Posts da categoria ‘Europa 2012’

A Sustentável Leveza do Ser

    Eu estava para sair da Bielorrússia, onde tive uma experiência fantástica, mas sentia que faltava fazer uma das coisas que mais gosto numa viagem – interagir com os nativos. Tive a oportunidade de conversar com o Embaixador do Brasil em Belarus, que me relatou aspectos muito interessantes do país, as relações dessa nação com a Rússia, com a União Europeia – mas faltava a visão do povo local, do cidadão comum que vivia aquele dia a dia no cenário de aparente perfeição. Queria muito conhecer alguém e, verdade, enchê-lo de perguntas: “como é a sua vida? Sente falta de liberdade? Quais as expectativas de trabalho num país estatizado? Porque as mudanças que ocorreram no resto dos países comunistas não ocorreram por aqui? Tem vontade de imigrar, exilar-se?”. Mas se mal pude trocar um par de palavras com algum bielorrusso, naquela altura achava quase impossível brotar um “papo-interrogatório”.

Meus contatos com os bielorrussos foram sempre breve. A recepcionista que falava inglês no hotel se limitava a me dar explicações do funcionamento da calefação ou da internet (tomorrow, tomorrow). Jovens na rua a quem eu gostava de pedir informação – o que poderia ser o início de uma conversa – ou me diziam que não falavam inglês (a grande maioria) ou se limitavam a me responder exatamente o que eu perguntara, sem sequer esboçar a curiosidade em saber de onde eu era. Na real, nunca me perguntavam nada.

Mas eis que os artilheiros entrariam na prorrogação do segundo tempo, pouco antes de eu atravessar a fronteira. Estava no trem que sairia do país rumo à Lituânia, próximo destino da viagem. Aliás, não lembro de ter viajado num trem tão desconfortável em toda minha vida viajante! Se me disserem que aqueles vagões foram utilizados pelos bolcheviques, eu acredito. Na minha cabine havia uma senhora, meio sisuda, e um cara de feições diferentes do que eu havia visto em Minsk (apostava minhas fichas que era siberiano). E aí entra um jovem casal, aparentando 25-30 anos, sentando um na frente do outro. Não tardam a conversarem entre si, despejando bem-vindas doses de informalidade naquele ambiente cujo único barulho até então vinha dos movimentos do trem.

A menina havia me chamado a atenção: bonita, cabelo castanho até os ombros, pele clara, lembrava muito a Juliette Binoche. Num determinado momento, ela tira umas folhas de papel e começa a ler um texto, em inglês. Foi a brecha pra eu abordá-la: “So, you speak English…”.

Ela não só falava inglês, como falava muito bem – e com simpatia, com vontade de se comunicar. Seu nome era Sasha, e apresentou o companheiro, Vadim, mais tímido, mas igualmente uma figura agradável. Começamos a trocar amenidades, o que eles faziam, no que eu trabalhava, e não demorou para estabelecermos certa confiança. Eram formados em Direito, mas não exerciam a profissão. Diziam que havia pouco mercado de trabalho no país, e, mais do que isso, não queriam trabalhar com as leis bielorrussas. Comentaram como algumas atividades eram desvalorizadas, como a Medicina, na qual um médico, após sete anos de estudo, dificilmente recebia mais do que um salário mínimo de 200 dólares mensais. Acabaram trabalhando na área de tecnologia num banco, uma das poucas instituições privadas do país, e por isso ganhavam salários acima da média, o que lhes permitiu certos luxos, como viajar para a Espanha e para a Tailândia. Lembraram que tirar os vistos, porém, não fora fácil – tiveram de ir à vizinha Polônia para contatar os consulados, e mesmo para entrar na Polônia precisavam de visto, e que para isso era necessário marcar hora, o que levava meses (mais ou menos como é/era para irmos aos Estados Unidos). Viagens sem visto antecipado? Apenas para Rússia, Ucrânia e… Cuba, riram.  Poderiam ir a Cuba a hora que quisessem, como se a ilha de Fidel ficasse ali do lado. Novas risadas surgiram depois, mas aí provocado pelo meu passaporte, quando ao chegar na fronteira, ao sair do país, meu documento foi, na nossa frente, rigorosamente examinado pela polícia, inclusive com uma espécie de microscópio, que tentavam averiguar sua autenticidade, como se um brasileiro fosse um marciano atravessando a fronteira da Bielorrússia para a Lituânia (já vi esse filme antes, vide Rússia, vide prisão…).

