tati

  • Nelson Asnis disse:

    ZIZO, TUDO BEM? Queremos comemorar teu aniver aí na Bielorussia pode ser? Manda as passagens que estamos arrumando as malas. A renata nâo sabe aonde fica a bielorrusia e a nossa irmã perguntou aonde fica a russia, pode? Te cuida cara! a tati, Yasmin e Guga mandam beijos tbém!

    • Zizo Asnis disse:

      Ora, ora, quantos sobrenomes que me soam familiar nesse post… Brother, por favor, não diga em público que nossa irmã não sabe onde fica a Rússia… pega mal pra minha imagem, sabe cumé…! (brincadeira de família, viu leitor, a irmã tem um atlas como livro de cabeceira)! No mais, a Família Viajante pode vir pra Bielorrússia, sim, pra incluir um país comunista no seu currículo estradeiro! Beijos a todos!

  • Mathia disse:

    Nossa cara, viajei aqui na estória, gosteria muito de passar po esse tipo de coisa, por mais estranho que pareça, sinto uma vontade enorme de sair por aí e conhecer tudo, um misto de insegurança e falta de grana ainda me impedem, vito que agora com 26 anos mal saí da minha cidade no interior do Rio de janeiro… cara que droga, tenho que dar um jeito nisso.

    Abraços e conquistou mais um leitor!! \o/

  • beti asnis disse:

    Ufa…prisão de novo não në brother!!
    Ah..a Renata pode naão saber, mas a mãe dela….
    bjss

  • Julio Asnis disse:

    Adoramos ler este blog – ficamos primeiro curiosos e depois contentes com a solução :por dois euros estavas com seguro para entrar ( e trbalhar ) nesta Bielorussia. Agora vamos atualizar nossos atlas que ainda têm Iugoslávia. Nem a Renata sabe exatamente onde fica Bielorúsia. Boa eatada e boa saída.Beijos Julio e Sarita

    • Zizo Asnis disse:

      Queridos Julio e Sarita, sim, fiz um seguro por 2 euros que não precisou ser utilizado! Se atualizar vosso atlas e sua neta passar a souber onde fica a Bielorrússia já tive meu dever cumprido nessa viagem! Beijos

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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