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A saga viajante por uma estrada boliviana

Só na Bolívia uma estrada que atravessa um rio não tem ponte. Saímos da cidade de Uyuni, rumo a Tupiza, em direção à fronteira argentina, quando, ainda no primeiro ¼ dos 200 quilômetros que deveríamos percorrer, nos deparamos com o algoz do nosso princípio de jornada: o rio sem ponte. Ao chegar à sua caudalosa margem, soubemos da solução empregada pelos bolivianos: esperar. Esperar a água baixar. Isso deveria acontecer em 1 hora. Ou em algumas horas. Ou em alguns dias. Na pior das hipóteses, em mais um mês. Aaah bom!

O verão altiplânico, de dezembro a março, às vezes até início de abril, é caracterizado por um período de chuvas. Não que chova todo o dia, mas algumas horas – o suficiente para encher rios e inundar salares. Ou o salar, no caso o de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo, que visitamos no dia anterior. Se as chuvas por um lado restringem alguns passeios pelo salar, por outro transformam o local num grande espelho d’água, que reflete montanhas, nuvens, carros 4×4, viajantes. Já havia visitado esse recanto há alguns anos, nas mesmas condições “sob água”, e minha opinião não mudou: é uma das maravilhas naturais mais espetaculares da América do Sul!

O altiplano, a entre 3 e 4 mil metros de altitude, situado entre duas ramificações da Cordilheira dos Andes, é seguramente uma das regiões mais bonitas do planeta. Percorrê-lo de carro tem sido um privilégio, mas que exige tranquilidade para dirigir numa estrada cheia de curvas, para administrar o pneu que esvazia, para apreciar a paisagem sem perder o foco da direção. Ou simplesmente para enfrentar o rio que não tem ponte.

A tranquilidade, aqui, porém, durou exatamente duas horas. Talvez o volume da água tivesse diminuído um pouco, mas realmente muito pouco para que, inconsequentemente, assumíssemos uma batalha com a correnteza. Estacionados junto à margem, era hora de tomarmos uma decisão.

Caminhões, em geral encaravam. Veículos, alguns recuavam. Outros buscavam uma rota alternativa, acompanhando a margem no rio, até desaparecer no horizonte. Entre os que seguiam por esse caminho mágico, alguns voltavam; um ou outro surgia, meia hora depois, no outro lado do rio; outros carros, sem deixar qualquer vestígio, simplesmente desapareciam. A dúvida estava lançada: seria o rio mais estreito e tranquilo para ser transpassado por algum ponto mais adiante?

Decidimos por desvendar essa tal rota misteriosa. Como pista, rastros de pneus de quem se aventurou antes de nós. Constatamos que estávamos no meio de um deserto, não de sal, mas sim de areia mesmo, muita areia, pequenas dunas, vegetação rasteira, um pouco de mato e algumas lhamas. Não podíamos frear, sob o risco de atolar e não mais prosseguir. Em determinado momento, Letícia saiu do carro para analisar o terreno. Pobre produtora, foi obrigada a retornar pulando dentro do veículo em movimento. Rali Bolívia-Dakar.

Estranhamos o fato de o rio, naquele local em que estávamos, ser mais extenso e caudaloso, o que dificultaria mais a travessia. Não importava, já não haveria mais volta. Seguíamos deserto adentro, até o rio sair de nossa visão. Um par de quilômetros adiante, notamos uma duna maior sobre a qual se encontravam trilhos de trem. Uma pequena camionete que seguia à nossa frente tenta a subida. Mas sua roda traseira afunda na areia. Atolado. Ao saírem do carro, percebemos que se tratava de uma família boliviana, a qual, junto a mulheres e crianças, ajudamos a empurrar o veículo. Algumas tentativas e conseguimos desatolar a camionete. Agora era nossa vez. Após uma breve ré, a fim de ganhar velocidade, o pé firme no acelerador sentencia nossa sorte: subimos, conseguimos! Chegamos aos trilhos do trem!

E aí vem nossa surpresa: não deveríamos transpor os trilhos de trem, mas rodar sobre eles! A alguns metros sobre o rio, esse era o segredo para chegar à outra margem. Um estreito segredo, sobre o qual não poderíamos errar. Rodar reto e uniforme. Nada de olhar pra trás. Muito menos pra baixo. E nem pensar que um trem poderia passar por aqui a essa hora. Xô pensamento!

