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People Pop

A Grã-Bretanha não comemora apenas os 60 anos de reinado da Rainha Elizabeth. Comemora a longevidade do maior símbolo pop vivo do planeta! (até porque longevidade de pop morto, com todo respeito, é fácil!).

E se tem uma coisa que a boa e velha Inglaterra é eficiente é na produção de símbolos pops!

Nenhum outro país do mundo tem tantos emblemas conhecidos, tantas figuras popularizadas. Rainhas existem na Suécia, na Holanda, na Espanha, na Jordânia. Vá ver se alguma delas é tem um rosto tão familiar como a britânica Elizabeth II. Há quem culpe Andy Warhol, o mago do pop art que a retratou com cores vivas tal como fez com Marilyn Monroe. (Mas Elizabeth já era pop há mais de meio século, quando então uma charmosa jovem rainha).

E se nesta ilha nunca houve uma estrela como a loira platinada de Hollywood, houve uma princesa como nunca representada no cinema: Diana, a tímida plebeia que morreu como uma das mulheres mais famosas do planeta. Lady Di, passado 15 anos de seu acidente fatal, continua a estampar cartões postais. E parece ter deixado uma sucessora: Kate Midleton, esposa de seu filho, William, o príncipe contemporâneo que não deve virar sapo, apenas careca. O mundo parou para assistir ao casamento dele, em 2011 – tal como fizera 20 anos antes com seus pais. Que outras cerimônias sociais mobilizaram tanta gente em frente à TV? Quer uma recordação da festa? Em Londres você encontra fotos do casório para levar como suvenir. Ou numa caneca. Ou numa máscara de carnaval. Prefere pantufas? Tudo bem, pode até ser um par com a cara do Príncipe Charles e sua esposa e ex-amante e ex-tampax Camila Parker Bowles. Duquesa, aliás.

Como não tirar sarro de um país que mantém e enaltece títulos de duque, conde, condessa? Ou de tradições como a de tomar o chá das 5? E que viu tudo isso conviver com os punks surgidos na Londres dos anos 70? Sorte – ou justamente por isso – que o inglês é conhecido por sua autoparódia e seu humor peculiar. Monty Python, grupo precursor da comédia escrachada, que o diga.

Nobres mesmo (e precursor também) foram os Beatles, muito mais que os reis do ie-ie-ie. Se não pairam dúvidas que esta banda inglesa foi a maior de todos os tempos, o segundo lugar pode ser questionável. The Doors eram americanos, tá certo, mas britânicos eram/são Rolling Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin. (Opa, alguém do fundão também gritou The Who…). Sim, claro que se David Bowie fosse uma banda também poderia entrar nessa disputa. Todos eles podem ser encontrados estampando camisetas do pessoal do East End londrino ou em velhos LPs de segunda mão nas feiras de Camden Town. (Por favor, não me peça para um explicar o que é um LP, apenas vá a Camden Town).

Mas nesses dias, a Inglaterra não está parando pelos Beatles. Muito menos pelo Roger Daltrey. E sim por esta velhusca de 86 anos. Por que Beth é pop.

 

PS: Blog de Londres segue vivo! Aliás, em breve vai ter Londres impressa também, aguardem!


Espiando as Olimpíadas – parte 2: o Estádio Olímpico

Circular pelo Parque Olímpico significa conhecer os poucos lugares acessíveis ao público, como o Centro Aquático. Grades e seguranças te impedem de ir muito além, especialmente ao Estádio Olímpico, o ponto central da Vila Olímpica. Contemplá-lo, apenas a uma certa distância.

Fui conhecer a sala de imprensa, situada atrás do centro náutico, e, ao sair, a curiosidade me levou a percorrer um caminho atrás das construções, atraído pelo Orbit –, o bizarro monumento e torre observação que lembra uma esdrúxula montanha-russa vertical – e, principalmente, pelo monumental Olympic Stadium. Como um braço de fumaça de desenho animado a me chamar, escutava o Estádio Olímpico a dizer, “venha, venha…”. E eu fui. E simplesmente nesse caminho meio alternativo não encontrei nenhum segurança ou grade totalmente fechada que quisesse realmente me impedir de seguir adiante. Claro que tremi ao pensar que algum policial poderia se jogar em cima de mim achando que eu fosse um antecipado terrorista, mas os ventos daquele dia nublado estavam realmente me empurrando adiante.