Gostava de vê-los sorrir, ficavam ainda mais iluminados. Realmente formavam um bonito casal. Ela, expansiva, era generosa nas risadas, demonstrava uma intensa alegria de viver, mas com uma ponta de tristeza. Ele, sempre discreto, era bastante observador. Se de imediato Sasha me levou à Juliette Binoche, Vadim em seguida me lembrou Daniel Day Lewis, e inevitavelmente ambos no filme A Insustentável Leveza de Ser. Trocava-se o cenário da Praga comunista dos anos 60 pela Minsk comunista dos 2010. Ela conta que têm uma filha, de 4 anos, e, já no auge da nossa saborosa cumplicidade, revela que estavam no meio de um pedido de imigração para Canadá: era o sonho de uma vida melhor, a expectativa de serem mais valorizados profissionalmente e de que sua filha pudesse crescer com maior liberdade.

Repentinamente, após a parada do trem em uma estação, nossa cabine é invadida por três senhoras gordas. Segue um diálogo em russo e meus dois queridos companheiros se levantam e começam a apanhar suas coisas. Transgressores, eles haviam entrado numa cabine que não era a sua – para minha sorte – e agora cederiam aqueles retilíneos bancos para as babushkas. Trocamos emails, e reforcei a eles que qualquer coisa que precisassem do “mundo ocidental”, que não hesitassem em me escrever – como se eu fosse um poderoso diplomata brasileiro. Percebi que desejava a aqueles dois uma profunda boa sorte como desejaria à minha família, aos meus melhores amigos. Por certo, que tivessem um melhor destino do que o de Binoche e o Day Lewis do cinema.

 


Que País é Esse


Mas afinal, que país é esse que a maioria das pessoas não sabe onde fica, e muitos sequer ouviram falar? Belarus, traduzido no português para Bielorrússia, é um raro território do leste europeu que foi esquecido pelos protestos e revoluções que puseram abaixo o comunismo desde o fim dos anos 80. A capital, Minsk, causa um tremendo choque no viajante pelo grande contraste em relação à todas as demais capitais europeias que se encontram a seu oeste. Grandes prédios no melhor estilo soviético, emblemáticos símbolos de suposta potência vitoriosa e largas avenidas cuidadosamente urbanizadas revelam uma assustadora escassez de vida e cores: não há fachadas coloridas, grafites em paredes, músicos nos metrôs, vitrines iluminadas ou pessoas visualmente diferentes. Na verdade o que vi de mais colorido foi um muro com símbolos comunistas e um cartaz vermelho de Lenin.

Os bastidores da nação aparentemente organizada e de povo comportado, porém, escondem uma outra faceta do país. Exilada em Londres, a fundadora do grupo teatral Belarus Free Theatre, Natalia Kaliada, concedeu, em junho passado, uma entrevista ao jornal britânico The Observer, a versão dominical do conceituado The Guardian. Segundo ela, “na Bielorússia é simples: tudo é reprimido”. Kaliada afirma que desde a ruptura da União Soviética nada mudou para melhor. Lembra dos muitos amigos presos, de como a liberdade é suprimida e de duas execuções ocorridas recentemente. A Bielorússia é único país da Europa a utilizar a pena de morte – e o faz fuzilando com um tiro na nuca.

No caso, os executados em questão foram dois suspeitos de 26 anos responsabilizados por um ataque a bomba no metrô de Minsk, em abril de 2011, que matou 25 e feriu em torno de 300. Como agravante à execução, os jovens foram condenados sem defesa e sob a dúvida de se teriam sido eles mesmos os responsáveis pelo ato bárbaro.

A pena de morte é apenas mais um recurso da mão pesada do presidente Alexander Lukashenko, conhecido como “último ditador europeu” – está no comando do país há quase 20 anos (foi eleito em 1994). Eleições até há, porém a mais recente, em 2010, que garantiu um quarto mandato para Lukashenko, foi acompanhada de intensos protestos na rua (tudo devidamente reprimido pelo governo), que alegavam a fraude do pleito.