Feito! O que chegou a parecer impossível foi superado! Estávamos no outro lado do rio, ansiosos para seguir viagem. Mas estávamos no altiplano, na Bolívia, e claro que a aventura não havia terminado. Não tardou a nos depararmos com outro rio, onde havia um caminhão atolado. Felipe foi ao local constatar a profundidade, e deu sinal verde: neste enfrentaríamos a correnteza, e foi tudo bem. Mais adiante, um riacho, que, apesar do porte bem menor que os rios anteriores, demonstrou-se bastante traiçoeiro a quase nos atolou. No restante do percurso, mais Bolívia-Dakar: um trecho de barro puro, o qual deslizava o carro, que sofria sem qualquer estabilidade. Ao alcançar as elevadas altitudes, a estrada, sempre de terra, se mostrou mais firme, porém do tipo de fazer inveja a de La Paz-Coroico (evito dizer que seu codinome é Estrada da Morte para não assustar as mães): estreita, beirando penhascos, permitindo às vezes um carro por vez. Aos acrófobos, é severamente recomendável não olhar para baixo. Como consolo, a paisagem se mostrava espetacular, mesmo na penumbra da noite que a aquela altura já havia chegado sem pedir licença.

Próximo à chegada, Tupiza, um pedágio “meio informal” nos tentou ser cobrado. Não era um valor alto, mas era o maior valor entre os pedágios bolivianos. E talvez o maior valor porque éramos estrangeiros. O motivo alegado de tal cobrança: uso da estrada. Da estrada que não tem ponte? Da que a terra vira barro? Da que beira penhascos sem sinalização? Ok, podem passar. Não costumo barganhar com bolivianos, que têm uma moeda fraca e uma economia que, para nós, se torna muito acessível. Mas aqui era uma questão de princípios! Se cobrassem a aventura, bem aí seria justíssimo…

Ao final, o percurso de 208 quilômetros foi devidamente vencido. Em 9 horas. E os olhos, sempre atentos e despertos, foram rapidamente apagados na primeira cama que encontrei.

Querida encolhi os viajantes

Espelho de sal

Algum engenheiro boliviano esqueceu de uma ponte aqui...

Algum engenheiro boliviano esqueceu de uma ponte aqui...

Um colorado no salar

Paisagem no fim do trajeto, mas isso só veríamos num passeio diurno no dia seguinte...

Outro rio?? Isso é sacanagem!

Se eu fosse um caminhão também encarava...

Esperar, esperar

Talvez olhar ajude a baixar a água...


Como dirigir nas cidades peruanas em 1 lição

Névoa enfeita a paisagem

Dirigir no Peru é um fator novo para mim, que já tinha rodado por estradas uruguaias, argentinas e chilenas, mas não peruanas. Posso antecipar que muita atenção é um requisito básico.

Dã. Certo, muita atenção é requisito para dirigir em qualquer lugar. Mas aqui, nas rodovias peruanas, situadas acima de 2 ou 3 mil metros, estamos num cenário de montanhas, o que significam estradas de muitas, muitas curvas e pavimentação não raramente esburacada. Adicione-se paisagens arrebatadoras – picos nevados, vales verdejantes, povoados pitorescos, pôr-do-sol no Pacífico –, e ainda, pra tornar tudo mais emocionante, chuva, neblina e até neve. Para completar, noite.

(Para quem perguntar, como eu mesmo indagaria, porque dirigir à noite, digo que não há como escapar do luar, já que percursos de “apenas” 500 km exigem – devido as tais curvas, buracos, chuva, etc – até 10 ou 12 horas de estrada).

Mas as mães podem ficar tranquilas: sou sim um motorista bastante atento e desperto. E digo o mesmo da Letícia, minha suplente nas horas que não escondo o bocejo, a mão no teto, o dedo na orelha, a coceira no pescoço (após algumas semanas de viagem, todos os sinais de cansaço são devidamente decodificados pelos companheiros de carro).

Já para dirigir nas cidades peruanas, a lição é mais fácil (ou não, já que se requer toda a atenção da estrada com um item a mais). Esqueça embreagem, freio, acelerador ou qualquer outro detalhe automobilístico. Basta saber uma coisa: buzinar.

Por aqui, buzina-se para o carro em frente para informar que o semáfaro foi ao verde já há 1 segundo. Buzina-se ao carro de trás para lembrar que você está na frente. Buzina-se para o carro ao lado para avisar que a prioridade da rua é sua, não importa qual rua. Buzina-se aos transeuntes para que eles saibam que você é um carro – e portanto só você quem pode buzinar. Buzina-se às cholas que empurram carrinhos para que elas não tenham dúvidas que o seu carro é o mais potente. Desconfio que buzina-se também, dentro de um misterioso código peruano, para dizer “hola!”, “que tal!”, “como hás estado?”.

Como viajante, sempre gostei de me sentir menos turista e mais adaptado aos locais. Fom-fooom!