E assim, a espiada de frestas mais distante se tornou uma visão de 360 graus: eu estava dentro do Estádio Olímpico, palco principal e lugar de abertura e encerramento das Olimpíadas de 2012. Apesar da adrenalina, me pus a contemplar. Observei o campo, um gramado não muito grande no centro tudo; as pistas de saibro em volta, com algumas poças d’água; a cobertura, ainda esperando finalização; as cadeiras de fibra, às quais me vi obrigado a experimentar. Imaginei outras 79.999 pessoas sentadas ali, a lotar o estádio, todos bradando por seus atletas. Cenas de Olimpíadas antigas surgiam como um filme em preto e branco no meu despretensioso imaginário.

Mas eu não estava sozinho. Alguns homens trabalhavam em locais diferentes da arena. Na pista de atletismo, um cara uniformizado ensaiava uns passos de corrida. Senhoras e senhores, a prova do 200 metros é vencida por…  um operário paquistanês!

Me surpreendi com a quantidade de obras no local, não só no Estádio Olímpico, mas, principalmente, ao seu redor, em vários pontos da Vila Olímpica. Pensava – e creio que até havia sido anunciado – que já estava tudo pronto, e há algum tempo. Não estava. Não está. Aos pessimistas e agorentos de plantão, que profetizam as catástrofes dos futuros eventos esportivos no Brasil – Copa do Mundo em 2014, Olimpíadas no Rio em 2016 – vejam isso: há menos de 100 dias das Olimpíadas em Londres, não está tudo pronto!

Mas fui embora seguro que estará tudo em ordem muito em breve. Tranquilo como os ingleses, que não parecem se preocupar muito com tais obras. Por uma razão bastante básica: não existe a opção de não estar tudo funcionando bem quando o dia chegar. Simples assim.

 



Espiando as Olimpíadas – parte 1: o Parque Aquático

Após horas de espera, quando finalmente saiu minha credencial e pude entrar no Parque Olímpico, sorri de orelha a orelha. Há algum tempo enviava emails e tentava negociar uma visita ao local, já que escrevendo este ano sobre Londres, era mandatório conhecer a Vila, na região de Stratford, leste de Londres, que abrigará as Olimpíadas de 2012.

 

 

Alguns ginásios ou estádios são abertos para testes ou competições pré-olímpicas, mas tudo é muito restrito, com acesso a alguns poucos convidados, que devem se limitar a circular por determinadas áreas. Foi assim nesta quarta-feira 18 de abril, a exatos 100 dias das Olimpíadas, quando pude conhecer o Centro Aquático.

 

Espaçoso e paradoxalmente compacto, o local tem capacidade para 17.500 pessoas (número que será bastante reduzido após os Jogos), que ficam acomodadas nos dois lados da elegante piscina. O toque de mestre, obra de uma arquiteta iraquiana, Zaha Hadid, é a impressionante cobertura de 160 metros que lembra uma extensa onda -, mas uma onda de 2.800 toneladas de aço.

 

Na piscina olímpica, duplas de meninas de diferentes partes do mundo – inclusive do Brasil – disputam 19 das 24 vagas da modalidade Nado Sincronizado. Canadá, China, Austrália, Egito e Grã Bretanha já têm lugar garantido, os quatro primeiros por vencerem campeonatos continentais, o último por sediar o evento. As brasileiras ficaram em 8º lugar no primeiro dos 5 dias deste pré-olímpico. Haverá a partir de hoje, 19 de abril, disputas também para equipe.

 

A prova não é um teste apenas para os atletas, mas para a própria organização do evento, do chato e inevitável controle de segurança na chegada, passando pelos voluntários que terão trabalho no auxílio aos turistas até o funcionamento do placar com a nota dos juízes dentro do ginásio.

 

O Centro Aquático, logo na entrada pra quem chega da estação de Stratford (e sutilmente atravessa um Shopping Center), é um dos cartões de visita da Vila. A grande vedete, o Estádio Olímpico, local de abertura e encerramento do evento, e palco do Atletismo, fica um pouco mais adiante, não muito longe, podendo ser visto de longe. Só de longe. Não se pode chegar muito perto, muito menos entrar. O problema é que travel-writers são curiosos…

 

 


Aborto x abortion

Estava descendo tranquilamente a escada rolante do metrô quando vi um anúncio que me chamou muito a atenção. Era um cartaz, dirigido a mulheres grávidas. Dizia algo assim: “se você está em dúvida se deve ou não continuar sua gestação, venha conversar com a gente”. E finalizava falando em “apoio médico e psicológico nas suas decisões”. E isso aconteceu quando estive pela primeira vez em Londres, 1989.