O turismo é pouco desenvolvido no país – como era de se esperar, já que se dificulta a entrada de turistas. Mesmo cidadãos de países vizinhos, como Polônia e Lituânia, precisam de visto, e o devem solicitar com antecedência. Quem procurar por imagens de cartões postais talvez se frustre. Ora, quem precisa de torres, castelos e pontes por aqui? – ainda mais quando se encontra uma legítima estátua de Lenin! Estar na Bielorrússia, afinal, é uma das viagens mais singulares que você pode fazer na Europa – uma volta de 25, 30, 50 anos no tempo. Mas venha logo, pois isso não vai continuar sempre assim. Ah não vai.



Que Hotel É Esse Companheiro?

 

Eu tinha o endereço de dois hotéis anotados na minha caderneta de anotações viajantes. Eram dicas de um guia de viagem – na falta de um Guia O Viajante que contemplasse a Bielorrússia, tive que apelar para aqueles destinados aos anglossaxões.  Eram pouco mais de 7 horas da manhã e uma névoa cobria a cidade. Cenário oportuno para quem chega totalmente perdido numa cidade meio estranha. O câmbio da estação rodoviária estava aberto e troquei alguns euros – 1 euro valia 11.000 bielo-rublos. 20 euros, 220.000 rublos. Parecia a velha Itália nos tempos da lira, com seu monte de zeros.

Um único táxi se encontrava na rua, o motorista me chama. Mostro o endereço e pergunto quanto custaria a corrida até lá. Ele arranhava o inglês o suficiente pra me dizer “ten euros”. Se ele oferecia 10 euros, certamente é porque podia fazer por 5. “Five euros”, retruco. Ele diz que por esse valor, não. Me afastei um pouco, tentando avistar outro táxi. Ele veio atrás de mim: “ok, ok, five euros”. E vai me levando para o seu carro. Noto que era um carro particular, e próximo dali havia um táxi de verdade, com a identificação no capô e o motorista sentando dentro do veículo. Pô, você nem mesmo é um taxista e ainda queria me cobrar 10 euros –, digo a ele. Me fiz de louco e fui até o verdadeiro táxi, entrego o endereço ao motorista, e ele, sem falar inglês, me mostra na calculadora: 35.000 rublos.  Peguei a sua calculadora e reduzi a 20 mil. Ele demonstra que por esse número não faria, mas que por 30.000 me levaria, seu preço final – menos de 3 euros, 7,50 reais. Achei justo. Também gostei dele ter me cobrado na moeda local e, principalmente, de não ir com o outro cara, o inflacionado taxista fajuto.

Mostro novamente a ele o endereço do hotel, um nome russo impronunciável, um local que, pela descrição do meu guia, seria bom e razoavelmente barato. Algumas voltas e alguns minutos depois, paramos em frente a um moderno prédio de um internacional 5 estrelas. É aqui, me indica o motorista. Não, não, não é esse, veja o nome do hotel na minha caderneta, não é o mesmo. “Hotel Yuryzbkywskwsky” , diz ele, “no”. Esses guias de viagem… O hotel não exista mais… Havia outro, de luxo, no lugar. Embora comunista, a Bielorrússia cedia espaço para empreendimentos estrangeiros que se instalavam nas principais cidades. Na verdade, não vejo nenhum problema nisso. Se é para melhorar o serviço e aumentar o oferta, que venham os ianques. Mas por favor, preservem a cultura local. Não precisa um moderno 5 estrelas substituir um tradicional (e barato) soviético. Haveria espaço para os dois. A entrada do investidor estrangeiro e da iminente internacionalização cultural é uma tendência no país, assim como foi nas demais nações que um dia foram socialistas. Infelizmente isso acontece deixando poucos rastros do passado. Só me restou passar ao taxista o endereço do segundo hotel, na esperança de que esse continuasse de pé. Chegamos num grande prédio, nada moderno, identificado por letras do alfabeto cirílico que eu não conseguia ler acrescido da emblemática estrela vermelha de 5 pontas. Eram um bons sinais.

