Quênia: o clã dos leões

As embaixadas dos EUA e da França haviam desaconselhado seus cidadãos a atravessar o norte do Quênia. Eu não era norte-americano nem francês, mas achei prudente ter um plano B. Cruzar a fronteira da Etiópia com o Quênia foi muito fácil: a pé, na maior tranquilidade. Mas para seguir adiante a tarefa poderia ser mais complexa, já que eu estava em Moyale, no extremo norte do país, longe de tudo, com apenas um ônibus matinal que conectava a cidade ao resto do território.

Como havia chegado no início da tarde, eu estava isolado naquele fim de mundo. Ao menos até o dia seguinte, quando partiria o ônibus das 6h da manhã. A noite foi mal dormida. O Quênia era bem mais religioso que a Etiópia, e o norte do país era essencialmente islâmico. Estávamos no final do Ramadã, o período sagrado dos muçulmanos,  e às 2 horas da manhã (2h da manhã!) uma reza a todo volume eclodiu dos minaretes da cidade. Mas não me importei em dormir pouco – pelo menos assim eu teria programação no ônibus. A viagem certamente seria longa, e saber quantas horas exatamente levariam, ou que horas chegaríamos, dependia da fonte: o cara que vendeu os bilhetes disse que estaríamos em Nairobi às 19h, o que guardou a mala no bagageiro, às 23h.  Para encurtar a história, cheguei as 5h da manhã! Quase 23 horas de viagem.

A viagem? Cheguei destruído. Afinal, atravessei quase todo Quênia, grande parte do território um imenso deserto, com direito a beduínos e camelos. Tudo sem grandes imprevistos. Meu plano B foi simples, diria até ingênuo, mas funcionou: viajei vestido com a camiseta da Seleção Brasileira. Por questões de segurança, o ônibus foi parado 7 vezes pela polícia, e 7 vezes meu passaporte foi checado. Minha camiseta já entregava minha nacionalidade antes do documento, e posso dizer que recebia dos policiais um tom de voz mais ameno em comparação a outro passageiros – além, é claro, de ganhar perguntas e comentários básicos sobre futebol, sobre o Neymar, o Ronaldinho…

Os etíopes com quem eu conversara achavam que o Quênia era mais atrasado do que a Etiópia. Estavam enganados. Nairobi era bem mais desenvolvida do que Addis Ababa, e a miséria bem menos explícita. Poderia até passar por um grande centro urbano latino-americano. À noite talvez as ruas por aqui pareciam mais perigosas. Resolvi não me arriscar, e apenas me preparar para o dia seguinte, quando iria conhecer a grande atração do país. Safári.

Essa é a palavra mágica na África. É o clichê visual do continente. Meu tempo era limitado, e decidi fazer um tour privado de 2 dias pelo Maasai Mara National Reserve, um dos mais famosos parques da África, uma extensão do igualmente célebre Serengueti, na Tanzânia. O safári começou meio frustrado, quando avistei apenas zebras e mais zebras, até aparecerem os primeiros leões – o tempero do programa. Dos chamados “big five” – leão, elefante, búfalo, rinoceronte e leopardo, esqueceram de combinar a presença com os dois últimos. Tudo bem, não faltaram girafas, hienas, chitas, crocodilos e gnus pra compensar. Esse último bicho, uma espécie de touro ainda mais chifrudo, feio pra caramba, conhecido em inglês como wildebeest, atrai muitos turistas para o parque: era a época de sua migração, vindo do Serengueti em busca de pastos mais verdes. Centenas de estrangeiros estavam a espreita, próximo ao rio, ansiosos por fazerem fotos a la National Geographic (o que duvido muito que tenham feito, já que eram obrigados a manter certa distância dos animais). De qualquer forma, valeu muito pelos leões, alguns deles devorando um gnu, outro passando bem embaixo do vidro aberto do meu carro (“devo me preocupar?”, perguntei ao guia, que pra meu alívio respondeu com uma negação).

Animais selvagens são sempre um excelente cartão postal na África, mas posso dizer que o que mais curti nessa viagem foram as conversas com os nativos. No Quênia, o papo com o guia, o simpático Robert, rendeu bastante. Graças e ele, pude ter uma noção melhor da importância dos clãs e das tribos africanas. Ele pertencia à tribo dos Kikuyo, inimiga dos Luo, esta a tribo da família do presidente Barack Obama. No Maasai Mara pude conversar com o nativo de uma terceira tribo, a Muassa. Esse tema é tão sério que, há menos de um ano, em dezembro de 2012, pelo menos 39 pessoas morreram num conflito entre tribos rivais no país. Robert me revelou que se ele se casasse com uma mulher branca, tudo bem para sua família, mas se ela fosse uma Luo… nem pensar!

A África é repleta de contradições, tabus e questões de difícil compreensão a um estrangeiro, “branco” ou “ocidental”, como eles nos definem. Para nós, é um grande continente. Para os nativos, milhares de clãs e tribos cada qual com sua cultura, suas tradições, sua peculiaridades. Começar a entendê-las é o grande barato de uma viagem à África – um excepcional destino não recomendado a amadores. Viaje pelo Brasil, pela América do Sul, Europa. Já fez sua graduação como viajante? A hora e a vez da África chegou!


