A trágica odisseia de Robert Falcon Scott

A maior aventura de todos os tempos. Épica. Comovente. Imprevisível. Não conheço história  mais emocionante do que a disputa e a conquista do Polo Sul. Na versão britânica: protagonista: Robert Falcon Scott, inglês. Coadjuvante – ou antagonista –, Roald Amundsen, norueguês.

 

Scott sonhava com o Polo Sul. Este era afinal o único lugar da terra que naquela época, início do século 20, ainda não havia sido conquistado. Chegou a comandar uma viagem à Antártica, em 1902, mas sem intencionar o Polo. Alguns anos depois, um de seus tenentes desta aventura, Ernest Shackleton, até que tentou, mas não conseguiu chegar ao ponto mais meridional do planeta. O Polo Sul continuava inatingível. Em 1910, com suporte financeiro da Monarquia britânica, e de mais algumas instituições, como a Royal Geographic Society, Scott partiu para a derradeira viagem.

 

Amundsen, desde jovem, era fissurado em regiões polares. Se criou no meio de barcos, e fez várias viagens marítimas, incluindo à Groenlândia e a ilhas nos arredores do Polo Norte, onde aprendeu técnicas de sobrevivência com esquimós. Em 1909, planejava ser o primeiro homem a alcançar o ponto magnético, propriamente, do Polo Norte. Soube, neste ano, entretanto, que o local fora recém-atingido, e aí mudou seus planos, invertendo seu objetivo para o ponto exatamente oposto.

 

Foi no decorrer da viagem, já em alto-mar, que Scott tomou conhecimento que um norueguês havia entrado na disputa. Scott se considerava parte da linhagem dos grandes exploradores que ajudaram a construir o Império Britânico (império este que iria desaparecer ao longo deste século). Amundsen, por sua vez, vinha de um país, a Noruega, que até o início deste mesmo século 20 era colônia de outro, a Suécia. Se havia uma corrida ali, Scott era o franco favorito. Ser império, no entanto, não era garantia alguma de vitória e conquista – e aqui, definitivamente, o que contava era a habilidade e o preparo para enfrentar um ambiente tão inóspito como o centro do continente antártico.

 

O barco de Scott, Terra Nova, chegou a contar com uma tripulação de 65 homens,  33 deles permaneceram em uma base na Antártica – porém apenas cinco (Dr. Wilson, Evans, Oates e Bowers, além do próprio Scott), em novembro de 1911, seguiram rumo ao Polo, amparados por cachorros, pôneis e trenós motorizados (os três meios se mostrariam problemáticos, e os animais logo foram mortos ou abandonados).

 

Apesar de enfrentar várias adversidades, o grupo, em 17 de janeiro de 1912, conseguiu alcançar o destino almejado – para descobrir que havia ali uma bandeira norueguesa: Amundsen chegara ao Polo Sul 34 dias antes.

 

Mas a infelicidade dos britânicos não ficou apenas nisso. No caminho de volta, as dificuldades demonstraram-se ainda mais intensas. Temperaturas radicalmente negativas. Nevascas. Falta de comida. Fraqueza. Doenças. Não tardou para, no meio percurso, morrer o primeiro da equipe, Evans. Pouco depois, Oates, sofrendo de  gangrena pelo frio extremo, sem condições de seguir adiante e sentindo-se um peso para os outros três, voluntariamente se afastou. Nunca mais foi visto. Scott já previa o futuro para ele e seus outros dois companheiros. E ele provavelmente viu os outros dois perecerem. Scott fez registros em seu diário pela última vez em 29 de março de 1912. Acredita-se que tenha morrido nesse mesmo dia, no máximo dia seguinte. Há exatos 100 anos.

 

Pelas intempéries impostas pelo inverno, que no hemisfério sul então se aproximava, parte do grupo que havia ficado na base antártica só pode procurar os homens que foram ao Polo meses depois. Scott, Wilson e Bowers foram achados, congelados, em novembro de 1912. Os corpos de Evans e Oates nunca foram encontrados. E a Grã-Bretanha só ficou sabendo do terrível episódio no início de 1913, um ano depois do ocorrido. Amundsen chegara são e salvo.

 

A história de Scott foi contada e recontada, e ele, inicialmente visto como um trágico herói, não tardou a, pelo seu suposto despreparo para enfrentar a empreitada, ganhar a alcunha de vilão. Passado um século, novamente os olhos se voltam a Robert Falcon Scott. Pelo menos três exposições na Inglaterra celebram sua aventura – na The Queens Gallery, anexo ao Palácio de Buckingham; na lendária Royal Geographic Society e, a mais completa de todas, numa ala do National History Museum (fiquei quase 3h30 nesta!). Agora tentando mostrá-lo como o aventureiro, o explorador, o homem que teve seus erros e seus acertos. Na maior aventura de todos os tempos.

 

PS: Pra quem curtiu a história, entre os vários livros publicados a respeito o meu favorito é O Último Lugar da Terra, de Roland Huntford. Travel writing na sua plenitude.

 

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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