Aborto x abortion

Estava descendo tranquilamente a escada rolante do metrô quando vi um anúncio que me chamou muito a atenção. Era um cartaz, dirigido a mulheres grávidas. Dizia algo assim: “se você está em dúvida se deve ou não continuar sua gestação, venha conversar com a gente”. E finalizava falando em “apoio médico e psicológico nas suas decisões”. E isso aconteceu quando estive pela primeira vez em Londres, 1989.

 

Levei alguns segundos para me recompor e absorver o texto. Decisão? Como assim?? Uma mulher poderia decidir em interromper a gravidez? Um anúncio num local público patrocinado pelo órgão de saúde pública, sobre… aborto?? Sim. Era exatamente isso. A questão é polêmica. O tema é delicado. Mas é factual. Mulheres, por motivos diversos, seja na Inglaterra ou no Brasil, querem interromper sua gravidez. O que muda de um país para outro é o quanto o Estado ajuda ou criminaliza. O quanto a sociedade “deixa quieto” ou recrimina.

 

No Brasil, o aborto é crime. Ponto. (É possível entrar na justiça sobre isso, ficando a mercê do tempo e da decisão de cada juiz). Mas todos nós sabemos que mulheres de boas condições financeiras têm acesso a clínicas particulares para fazerem o que achar que deve ser feito. Na Grã-Bretanha, desde 1967, o “termination of pregnancy”, como também é chamado, é permitido. Dois pontos. Há alguns requisitos por lei: gravidez até a 24ª semana (mas é possível, em casos específicos, ainda além desse período). Autorização de dois médicos. Atestado que o aborto causará à mulher menos danos de saúde e psicológico do que continuar a gravidez.  Feito isso, o sistema de saúde britânico autoriza hospitais públicos a realizar o procedimento (com o justo direito, igualmente, do médico designado solicitar a recusa e pedir que um colega seu o faça).

 

Na questão social, por características do povo britânico, ninguém se mete na vida de ninguém. É um assunto privado. Familiar. De casal. Pessoal. Fim da questão. No Brasil, indivíduos se acham no direito de sair às ruas manifestando que mulher nenhuma tem o direito de interromper sua gravidez. Mais do que isso. Nem mesmo na gravidez de anencéfalos. A premissa, tão recorrente desses grupos, de teorizar sobre a decisão da vida a nascer sequer vale aqui, já que o feto, sem cérebro, está condenado à morte. Ainda assim, esses indivíduos continuam se achando no direito de protestar contra o aborto, qualquer tipo, por qualquer natureza. No direito de decidir que essa mulher não tem direitos nem poder de decisão. Que ela deve carregar aquele feto sem vida por todos os longos e árduos meses daquela gestação.

 

O assunto é desagradável, mas não tem como ser ignorado –  ate porque nesta quarta, 11 de abril, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deve votar se mulheres grávidas de fetos anencéfalos, justamente, podem abortar sem recorrer à justiça. Veja só… Aqui na Inglaterra – como na maioria dos países europeus – a interrupção da gravidez é liberada, e no Brasil, ainda se brigando para liberar ao menos a de casos anencéfalos… É, não dá pra ignorar a questão mesmo. O que deveria ser ignorado são os seus palpites na vida alheia, é você decidir o que outra pessoa pode ou deve fazer com a vida dela – e principalmente se isso implica a tortura física e mental sobre uma mulher (e consequentemente sobre toda a sua família).

 

No fim, esta é a diferença entre Brasil e Inglaterra: o quanto podemos nos meter na vida dos outros. O quanto minhas crenças pessoais e religiosas devem se sobrepor aos seus direitos. O suporte médico do Estado é só uma consequência.

 

18 comentários para “Aborto x abortion”

  • Beni disse:

    oi zizo,eu me chamo beni,sou filho do arie ertel,eu estudo no colegio Israelita Brasileiro em porto alegre.Eu sou um menino que adora viajar,ja fui para varios lugares muito interessantes,eu quero ser quando crescer um jornalista,escritor e viajante que nem tu.Agora quero te fazer algumas perguntas.
    este ano eu vou para os estados unidos,o que de importante voce acha que eu devo fazer la?
    como que e a sua rotina de trabalho?