 

Levei alguns segundos para me recompor e absorver o texto. Decisão? Como assim?? Uma mulher poderia decidir em interromper a gravidez? Um anúncio num local público patrocinado pelo órgão de saúde pública, sobre… aborto?? Sim. Era exatamente isso. A questão é polêmica. O tema é delicado. Mas é factual. Mulheres, por motivos diversos, seja na Inglaterra ou no Brasil, querem interromper sua gravidez. O que muda de um país para outro é o quanto o Estado ajuda ou criminaliza. O quanto a sociedade “deixa quieto” ou recrimina.

 

No Brasil, o aborto é crime. Ponto. (É possível entrar na justiça sobre isso, ficando a mercê do tempo e da decisão de cada juiz). Mas todos nós sabemos que mulheres de boas condições financeiras têm acesso a clínicas particulares para fazerem o que achar que deve ser feito. Na Grã-Bretanha, desde 1967, o “termination of pregnancy”, como também é chamado, é permitido. Dois pontos. Há alguns requisitos por lei: gravidez até a 24ª semana (mas é possível, em casos específicos, ainda além desse período). Autorização de dois médicos. Atestado que o aborto causará à mulher menos danos de saúde e psicológico do que continuar a gravidez.  Feito isso, o sistema de saúde britânico autoriza hospitais públicos a realizar o procedimento (com o justo direito, igualmente, do médico designado solicitar a recusa e pedir que um colega seu o faça).

 

Na questão social, por características do povo britânico, ninguém se mete na vida de ninguém. É um assunto privado. Familiar. De casal. Pessoal. Fim da questão. No Brasil, indivíduos se acham no direito de sair às ruas manifestando que mulher nenhuma tem o direito de interromper sua gravidez. Mais do que isso. Nem mesmo na gravidez de anencéfalos. A premissa, tão recorrente desses grupos, de teorizar sobre a decisão da vida a nascer sequer vale aqui, já que o feto, sem cérebro, está condenado à morte. Ainda assim, esses indivíduos continuam se achando no direito de protestar contra o aborto, qualquer tipo, por qualquer natureza. No direito de decidir que essa mulher não tem direitos nem poder de decisão. Que ela deve carregar aquele feto sem vida por todos os longos e árduos meses daquela gestação.

 

O assunto é desagradável, mas não tem como ser ignorado –  ate porque nesta quarta, 11 de abril, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deve votar se mulheres grávidas de fetos anencéfalos, justamente, podem abortar sem recorrer à justiça. Veja só… Aqui na Inglaterra – como na maioria dos países europeus – a interrupção da gravidez é liberada, e no Brasil, ainda se brigando para liberar ao menos a de casos anencéfalos… É, não dá pra ignorar a questão mesmo. O que deveria ser ignorado são os seus palpites na vida alheia, é você decidir o que outra pessoa pode ou deve fazer com a vida dela – e principalmente se isso implica a tortura física e mental sobre uma mulher (e consequentemente sobre toda a sua família).

 

No fim, esta é a diferença entre Brasil e Inglaterra: o quanto podemos nos meter na vida dos outros. O quanto minhas crenças pessoais e religiosas devem se sobrepor aos seus direitos. O suporte médico do Estado é só uma consequência.

 


A trágica odisseia de Robert Falcon Scott

A maior aventura de todos os tempos. Épica. Comovente. Imprevisível. Não conheço história  mais emocionante do que a disputa e a conquista do Polo Sul. Na versão britânica: protagonista: Robert Falcon Scott, inglês. Coadjuvante – ou antagonista –, Roald Amundsen, norueguês.

 

Scott sonhava com o Polo Sul. Este era afinal o único lugar da terra que naquela época, início do século 20, ainda não havia sido conquistado. Chegou a comandar uma viagem à Antártica, em 1902, mas sem intencionar o Polo. Alguns anos depois, um de seus tenentes desta aventura, Ernest Shackleton, até que tentou, mas não conseguiu chegar ao ponto mais meridional do planeta. O Polo Sul continuava inatingível. Em 1910, com suporte financeiro da Monarquia britânica, e de mais algumas instituições, como a Royal Geographic Society, Scott partiu para a derradeira viagem.