Rodovia Panamericana, muito prazer

Caminhos de terra também aparecem

Percorrendo o Valle Sagrado

Mas eu tô bem acordado!


Clandestinos

9h03. Saímos de Salta. Após percorrer o noroeste argentino, era hora de voltar ao Chile. Mas claro que as inúmeras paradas no caminho, para filmar, fotografar ou pegar informações não ajudaram para que também chegássemos cedo na fenomenal estrada que sobe a cordilheira rumo à fronteira.

19h44. Paso de Jama, aduana argentina. Escurecia. Fizemos o trâmite burocrático e deixamos o país. A alfândega no Chile era quilômetros e quilômetros depois. Mas não teríamos problemas – pensei.

21h36. Estrada Argentina-Chile. 4.235 metros de altitude. 3ºC. Névoa de filme de terror. Carro a 20 km/h. Impossível enxergar. Nos orientávamos pela parca iluminação do acostamento. 20 km/h. Já disso isso. Impossível enxergar. Um motorista e mais dois passageiros de olhos arregalados numa estrada invisível. 20 km/h. Névoa de filme de terror.

23h14. São Pedro de Atacama. Chegamos à fronteira chilena. Um nada simpático segurança chileno nos avisa: a fronteira fechou às 23h. Vocês não podem entrar. Se entrarem estarão ilegais. Pagarão multa. Deveríamos estacionar antes da fronteira e dormir no carro. Mas tínhamos uma reserva num bom hotel. Já fui preso em fronteira (Rússia). Não gosto mais de ser preso em fronteira. Letícia não gosta de pagar multas. Felipe não gosta de dormir no carro a mais de 2 mil metros de altitude.

23h21. Discutimos. O que fazer? Letícia não gostava de pagar multas. Felipe não gostava de dormir no carro em altitudes… Já disse isso. Eu não seria preso. E também não gosto de dormir no carro quando tenho um hotel confortável me esperando.

23h33. Deixamos malas e mochilas no hotel.

23h48. Estacionamos o carro junto à fronteira. O carro dormiria em algum lugar entre Argentina e o Chile. No limbo. A mais de 2 mil metros. Frio próximo ao zero. Pobre carrinho.

23h59. Voltamos ao hotel. No Chile. Ilegais. Clandestinos. Mas numa cama quentinha.

06h45. Despertador toca.

06h59. Saímos do hotel para sair do Chile. Sorrateiros. Enquanto a policia imigratória chilena não abria. Para acompanhar nosso carro no limbo. Letícia não gosta de multas. Eu não quero mais ser preso. Felipe… Já disse.

8h32. Preenchimento e entrega de papeis na aduana. Mais preenchimento e entrega de papeis na aduana. Não desconfiaram que passamos à noite não no gélido limbo. Mas num confortável hotel de São Pedro. Clandestinos.

8h45. Aduana. Momentos finais. O carro é revistado. Perguntas. Descobriram. Que portávamos produtos vegetais. Multa: a prisão de duas bananas.


Chile à la carte

Com o nosso ritmo frenético de viagem, tudo passa muito rápido. Assim foi nossa semana no Chile. Quase sem perceber…

Visitamos um novo museu em Santiago, o instigante Museo de la Memoria y los Derechos Humanos – foco no turbulento período da ditadura chilena.

Retornamos a Casa de Neruda em Valparaiso – e conheci a de Isla Negra (ok, ao menos a praia…).

Bisbilhotamos a maior piscina do mundo, em Algarrobo – situada não num resort, mas num condomínio fechado (que para conhecer, depois de três tentativas, tivemos de bancar Leticia, Felipe e eu uma família feliz ansiosa para fechar o contrato de seu novo apartamento).

Confermos uma praia de nudismo em Caleta Horcón (e sim, alguém da equipe bravamente aderiu como se deve a essa praia, aguardem o programa).

Nos hospedamos num hotel-muquifo em Papudo (onde fica mesmo Papudo???).

Encaramos um pequeno rali Dakar em Copiapó, onde também visitamos a fatídica mina, aquela dos mineiros soterrados e resgatados.

Copiapó é uma cidade então quase ignorada no Guia (assim como pelos turistas) que vai ganhar destaque na nova edição. Há 3 anos o célebre rali Paris-Dakar foi transferido, por questões de segurança, do norte da Africa para o sul da América do Sul – mais exatamente Argentina e Chile, incluindo a região do Atacama. Os arredores de Copiapó, em especial sua zona de dunas, que muito lembram o deserto do Saara, é um desses cenários onde os competidores da famosa corrida se aventuram sobre quatro rodas. E foi o que pudemos conferir com o simpático bonachão Ercio, nosso guia local. Talvez a Leticia não tenha curtido muito lavar seu cabelo com areia, nem o Felipe a sua câmera Mafalda, mas a versão light (ou quase light) do nosso passeio sobre as dunas nos deu uma ideia do que é o rali – mesmo com os quase atolamentos e o tenho-certeza-que-o-guia-se-perdeu-no-deserto fora do script.