A única recepcionista que falava inglês me confirma que havia vaga e me oferece um quarto – 572.000 rublos, ou 52 euros (148 reais). Ainda que não fosse a diária mais alta do mundo, era caro pelo porte do hotel. Eu tinha certeza que havia tarifas mais em conta e a questionei sobre isso. Bem, me diz ela, havia, mas eram de quartos “não reformados”, me explica. Nas entrelinhas, “quartos soviéticos”. Ela suspeita que eu não fosse gostar, e me pergunta se eu desejava ver antes de aceitar. Vamos lá.

Subo ao quinto andar – o andar soviético com os quartos soviéticos. Abro a porta. Não só não me assusta como me entusiasma – agora sim estava num país comunista! Moveis de madeira, não rústicos, apenas antigos. Papel de parede  meio deteriorado. Piso de parquê com um tapetinho básico. Uma geladeira enorme no canto. Uma mesa meio perdida entre duas camas. Preocupação estética, zero. No banheiro, banheira, pia e uma privada que não encostava na parede – ficava quase em frente à pia, no meio banheiro. Preocupação estética, -10. O papel higiênico? Minha avó tinha uma lixa de pés mais macia. Mas se é isso que o Camarada Stalin nos oferecia, ok. O mais importante: era tudo limpo e bem cuidado, e pouco me importava que aquela velha TV não tivesse a CNN em canal a cabo. Ah sim, e o quarto custaria 162.000 rublos, ou 14 euros (40 reais). Onde assino minha filiação ao Partido Comunista?

 

……………………………………………….

Nota do escritor de guias de viagem: hotéis na Bielorrússia – pela minha pesquisa, constatei: há os novos ou modernizados, que publicam suas tarifas em dólares ou euros, e os mais antigos ou tradicionais, que expõem seus preços em rublos, e são significativamente  mais baratos.  Esses últimos, porém estão gradualmente  desaparecendo – isto é, se modernizando, se adequando ao padrão europeu; da mesma forma, é possível achar alguns quartos nos hotéis reformados que ainda pertencem ao velho estilo pré-Gorbachev. Além da economia, esses locais oferecem uma pitoresca amostra de como era o período soviético. Alguns hotéis e albergues em cidades do leste europeu, como Praga e Berlim, hoje recriam ambientações daquela época. Pois aqui ainda é original. Ainda.

 


A Quase Conturbada Entrada num País Comunista no Século 21

 

O primeiro grande destino desta viagem é a Bielorrússia – o último território comunista ainda vigente no continente europeu, governado por um presidente que há quase duas décadas se perpetua no poder. E tudo isso me excitava bastante – e mais ainda por ter estado em um país comunista quando viajara, nos meus 20 anos, no derradeiro ano de 1989, mesmo ano em que o Muro de Berlim caía o  a Cortina de Ferro começava a desmoronar. Só o que eu precisava agora era organizar minha chegada ao país.

Normalmente viajo com um passe de trem, mas como faria poucos trajetos que o passe cobriria, arrisquei comprar passagens avulsas ou encarar um ônibus. Qual não foi minha surpresa ao saber do preço da passagem de trem de Frankfurt a Minsk, a capital bielorrussa – 265 euros! Sem dúvida, faria de ônibus – 90 euros, mas eram 35 horas de viagem! (e ainda chegava na cidade perto da meia-noite). Decidi dividir o trajeto em duas partes: Frankfurt–Varsóvia (61 euros) e Varsóvia–Minsk (29 euros), o que me permitiria dormir duas noites no ônibus (economizando uma diária de hotel), chegar em Minsk pela manhã (bem melhor) e ainda passar uma tarde na capital da Polônia (entre a chegada de um ônibus e a saída do outro).

Em Varsóvia, aproveitei para conhecer o Museu da Resistência (muito bom!), passear pela Stare Miasto (a cidade velha, sempre bonita) e saborear uma porção de pierogues (pasteizinhos cozidos, recheados de batata e queijo ou carne, cobertos com cebolinha, também conhecido em alguns lugares como varenekis, delícia!). E constatar: a EuroCopa fez bem a Polônia.

