O Muro de Belfast – Crônicas da Irlanda parte 3

O motorista norte-irlandês daquele “black cab” vermelho apontou e falou: “this is the guiiit”. Eu: “the git??” Ele: “no, the guiiit!”. Eu: “sorry?? What is ‘the guiiit’???”. Ele, que viu que eu realmente não entendia, respirou fundo e puxou de algum lugar da memória de algum brasileiro que tenha levado: “poorta”. Fitei nos seus olhos, mirei aquele portão pintado de verde e azul que estava na nossa frente e indaguei: “porta?”. E me dei conta: ” … the guiiit… the gate?!!! (portão!)”. “Yes”, esbravejou ele, “the guiiit”!

Se entender inglês na República da Irlanda era uma aventura, na Irlanda do Norte foi mergulhar no abismo das palavras shakespearianas. Cada vez que aquele alegre taxista ruivo falava eu me concentrava como se estivesse nas minhas finadas aulas de Cálculo do inacabado curso de Arquitetura. E olha que passamos 2 horas juntos. Os chamados “black cabs”, que não são necessariamente pretos, nos quais o motorista faz as vezes de guia, são a melhor forma de conhecer o lado B de Belfast. A região do centro, o imponente prédio da City Hall, a agradável área do píer, a curiosa torre do relógio (primo humilde do Big Ben), o movimentado  bairro universitário, o didático Ulster Museum (onde há uma exposição sobre o “The Troubles”), situado dentro do Jardim Botânico, tudo isso se faz a pé. Mas naquelas “portas”, naqueles preservados muros coloridos em que estávamos, dificilmente se chega sem carro.

Os tais guiits que o taxista bradava era um dos portões do muro que atravessava parte de Belfast. É absolutamente surpreendente constatar que uma cidade aqui, no norte do Reino Unido, próxima a Dublin, tinha um muro separando-a, quase tal como o emblemático de Berlim. A história da Irlanda é complexa, e não vou ter a pretensão (e nem teria o conhecimento suficiente) de contá-la aqui no blog, mas vale comentar o mínimo pra entender o absurdo que se instalou nesse país (e releve-se que o conceito de “país” aqui é abstrato).

A Irlanda, como se sabe, é dividida em República da Irlanda e Irlanda do Norte. A primeira, também conhecido como Eire,  é um país autônomo, independente, que tem o euro como moeda.  O segundo, também denominado Ulster, moeda libra esterlina, é um “país” com aspas – na verdade uma das três partes que compõe o Reino Unido. Mas se Inglaterra, Escócia e País de Gales estão todos no mesmo território – a ilha Bretanha –, a Irlanda do Norte está anexa à República da Irlanda, ambas separadas por uma fronteira invisível.

A situação das fronteiras é tão absurda que desafio alguém a me explicar a lógica. Ao sair de Londres, apesar de também estar deixando o país, não ganhei nenhum carimbo de saída do Reino Unido. Já ao chegar no aeroporto de Dublin, como estava ingressando num novo país, recebi um visto de entrada da Irlanda (de apenas 5 dias). Mas ao ir, de ônibus, de Dublin a Belfast, eu estava saindo da República da Irlanda e voltando ao Reino Unido – e não recebi carimbo de nenhum dos dois! Ou seja, para os britânicos, foi como se eu nunca tivesse deixado o seu país. Para os irlandeses, que não registraram a minha saída, é como se eu ainda estivesse (ilegal) por lá! Bizarro.

A questão, com todo respeito à História, pra quem olha de fora parece estúpida (os atentados por certo são!). Em 1922, a Irlanda, de maioria católica, tornou-se livre do Reino Unido – mas não a região nordeste da ilha, Ulster, de maioria protestante, que continuou sob a égide britânica, com o aval de pouco mais da metade de sua população. Rixas entre católicos e protestantes são centenárias por aqui, pelo menos desde o século 17. Mas foi no século 20, a partir do final dos anos 60, que as hostilidades voltaram à tona – conflito que passou a ser conhecido aqui como “The Troubles” (Os Problemas). O ponto mais crítico desta história recente foi no ano de 1972: no episódio conhecido como Bloody Sunday (Domingo Sangrento, imortalizado pela música do U2), a polícia britânica repreendeu com tiros uma manifestação pacífica de católicos, na cidade de Derry, na Irlanda do Norte, matando 14 pessoas (6 deles menores de idade); neste mesmo ano, como resposta, o IRA (Exército Republicano Irlandês, grupo paramilitar que desejava a unificação da Irlanda, mas que a essa altura já havia se convertido numa organização terrorista) explodiu 22 bombas no centro de Belfast, matando 11 pessoas, no que ficou conhecido como Bloody Friday (Sexta-Feira Sangrenta).