A mina de San José foi uma das principais notícias do ano passado, quando 33 mineiros ficaram soterrados a 700 metros. Mineiros estes que já viraram celebridades (tentamos entrevistar algum deles, mas todos estão de férias patrocinadas em Orlando, onde desfilaram como herois, com capacetes a la orelhas de Mickey; a propósito, dizem que a mina será reproduzida num dos parques da Disney…). A mina de verdade, propriamente, a uns 30km da cidade, vale como curiosidade. Já ingressar nas suas escuras e obscuras galerias, nem pensar. Controle policial no local. Acredito que isso mudará no futuro, já que há um grande potencial turístico para este lugar, aliás, como para Copiapó de modo geral, que ainda é uma das pontas da bela estrada que passa pelo Paso San Francisco, onde se encontra o Ojos del Salado, o maior vulcão do mundo (6.893m), e a impressionante Laguna Verde (que é de cor azul cristalino), e vai à Argentina.

A outra ponta? Tinogasta, onde estamos no momento. Mas este povoado já é Argentina, outro país, outra história e outra viagem! Viagem aliás que precisamos prosseguir neste momento. Hora de acordar os companheiros e voltar à estrada. Prometo que boto fotos até o fim do fim de semana. E vamos lá!


Orgias

O dia de ontem teve uma particularidade: o roteiro de dois viajantes se cruzaram – e assim tivemos o encontro de Natalia e Gustavo, que somados a Letícia, Felipe e Zizo, todos juntos no mesmo hotel, terminaram a noite numa orgia.

Posso até dizer que a orgia começou no dia anterior – e esta orgia tem um nome: Cordilheira dos Andes. Poderia também se chamar Ruta 7, ao menos no cinematográfico trecho que vai de Mendoza à fronteira do Chile. Neste caminho, de menos de 200 quilômetros, se passa por uma orgia visual que hipnotizou todos os integrantes da expedicionária camionete de O Viajante.

caption id=”attachment_487″ align=”alignnone” width=”300″ caption=”Desvio da Ruta 7″][/caption]

Montanhas com picos de neve eterna, povoados empoeirados perdidos no tempo, morros de pedra com vista à cordilheira, pontes de bizarra construção natural, cemitério ornado por botas de montanhistas, estrada que se descortina entre montanhas coloridas. (tais locais, conforme constam no guia que levamos – um que tem menininha numa capa amarela – são conhecidos respectivamente por Aconcágua, Upslatta, Morro da Cruz, Puente del Inca, Cemitério del Andinista, Ruta 7).

caption id=”attachment_488″ align=”alignnone” width=”300″ caption=”Viajantes no sopé do Aconcágua”][/caption][

Foi um longo dia em que, fora a junkie food a la saco de batatas fritas, nos alimentamos basicamente de paisagens, até chegar nas proximidades de Santiago já na madrugada seguinte, quando pelas 2h da manhã comemos alguma porcaria de um posto de gasolina barato. Alma cheia, estômagos nem tanto – mas que seriam muito bem recompensados algumas horas depois.

Na capital chilena, com divisão de tarefas entre nossos dois travel-writers, fizemos o que denominamos roteiro urbano: caminhadas na cidade, visita a hotéis, restaurantes, casas de câmbio, museus, centros culturais, rodoviárias, praças, parques. E à noite, a orgia do dia: a orgia gastronômica nos oferecida por Carmen, Cristian e a dedicada equipe de cozinha do Ceasar Business de Santiago.

Diferente da orgia paisagística dia anterior, esta envolveu também o olfato e o palador. Foi uma inacreditável sequência de nove pratos, entre entrada, principal e sobremesa, além de vinhos (nacionais!) e pisco sour que se harmonizavam com perfeição ao banquete que nos era servido. (Gustavo, que soube meticulosamente conciliar a apreciação com o profissionalismo, mostra em seu post fotos das tentações preparadas pelos chefs do hotel).

Pisco: aquecimento para o banquete

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Ainda tenho dúvidas se gostei mais do coquetel de cebiche, do tapenade de salmón ou das costelas de cedro. Já o jantar ocupou seguramente o número 1 no ranking de jantares da viagem – e Peru, Bolívia, Paraguai e o restante de Chile e Argentina deverão se esforçar para conseguir usurpar essa posição ao longo dos próximos 40 dias! Ou que venham as próximas orgias!


Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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