À noite, num ônibus bielorruso quase vazio, segui a Minsk. No início da madrugada, alcançamos a fronteira. Lembro lá de 89 que chegar na fronteira de um país comunista causava arrepios. A polícia vinha, te enchia de perguntas, revistava sua bagagem e, meio que aleatoriamente, te deixava ou não entrar. E como era comum ser barrado na borda de países como Romênia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Iugoslávia (aliás, os três últimos nem existem mais). Seria assim também na Bielorrússia, me perguntei?  Eu já tinha o visto (tirado no Rio de Janeiro – é um dos últimos países europeus que ainda exige visto antecipado, e não apenas de brasileiros), e o Cônsul, devido ao meu trabalho no O Viajante, me isentou daquela chata burocracia da carta-convite e dos voucheres obrigatórios da reserva de hotel, que nem na Rússia precisa mais. Mas, sabe-se lá… Poderiam implicar com isso… Além do que, os caras invariavelmente sempre se perguntam “que diabos afinal faz um brasileiro por aqui???”.

Fomos orientados a descer do ônibus, encarar a fria névoa da noite e, levando toda nossa bagagem, a formar uma fila. Percebi que eu era o único estrangeiro. O guarda da alfândega, cara de pouco amigos, grita algo ao motorista, que por sua vez me pergunta em uma única palavra: “Insurance?” (seguro). Engoli em seco. Sabia que o seguro poderia ser solicitado na Europa Central, mas ali, para Bielorrússia não era um dos documentos listados pelo consulado. E eu não tinha! “Yes, I have”, respondi sem convicção. “Good”, retrucou o motorista. E agora José??

Seguindo na fila, chega minha vez. O policial pega meu passaporte e só faz uma afirmação: Insurance!  Pô, o que deu nesses caras, só porque não tenho a porra do seguro todos resolveram me pedir?! Dei uma disfarçada e mostrei meu cartão do American Express, contando uma meia verdade: “Esse cartão dá seguro médico, viu? Se precisar, é só contatá-los”. Acho que não deu certo. O guardinha, ainda mais sisudo, sai de seu posto, grita algo em russo e ordena que eu vá até o motorista. Só faltava me dizer “cara, você está muito encrencado!” Sigo caminhando com o motorista pela gélida madrugada naquela zona fronteiriça, e não resisto em lhe perguntar “problems?”, ao que ele me confirma, sério, no seu inglês macarrônico “problems, very problems!”.

Pronto, vou ser deportado, considerei. Mas deportado pra onde, pra Polônia?? Ou pior, vão me prender… Opa, já cumpri minha cota de prisão russa, não preciso agora de uma prisão bielorrussa… Com sorte, talvez apenas me multassem… Sim, multa. Tudo indicava, seria por aí: eu estava sendo encaminhado a uma bizarra cabana com a identificação “insurance”. Como no burocrático estado soviético, esse deveria ser o departamento que cuidava de seguros, ou da falta de. Senti um cheiro de extorsão no ar. Vinte euros por dia estaria no lucro pensei, mesmo sendo por 3 dias. Não, seria mais. Subi um par de degraus, abri a porta e vejo uma mulher igualmente sisuda atrás de um balcão. Oitenta euros por dia eu tinha certeza. Ele me mostra vários papéis, que notificam a necessidade do seguro para entrar na Bielorrússia. Meu deus, 200 euros por dia, 600 euros é o que me cobrariam. Meu coração palpitava. Minhas mãos formigavam. Minha carteira flamejava.

- You have to pay… – começou ela, enquanto eu me aprontava para o choque… – two euros!

Hein? Como que é?? Two? Dois euros?? Foi isso mesmo que ouvi?? Dois euros por dia??

Não. – Two euros, that´s all?? – Yes, two euros.

Tentando disfarçar minha alegria, dei a ela uma moeda de 2 euros, assinei quatro vezes alguns documentos meio que sem ler (que perigo…) e pronto, já tinha meu seguro, meu querido insurance.  Voltei pro guardinha, que agora, com o seguro em mãos, se mostrava doce como um pudim de ameixa. Até exclamou feliz num inglês com sotaque russo quando abriu meu passaporte “ah, Rio de Janeiro!”, reparando onde tirei o visto. “Yes, Rio de Janeiro” – e complementei com minha cidade natal, também indicada no passaporte – “and Porto Alegre!” E se ele quisesse, eu poderia continuar: “and Aracajú, Belém, Cuiabá…”. Não foi preciso. Eu acabara de ganhar meu carimbo bielorrusso.