 

Amundsen, desde jovem, era fissurado em regiões polares. Se criou no meio de barcos, e fez várias viagens marítimas, incluindo à Groenlândia e a ilhas nos arredores do Polo Norte, onde aprendeu técnicas de sobrevivência com esquimós. Em 1909, planejava ser o primeiro homem a alcançar o ponto magnético, propriamente, do Polo Norte. Soube, neste ano, entretanto, que o local fora recém-atingido, e aí mudou seus planos, invertendo seu objetivo para o ponto exatamente oposto.

 

Foi no decorrer da viagem, já em alto-mar, que Scott tomou conhecimento que um norueguês havia entrado na disputa. Scott se considerava parte da linhagem dos grandes exploradores que ajudaram a construir o Império Britânico (império este que iria desaparecer ao longo deste século). Amundsen, por sua vez, vinha de um país, a Noruega, que até o início deste mesmo século 20 era colônia de outro, a Suécia. Se havia uma corrida ali, Scott era o franco favorito. Ser império, no entanto, não era garantia alguma de vitória e conquista – e aqui, definitivamente, o que contava era a habilidade e o preparo para enfrentar um ambiente tão inóspito como o centro do continente antártico.

 

O barco de Scott, Terra Nova, chegou a contar com uma tripulação de 65 homens,  33 deles permaneceram em uma base na Antártica – porém apenas cinco (Dr. Wilson, Evans, Oates e Bowers, além do próprio Scott), em novembro de 1911, seguiram rumo ao Polo, amparados por cachorros, pôneis e trenós motorizados (os três meios se mostrariam problemáticos, e os animais logo foram mortos ou abandonados).

 

Apesar de enfrentar várias adversidades, o grupo, em 17 de janeiro de 1912, conseguiu alcançar o destino almejado – para descobrir que havia ali uma bandeira norueguesa: Amundsen chegara ao Polo Sul 34 dias antes.

 

Mas a infelicidade dos britânicos não ficou apenas nisso. No caminho de volta, as dificuldades demonstraram-se ainda mais intensas. Temperaturas radicalmente negativas. Nevascas. Falta de comida. Fraqueza. Doenças. Não tardou para, no meio percurso, morrer o primeiro da equipe, Evans. Pouco depois, Oates, sofrendo de  gangrena pelo frio extremo, sem condições de seguir adiante e sentindo-se um peso para os outros três, voluntariamente se afastou. Nunca mais foi visto. Scott já previa o futuro para ele e seus outros dois companheiros. E ele provavelmente viu os outros dois perecerem. Scott fez registros em seu diário pela última vez em 29 de março de 1912. Acredita-se que tenha morrido nesse mesmo dia, no máximo dia seguinte. Há exatos 100 anos.

 

Pelas intempéries impostas pelo inverno, que no hemisfério sul então se aproximava, parte do grupo que havia ficado na base antártica só pode procurar os homens que foram ao Polo meses depois. Scott, Wilson e Bowers foram achados, congelados, em novembro de 1912. Os corpos de Evans e Oates nunca foram encontrados. E a Grã-Bretanha só ficou sabendo do terrível episódio no início de 1913, um ano depois do ocorrido. Amundsen chegara são e salvo.

 

A história de Scott foi contada e recontada, e ele, inicialmente visto como um trágico herói, não tardou a, pelo seu suposto despreparo para enfrentar a empreitada, ganhar a alcunha de vilão. Passado um século, novamente os olhos se voltam a Robert Falcon Scott. Pelo menos três exposições na Inglaterra celebram sua aventura – na The Queens Gallery, anexo ao Palácio de Buckingham; na lendária Royal Geographic Society e, a mais completa de todas, numa ala do National History Museum (fiquei quase 3h30 nesta!). Agora tentando mostrá-lo como o aventureiro, o explorador, o homem que teve seus erros e seus acertos. Na maior aventura de todos os tempos.

 

PS: Pra quem curtiu a história, entre os vários livros publicados a respeito o meu favorito é O Último Lugar da Terra, de Roland Huntford. Travel writing na sua plenitude.

 


Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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