    • Zizo Asnis disse:

      Oi Beni! Bom saber que tenho um jovem e esperto leitor como você! A dica pra você ser um jornalista, viajante e escritor quando crescer é praticar bastante a leitura e a escrita! Leia blogs de viagem e, principalmente, livros de aventura (como aqueles do Mark Twain, As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, e do Julio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas e A Volta ao Mundo em 80 dias). E quando você viajar, faça um diário de bordo, escrevendo sobre as suas impressões! Nos EUA, considerando que você está indo a Nova York, vá conhecer o Metropolitan Museum, o Central Park e procure falar inglês – aposto que você já sabe alguma coisa! Sobre minha rotina, é só você ficar ligado neste meu blog – não exatamente neste post mas em todos os outros… hehehe… – que você saberá como é! Um abraço, viajante!

  • Janinne disse:

    Q polemico este post! Concordo com seu argumento final que diz que no fundo a grande diferenca entre os dois paises e o qto as pessoas se sentem no direito de se meter na vida das outras. E uma questao cultural que acaba tendo reflexos em varios aspectos da sociedade, desde a discussao do aborto ate o sucesso do Big Brother no Brasil, rsrs.

  • Eduardo disse:

    Gente, a vida começa quando a atividade cerebral começa. Sem cérebro, sem vida. Sem atividade cerebral, mas possibilidade de ter um, sem vida. Não vai se matar uma criança, e sim um emaranhado de células em constante mutação. O aborto não deveria ser um assunto delicado para a sociedade, e sim, como Zizo falou, para família, ou quem quer que esteja envolvido. Acredito que os danos à sociedade, e também a criação, são muito maiores quando a gravidez é indesejda.

  • Caru disse:

    A naturalidade com que o aborto era (e ainda é) tratado na Inglaterra também chamou minha atenção quando fui viver em Londres. O aborto parece ser descriminalizado não só juridicamente, mas também no ponto de vista das pessoas (não de todos, mas pelo menos de mais gente do que no Brasil). Várias vezes deixei amigas inglesas e australianas boquiabertas ao contar-lhes que uma mulher que faz um aborto poderia ir para a cadeia no Brasil. Isto era algo inconcebível para elas: como a decisão de alguém sobre o seu próprio corpo pode ser um crime? A partir destas e de outras situações fui percebendo que a tal “frieza” britânica talvez fosse mais uma questão de respeito à individualidade (“mind your own business”) do que de simples indiferença. Suas decisões e opções são problemas seus e ninguém tem nada com isso.
    Do outro lado temos a calorosa, sorridente e gingada hospitalidade brasileira, que vai de mãos dadas com esta mania que temos de nos intrometer, querer saber ou falar de nossos assuntos para os outros. Quantas vezes não contamos ou escutamos a história toda da vida de alguém que senta ao nosso lado no ônibus? A intimidade parece ser muito mais instantânea por aqui. O que pode ser positivo – “aqui é como coração de mãe” – quanto negativo, já que esta proximidade pode dar margem a palpites e perguntas que talvez incomodassem um britânico, por exemplo.
    Acredito que estas diferenças sejam não só culturais, mas têm a ver com o jeito com que o país funciona. Na Inglaterra parece ser mais fácil para cada um ficar na sua pois existem benefícios concedidos pelo Estado que garantem o respeito às escolhas de cada um. Há várias formas de suporte tanto para mulheres que fazem aborto quanto para mães solteiras que decidem continuar com uma gravidez não planejada. Esta estrutura de segurança social ainda está engatinhando no Brasil, o que nos torna mais dependentes de nossas famílias, amigos, vizinhos. Para sermos acolhidos nesta determinada rede que às vezes paga nossa faculdade, faz o mutirão da construção da laje ou cuida dos nossos filhos enquanto estamos trabalhando, temos que nos enquadrar dentro do sistema de crenças, valores e conceitos dela, ainda que estes se sobreponham aos nossos direitos.
    Assim, nos apegamos à discussão simplesmente moral sobre o aborto, se é “certo” ou “errado” e deixamos de considerar que diariamente há mulheres interrompendo gravidezes indesejadas (e algumas morrendo por causa disso) e que isto vai continuar acontecendo independente da legislação vigente. O moralismo provavelmente também vai prevalecer por muito tempo em nossa cultura, a questão é por quanto tempo ele vai ser um empecilho para que as mulheres tenham o direito de receber atendimento médico e psicológico público quando forem fazer um aborto ao invés de terem que recorrer à clínicas clandestinas ou overdoses de Citotec contrabandeados.