Legados de Frankfurt

Nada como uma bela viagem pelo Leste Europeu para retomar o blog! Meu ponto de partida, após um tranquilo voo pela Swiss com conexão em Zurich, foi Frankfurt, onde vim pela messe book fair – a maior Feira do Livro do mundo. Voltada mais ao mercado livreiro do que ao leitor propriamente, a feira é gigantesca, onde temas e nacionalidades se espalham por 8 pavilhões. Ainda que eu tenha me concentrado mais naquele que abrigava o assunto “travel”, era inevitável se deslocar entre os extensos corredores, o que praticamente consumiu meu tempo e energia para passear por Frankfurt  (e depois, vamos combinar, Frankfurt também não é nenhuma Berlim, Munique, Colonia…). Pude, no entanto, conhecer um novo albergue, o United Hostel, que se divulga com diárias a partir de 17 euros. O problema é que na hora do check-in os 17 viraram 40 euros… Como assim cara-pálida, mais que o dobro?? É por causa da Feira do Livro, justifica o gerente meio envergonhado pela subida descarada de preços. O pior era que outros locais estavam lotados. Mesmo disposto a pagar mais por um quarto privativo, não encontrei nessa época.

Só me restou um dormitório para 10 pessoas, dividido em dois ambientes: de um lado, 3 beliches; de outro, separado por um banheiro e um pequeno corredor, mais 2 beliches. Fiquei neste último, compartilhando o espaço com três asiáticos. À noite, após um longo dia na Feira, deitado no topo da cama, começo a planejar a sequência da minha viagem, enquanto meus roomates dormiam (ou tentavam). Na ala do lado, um cara de origem árabe falava alto sem parar, ignorando que já passavam das 11h da noite. Comecei a me irritar. Notei que os japoneses (ou coreanos, chineses…) estavam todos acordados, mas, educados (até demais), nada reclamavam. Larguei um “shhhh…” de silêncio, o cara resmungou alguma coisa na língua dele e continuou nos seus brados, ignorando minha solicitação. Fui ao banheiro e indignado não pude evitar: “Cara, são quase meia-noite, tem gente aqui tentando dormir, não sabe falar mais baixo não?”. Não, não sabia.

Alguns minutos mais tarde, sinto uma fumaça vindo do lado de lá. E aí escuto um outro cara, inglês fluente, australiano, dizer: “eu até não me importo, mas você não pode fumar aqui”. Caramba, eu me importava. Pulei da cama e fui ver se era o mesmo cara. Era. Me dirigi a ele sem medir as palavras: “Você não sabe ficar num albergue! Não cala a boca, fala alto, deixa a luz acesa e agora ainda fuma num quarto fechado com mais nove?”.  Emputecido, desci na recepção e não hesitei de bancar um X9, pedindo pra trocar de quarto e relatando ao responsável da noite o que acabara de dizer ao cara. Quando cheguei na parte do  “…fumando no quarto”, o cara do albergue explodiu: “de novo??? Você pode ficar no quarto, ele vai embora!”. Instantaneamente, angariou outros dois caras do albergue e, como numa cruzada, subiram correndo e entraram abruptamente no quarto. Seguiu-se uma longa e pesada discussão, ameaçaram chamar a polícia, e por fim conseguiram expulsar o cara do quarto –, aliás do albergue. Não, não fiquei com pena.

Desci na recepção pra pedir um adaptador de tomada e encontrei o australiano. Ele ia embora no dia seguinte pela manhã e foi reclamar que com o fumante e depois com todo aquele barraco ele não pode dormir, e por isso queria metade da diária de volta. Eu, ali parado, só ouvia a reclamação dele. Eis que o recepcionista da noite fala com o responsável ao lado e nos encara: “olha, só podemos dar 10 euros a cada um de vocês”, diz, nos alcançando as notas. O australiano faz uma cara de pouco de satisfeito e o cara complementa. “Tá bom, e mais um voucher pro café da manhã”. Eu, que só queria certa tranquilidade, me senti muito no lucro – principalmente pelo café: oferecia nutella à vontade. Legado de Frankfurt: bons contatos na Feira do Livro, um novo albergue para o Guia O Viajante Europa e potinhos de nutella (suvenires do lugar, digamos assim) para mais alguns dia de viagem.


Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
travel-writer z.
Apoio