Meryl, Margaret and Me

Descobri um cinema aqui em Londres que às terças o ingresso sai por £3,50 (em geral custam de £9 a £15, multiplique por 3 para saber o valor em reais). Boa sala, o Coronet Notting Hill era um teatro, foi reformado e hoje manda bem como cinema, vale muito o custo-benefício. Nesta terça fui assistir a The Iron Lady (A Dama de Ferro), cinebiografia de Margaret Thatcher, a poderosa primeira-ministra britânica de 1979 a 1990.

Longe de ser ótimo, é um bom filme, que talvez tenha como maior mérito o trabalho de Meryl Streep. Essa mulher incorporou Thatcher ao ponto de nos fazer esquecer que existe uma atriz por baixo de toda aquela maquiagem. Quando foi anunciado o seu nome como a intérprete da primeira-ministra, os britânicos torceram o nariz: uma atriz americana no papel da mais célebre política inglesa?? Nas primeiras exibições, o mais ufanista fã da Rainha reconheceu: Meryl estava perfeita. Não à toa, ganhou no último domingo o Bafta, o Oscar britânico. Não foi apenas um prêmio de melhor atriz: foi a aprovação incondicional pela academia britânica da interpretação de “um gringo” no papel de “um de nós”. Entre atores e atrizes, não há dúvida que Meryl Streep é a número 1 do cinema mundial, sem experimentar qualquer leve decadência como tem sido comum na carreira de outros de seus contemporâneos, como Robert de Niro ou Dustin Hoffman.

A maior parte do filme mostra a mulher já idosa (que ainda vive), quase senil, em conversas com o fantasma do marido (Jim Broadbent, ótimo ator inglês). Ao longo da história, contada de forma não-linear, testemunhamos a sua entrada na política (outra atriz quando jovem), a transformação já como  candidata a primeira-ministra e a mulher exercendo o poder supremo, tudo de forma tangencial, sem maiores voos políticos. Algumas das melhores cenas têm como pano de fundo a Guerra da Malvinas, Falklands aqui – conflito que no final levantou a popularidade de Thatcher, que então se encontrava em baixa. (Ironicamente, o assunto Malvinas/Falklands tem voltado à tona, com a lembrança dos 30 anos da Guerra e a presença do príncipe William por lá).

Atenção, vem um spoiler aí: vou contar uma cena do filme, se você (como eu) não gosta que contem nada (mesmo que a cena não estrague nenhuma surpresa dramática, como é o caso), pule para o parágrafo seguinte. Indignada com a invasão da Argentina, que para ela estava atacando a soberania britânica, Thatcher lembra a ditadura militar dos nossos vizinhos, e sua postura é enérgica ao mandar submarinos nucleares ao Atlântico Sul. Se entristece porém com a morte de soldados britânicos – mas nunca chorando em público, o que, para uma mulher no governo, ao contrário de um homem, seria sinal de fraqueza –, e ao enviar cartas de condolência à família dos jovens mortos, compartilha a dor das mães, já que, segundo escreve, foi a única primeira-ministra da Grã-Bretanha que também era mãe. Talvez The Iron Lady pudesse se aprofundar um pouco mais nas polêmicas decisões de Margaret Thatcher (ela cortou benefícios sociais, acabou com o salário mínimo, reprimiu greves), mas ao trocar a veia política pelas questões humanas e até feministas da personagem, a diretora Phyllida Lloyd (de Mamma Mia) certamente abriu mais o leque de público.

Mas é claro que o filme não retrata toda a vida dela. Mesmo fora do poder, ela ia a alguns jantares, coquetéis… O filme não mostra isso. Garçons ofereciam canapés a ela. O filme também não mostra isso. Aliás, não lembro de ter visto algum garçom no filme! Como se Margaret Thatcher não tivesse contato com garçons! Uma vez ela foi num dos salões do Banqueting House, palácio de eventos para a nobreza e a classe parlamentar londrina, e um garçom chegou até ela com uma bandeja de camarões. Eu sei disso pois o garçom… era eu!!!

Quando morei em Londres em 1994 trabalhei como garçom de banquetes, o chamado silver service, serviço de prataria. Era um trabalho relativamente fácil de conseguir, já que sempre havia (há) muitos eventos na capital britânica, e sempre precisavam de muitos garçons. Demorei um pouco pra pegar a prática (na verdade eu era um horror no começo, absolutamente atrapalhado), mas depois fui ficando bom, modéstia à parte, e passei a ser convocado para “jantares e eventos de alto nível” (ou seja, nada de chamarem garçons que pudessem derrubar bandeja). Num desses, até num banquete com o Príncipe Charles participei! Geralmente eram almoços bastante formais, mas o de Margaret Thatcher era apenas um coquetel. Na verdade não lembro bem se eram camarões, mas era uma bandeja redonda cheia de torradinhas finamente decoradas. Vamos chamar de canapés que é mais chique!

Normalmente apenas chegávamos até os convidados, elegantemente aproximando a bandeja, que se serviam do salgado. Diálogos eram desnecessários e até mesmo desencorajados, talvez apenas o agradecimento do convidado. Mas eu estava com Margaret Thatcher! Ela já não estava mais no poder havia quatro anos, mas o seu partido continuava no comando, e ela ainda era uma figura respeitada. Me aproximei. Ela era bem mais baixa do que pensava, e me surpreendi ao notar sua aparência frágil, longe do estigma da “dama de ferro”. Mesmo sem nenhuma admiração por suas ideias conservadoras, eu queria conversar com ela! E assim, ao invés do garçom mudo, cheguei até ela e disse: “Excuse-me (aproximando a bandeja)… Would you like some?” Ela rapidamente olhou nos meus olhos, olhou para a bandeja, pegou um canapé e com um discreto sorriso retribuiu:“Thank you very much”. Fim. Meu relacionamento com Margaret foi mesmo breve.

Existem rumores que irão fazer uma segunda parte do filme – “The Iron Lady – her life with the waiters“. Quero Brad Pitt no meu papel.

 

 

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Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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