  • monica disse:

    Bah, editor, concordo plenamente contigo em relação ao direito de interromper uma gravidez no caso de feto anencéfalo. Também acho que não há nenhuma explicação que possa justificar a proibição do aborto nesse caso! Não se trata de um bebê que vai nascer com uma deformidade; trata-se de um bebê com chance zero de sobreviver, já que a anencefalia é uma patologia letal.
    Sim,ainda que sem cérebro, é uma vida, mas uma vida que não tem chance de continuar após o parto, visto que, nesses casos, o bebê tem vida fora do útero muito curta. Então por que precisa a mãe levar a termo uma gravidez de um filho que não tem a menor possibilidade de viver? Pra que estender ainda mais a dor (que já deve ser enorme) dessa mãe?

  • Simone disse:

    Entendo seu ponto de vista e o “foco” que quis dar ao texto… O caso dos anencéfalos é algo bem especifico, já que eles realmente não vão viver, então a mãe não está incidindo diretamente sobre uma vida (que não vai existir mesmo após o parto), então concordo com a palavra DECISÃO e direito de escolha. Mas quanto ao aborto não… Se tirar a vida de outra pessoa é crime, porque o aborto não seria? Pois o bebê é uma vida ali instalada na barriga, que não fala ou se expressa ainda, mas é um ser vivo! Então esse negócio que a mulher decide o que faz com O CORPO DELA é balela, pq no caso não é o corpo dela em questão, mas o corpo de um bebê que vai ser sacrificado. O que tem que ter é a conscientização, a prevenção, para que as pessoas “desavisadas”, descuidadas e de classes menos favorecidas não engravidem, e aí nem precisariam pensar nesta questão. Cada um tem que ter responsabilidade sobre o próprio corpo, e existem inifnitos métodos para prevenir hoje em dia.

    E a questão é delicada, pois discutir o anencéfalo abre brecha para discutir o aborto de bebês com outros tipos de doenças ou deformidades genéticas… e aí como faz? Se os pais descobrem que o bebê não vai ser 100% saudável eles podem simplesmente decidir em tirar então? A vida só é plena e válida para quem é perfeito, com 5 dedinhos em cada mão e pé? Fale isso para um pai que tem filho deficiente ou em cadeira de rodas. O amor, e o valor daquela vida é o mesmo. Já estamos caminhando para bebês “pré-fabricados”, em que os pais escolhem a cor dos olhos e cabelos… daqui a pouco vai ter uma vitrine e cada um monta seu bebê perfeito. Filho é uma dádiva, um presente surpresa, e não um objeto que se monta ou se elimina conforme a vontade e disponibilidade do momento.
    Desculpa o texto longo, mas tive que me expressar.

    • Zizo Asnis disse:

      Oi Simone, todas as discussões são válidas. Agora não acho que deveria se proibir o aborto de anencéfalos porque isso pode abrir brechas a outras situações. Cada discussão no seu lugar. Tem gente que fala absurdos de que porque agora se “matariam crianças” daqui a pouco estarão “matando idosos”. É tão sem sentido esse tipo de comentário que sequer dá pra conversar. A questão do STF no momento é o aborto de um feto sem vida, então pra mim é 100% coerente o direito à interrupção da gravidez. Já problemas na formação do feto que vai viver ou mesmo o desejo da mulher de não ter o filho são outra história. Mas insisto. Temos que ter o cuidado de não sobrepormos nossas crenças pessoais e religiosas sobre o direito dos outros.

