Legados de Frankfurt

Nada como uma bela viagem pelo Leste Europeu para retomar o blog! Meu ponto de partida, após um tranquilo voo pela Swiss com conexão em Zurich, foi Frankfurt, onde vim pela messe book fair – a maior Feira do Livro do mundo. Voltada mais ao mercado livreiro do que ao leitor propriamente, a feira é gigantesca, onde temas e nacionalidades se espalham por 8 pavilhões. Ainda que eu tenha me concentrado mais naquele que abrigava o assunto “travel”, era inevitável se deslocar entre os extensos corredores, o que praticamente consumiu meu tempo e energia para passear por Frankfurt  (e depois, vamos combinar, Frankfurt também não é nenhuma Berlim, Munique, Colonia…). Pude, no entanto, conhecer um novo albergue, o United Hostel, que se divulga com diárias a partir de 17 euros. O problema é que na hora do check-in os 17 viraram 40 euros… Como assim cara-pálida, mais que o dobro?? É por causa da Feira do Livro, justifica o gerente meio envergonhado pela subida descarada de preços. O pior era que outros locais estavam lotados. Mesmo disposto a pagar mais por um quarto privativo, não encontrei nessa época.

Só me restou um dormitório para 10 pessoas, dividido em dois ambientes: de um lado, 3 beliches; de outro, separado por um banheiro e um pequeno corredor, mais 2 beliches. Fiquei neste último, compartilhando o espaço com três asiáticos. À noite, após um longo dia na Feira, deitado no topo da cama, começo a planejar a sequência da minha viagem, enquanto meus roomates dormiam (ou tentavam). Na ala do lado, um cara de origem árabe falava alto sem parar, ignorando que já passavam das 11h da noite. Comecei a me irritar. Notei que os japoneses (ou coreanos, chineses…) estavam todos acordados, mas, educados (até demais), nada reclamavam. Larguei um “shhhh…” de silêncio, o cara resmungou alguma coisa na língua dele e continuou nos seus brados, ignorando minha solicitação. Fui ao banheiro e indignado não pude evitar: “Cara, são quase meia-noite, tem gente aqui tentando dormir, não sabe falar mais baixo não?”. Não, não sabia.

Alguns minutos mais tarde, sinto uma fumaça vindo do lado de lá. E aí escuto um outro cara, inglês fluente, australiano, dizer: “eu até não me importo, mas você não pode fumar aqui”. Caramba, eu me importava. Pulei da cama e fui ver se era o mesmo cara. Era. Me dirigi a ele sem medir as palavras: “Você não sabe ficar num albergue! Não cala a boca, fala alto, deixa a luz acesa e agora ainda fuma num quarto fechado com mais nove?”.  Emputecido, desci na recepção e não hesitei de bancar um X9, pedindo pra trocar de quarto e relatando ao responsável da noite o que acabara de dizer ao cara. Quando cheguei na parte do  “…fumando no quarto”, o cara do albergue explodiu: “de novo??? Você pode ficar no quarto, ele vai embora!”. Instantaneamente, angariou outros dois caras do albergue e, como numa cruzada, subiram correndo e entraram abruptamente no quarto. Seguiu-se uma longa e pesada discussão, ameaçaram chamar a polícia, e por fim conseguiram expulsar o cara do quarto –, aliás do albergue. Não, não fiquei com pena.

Desci na recepção pra pedir um adaptador de tomada e encontrei o australiano. Ele ia embora no dia seguinte pela manhã e foi reclamar que com o fumante e depois com todo aquele barraco ele não pode dormir, e por isso queria metade da diária de volta. Eu, ali parado, só ouvia a reclamação dele. Eis que o recepcionista da noite fala com o responsável ao lado e nos encara: “olha, só podemos dar 10 euros a cada um de vocês”, diz, nos alcançando as notas. O australiano faz uma cara de pouco de satisfeito e o cara complementa. “Tá bom, e mais um voucher pro café da manhã”. Eu, que só queria certa tranquilidade, me senti muito no lucro – principalmente pelo café: oferecia nutella à vontade. Legado de Frankfurt: bons contatos na Feira do Livro, um novo albergue para o Guia O Viajante Europa e potinhos de nutella (suvenires do lugar, digamos assim) para mais alguns dia de viagem.

5 comentários para “Legados de Frankfurt”

  • José Jayme disse:

    Nunca tive o azar de pegar alguem assim no mesmo quarto. Ja peguei gente que se incomodava ao extremo, do tipo bastava voce entrar no quarto depois das 23, com o maior cuidado do mundo, e ela reclamava. Dessa pessoa me viguei bem: ela chegou as 03:00 tentando nao fazer barulho e por azar eu estava acordado. Soltei uma reclamação desaforada

  • Claudia Neujahr Klein disse:

    Adorei o post! Albergues tem seus prós e contras. Eu, particularmente, não tenho mais paciência pra dividir dormitório com quem lá que seja ( nunca se sabe se teremos companhias que saibam conviver em grupo ).
    Com certeza os asiáticos educados eram japoneses. Estive no Japão esse ano e fiquei abobada com a simpatia e educação daquele povo.
    Tenha uma boa viagem e continua partilhando conosco tuas ótimas histórias. :)

    • Zizo Asnis disse:

      Oi Claudia, na real tb não curto mais dividir dormitório… Gosto de ficar em albergue, mas em quarto privativo, é aí é bem na boa. No caso, ali em Frankfurt, não tinha… Continua acompanhando o blog, valeu!

  • ivone disse:

    Uau!!! Viajei no teu relato. Fiquei imaginando toda a cena e a tua justificada irritaçao com o barulhento fumante. Quando vc se refere aos orientais que estavam no quarto e nao reclamavam, me fez lembrar uma situaçao q vivi aqui em Roma, onde pude notar o autocontrole dos orientais ( vc avaliou como educaçao ). Uma vez dentro de um onibus cheio pisei sem querer no pé de uma garota que poderia ser filipina, tailandesa, japonesa ou sei là que nacionalidade oriental. Quando me dei conta do pisao que dei, vi a expressao de dor no rosto dela. Pedi desculpas e ela esboçou um sorriso. Aì eu pensei: se fosse uma pessoa de origem latina, com certeza teria dito um palavrao antes de aceitar as desculpas. Vinte anos atras, dormi uma noite em um albergue em Frankfurt, me lembro que apesar de ter que dividir o quarto com tantas pessoas, achei limpo, super bem localizado e com um café da manha otimo.Estava viajando com outra brasileira muito dura com eu na epoca, entao no café da manha quando viamos que os mochileiros europeus deixavam no prato sem tocar , pedaços de quejos e presunto, nos recolhemos e fizemos sanduiches q nos fez economizar o almoço do dia. Boa viagem!

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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