Nos 33 anos seguintes – até o ano 2005, quando o IRA ao que parece aposentou realmente as armas –, o insolúvel problema que divide o povo e o território entre Eire/católicos/republicanos, favoráveis a Irlanda unificada, e Ulster/protestantes/unionistas, fiéis à Grã-Bretanha, foi a justificativa para várias mortes e centenas de feridos em frequentes atentados em Belfast – e até mesmo em Londres. Entre os anos 70 e 90, para aplacar as crescentes hostilidades, muros com alguns portões de check-point foram construído em bairros de periferia da capital da Irlanda do Norte, separando parcialmente protestantes e católicos.

Hoje a maior parte desses muros, conhecida como Peace Lines (Linhas da Paz), continuam de pé – se constituíram em um surpreendente espaço de arte – não à toa, são chamados de Mural – no qual artistas os utilizam como telas urbanas para ilustrar sua visão da história. É sem dúvida é uma das maiores atrações de Belfast – cidade que viu raros turistas nas últimas décadas.

Engraçado como sempre se falou no Muro de Berlim, e em outros que separam povos vizinhos (israelenses x palestinos; estadunidenses x mexicanos; coreanos do norte x do sul), mas dificilmente se comentava deste. Tampouco a Europa ou as grandes potências faziam questão de sair da neutralidade (e consequentemente da complacência) em um conflito envolvendo o Reino Unido (e não era unicamente um problema doméstico). Mas a Irlanda do Norte faz parte sim do Reino Unido e ainda hoje são poucos os viajantes que vêm para esses lados – e olha que a viagem é bacana (a algumas horas de ônibus/trem de Dublin ou trem/ônibus + barco da Escócia, entre outras possibilidades). E devo dizer que Belfast me surpreendeu muito – apesar de bem menos vibrante que Publin, digo, Dublin, é inegavelmente mais bonita. Aliás, apesar de ser apenas a 14ª maior do país (tem em torno de 270 mil habitantes), eu já a coloco na lista das cinco cidades mais interessantes do reino da Rainha. E entender a sua história é o grande bônus da viagem. Mesmo que você… bem… não entenda o que o seu simpático povo esteja a falar…




4 comentários para “O Muro de Belfast – Crônicas da Irlanda parte 3”

  • Thiago Nascimento disse:

    Nossa. Vi agora a postagem. Estive por lá no dia 6 de março de 2012. Passei por estes locais de noite (já que de dia estive no belíssimo litoral norte no Condado de Antrim (Causeway and Bushmills). Tirei algumas fotos destes muros, tanto na área dos católicos quando dos protestantes. E tive a oportunidade de conversar com os locais. Há uma certa paz estabelecida entre loyalists/unionists/prothestants e catholics/republicans, mas o medo e o preconceito continuam no ar. Os norteirlandeses não gostam muito de falar sobre isso e vejo muitas bandeiras britânicas no ar. Mas as estatísticas mostram que os católicos e irlandeses nacionalistas estão crescendo.

  • Thiago Faria disse:

    estive em Belfast no último final de semana, busquei no Google a respeito da história do Muro,,e achei seu blog, me identifiquei com a situação da língua Inglesa da região,,,complicadissimo o entendimento,, passei alguns apertos também..Saudações.

  • Beti Asnis disse:

    Vivendo e aprendendo brother!!!
    Bj

  • Bartira disse:

    Zizo,
    Parabéns. Obrigado pelo bônus (aula de história) sobre a Irlanda. Confesso que para uma disléxica essa situação dos carimbos no passaporte me deixou bastante confusa. Tudo meio surreal … e até divertido.
    Muita paz e luz para você.

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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