      • Cláudia disse:

        Querido, não confunda sem cérebro com SEM VIDA.

        • Zizo Asnis disse:

          Claudia, vamos imaginar uma mulher no seu terceiro mês de gravidez que descobre que o feto é anencéfalo e não vai viver. Você – que não conhece esta mulher, que talvez não tenha condições de recorrer a uma clínica particular – se acha no direito de dizer a ela “não, você não vai interromper esta gravidez, você deve ficar por mais 6 meses com este feto morto no seu ventre, até que ele ‘nasça’ e aí você deve enterrá-lo”. Você tem certeza que se acha no direito de afirmar isso a esta mulher que você não conhece e tomar as decisões por ela??

          • Cláudia disse:

            vejo que o sr. sabe escrever muito bem, pena que não saiba ler tão bem assim. em nenhum momento disse ser CONTRA ou A FAVOR. o que falei é que estás dizendo o tempo todo que o bebê não tem vida, e estás errado, ele não tem cérebro, e após o nascimento poderá ter poucas horas de vida. agora se queres a minha opinião, acho que a mulher deve ter a condição de encurtar esse sofrimento sim.

  • Beatriz disse:

    Oi Zizo, não é apenas a questão social, é tb. a questão cultural e a questão de estrutura de saúde pública do nosso país. Hoje, com todos os recursos de não concepção, um número cada vez maior de adolescentes engravida, questão cultural, e os hospitais estão em situação precária, com doentes sendo atendidos nos corredores e no chão, questão de saúde pública. Ou seja, mesmo com a permissão de abortar, aquelas com condições financeiras continuariam em melhores condições, e as outras teriam que enfrentar todos os obstáculos da política de saúde pública do nosso país. O ideal seria realmente que tivéssemos liberdade de agir conforme as nossas convicções, mas, a questão é mais complexa.

    • Zizo Asnis disse:

      Oi Beatriz, sem dúvida é um tema complexo e envolve vários fatores da sociedade. Mas a questão do anencéfalo já não me parece algo tão complexo assim. O feto não tem vida. Não vai viver. É postergar o sofrimento de uma grávida. Se isso for realizado numa bom hospital particular através de convênio médico ou pelo sus após enfrentar uma fila de espera é outra história. Aí é o problema da nossa saúde pública, que também obviamente deveria ser resolvido. Mas ao menos a mulher teve direito de poder interromper aquela gestação traumática.

  • Ivone Lobo disse:

    Sou contra o aborto, mas absolutamente a favor do direito de cada mulher decidir se ter ou nao filho. O Zizo colocou muito bem o argumento : como as crenças de cada um nao deveriam interferir no direito dos outros. Por que mulheres ricas, ( ou quase, em alguns casos) podem decidir de abortar em clinicas particulares, pagando caro por isso? Enquanto isto mulheres do povo, nao tem direito a abortar nem mesmo se o feto é anencefalo.. Aqui na Italia, apesar do poder do Vaticano, o aborto è permitido e segundo eu ouvi em um debate, o numero de abortos diminuiu, depois que eles conseguiram a aprovaçao da lei liberando o aborto: é estranho, mas isso, foi consequencia do trabalho de educaçao e apoio psicologico que acompanhou a liberalizaçao.

    • Zizo Asnis disse:

      Oi Ivone, é bem isso aí: contra o aborto mas a favor do direito de cada mulher decidir. Essa é a questão. Não só na Itália mas tenho lido que em vários países europeus o número de abortos diminuiu, já que o assunto passou a ser discutido abertamente nos hospitais, com todo esse trabalho de educação e apoio psicológico que vc falou – bem diferente de um rápido procedimento numa clínica clandestina.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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