Tribo

O grande destaque dos últimos dias na Etiópia foi a visita ao povo Mursi, uma das tribos mais características da África Oriental, famosa pelos adornos que as mulheres usam no rosto, em especial na boca. Isolados o suficiente, vivem em aldeias entre as montanhas e o rio Omo no sul da Etiópia, em áreas hoje definidas como Parques Nacionais, como o Mago National Park. Para chegar até lá, fui ao povoado de Jinka, e deste peguei uma moto, junto a um guia. Seria quase impossível para um estrangeiro chegar lá sozinho, pra não dizer bastante arriscado.

 

 

 

 

 

Após quase duas horas cruzando as majestosas vistas do Vale Omo, dentro do parque, chegamos numa área árida onde um pequeno clã dos Mursi se estabelecera. Havia outros nas redondezas, mas o guia me disse que esse era um dos mais amistosos. Não foi essa exatamente a minha primeira impressão, ao notar, logo na entrada, um grupo de 5 homens deitados sob uma sombra, em posição de alerta,  alguns deles com armas em punho. Eram os seguranças da aldeia, explicou o guia, que me orientou a não fotografá-los, ou então que negociasse um pagamento com eles. Essa era a regra do local: pagar, negociando o valor, aqueles que você quisesse fotografar. Logo os Mursi foram aparecendo na minha frente, provocando alguns dos momentos mais excitantes e também desconfortáveis da viagem.

A excitação surgiu tão logo me encontrei no meio daquele povo absolutamente diferente de tudo que eu já tinha visto. Homens com o corpo pintado, crianças com arco e flechas, mulheres seminuas com um disco na boca. Esse é elemento visual mais característico da tribo: um pequeno prato de argila que estica todo o lábio inferior, considerado por eles um enfeite, uma forma de a mulher se embelezar para o seu marido. E, não podemos negar, de atrair a atenção dos turistas. De qualquer maneira, elas usam aquilo mesmo sem a presença de forasteiros, e eu era o único a estar ali.

Situação bastante desagradável foi ter de escolher alguns deles para fotografar. Num determinado momento, todos se postaram alinhados, lado a lado, esperando que eu apontasse quem ganharia uns trocados para servir como modelo das minhas lentes. Parecia que tinham um preço, como se eu estivesse num mercado humano, o que me incomodou bastante. A maioria não falava qualquer outra língua que não seu dialeto tribal  (felizmente o guia entendia mursi) e tampouco eram amistosos numa tentativa de comunicação. O povo Mursi tinha o hábito de beber, e, eu já tinha lido sobre isso, era desaconselhável visitá-los à tarde, quando poderiam estar um pouco bêbados – e alguns agressivos. Bem, já eram quase 4 horas da tarde, e definitivamente eu estava pouco à vontade ali.

Resolvi parar de fotografá-los e apenas caminhar pela aldeia, o que me deixou mais tranquilo por alguns momentos. Mas eu era um estranho absoluto no ninho, e alguns deles pareciam desgostar. Decidimos nos mandar sem muita demora. As duas horas em que permaneci por ali, apesar de toda estranheza, foi uma das experiências mais surpreendentes que já tive em viagem – se a Etiópia já era outro mundo, vivenciar aquela aldeia foi como adentrar em outra dimensão, outra época, outra civilização.

Ao partir de Jinka, no dia seguinte, a caminho do Quênia, fui ter outra experiência bizarra, involuntária – que me deixou ainda mais desconfortável do que quando estava entre os Mursi alcoolizados: uma viagem de ônibus, um velho veículo identificado apenas por “Boeing 777″, que teve como passageiros… presidiários, uns 6 ou 7, sem algemas, nada! Acompanhando eles, apenas dois policiais armados, e com maior pinta de despreparados. E eu ali no meio. Num determinado momento rolou uma discussão entre eles, vozes exaltadas. Só não pulei do ônibus pois achei que ficaria horas parado na estrada – e numa zona de malária. Mas eu não podia reclamar. A Etiópia havia superado todas as inimagináveis expectativas.


Que viagem, cara!

Foi animador conhecer Konso. Agora eu me destinava a outra tribo, Mursi, esta bem mais inóspita do que a anterior: ainda vivem isolados, em vilarejos sem acesso por transporte público. Viajar pela África definitivamente não é fácil! O maior transtorno é na questão tempo. Os africanos têm uma espantosa despreocupação com isso, a ponto de ficar horas dentro de um ônibus, esperando calmamente o veículo partir – o que só acontece quando o carro estiver cheio. De maneira geral, os ônibus sempre saem de manhã cedo, em torno das 5h30 da madrugada.  O problema é que frequentemente esse é o único ônibus que vai a tal localidade no dia, mesmo que não seja muito longe.

 

 

 

 

 

A anatomia da viagem rodoviária. Você está na cidade A e que ir à cidade D, que fica a uns 500km, trajeto que na concepção ocidental pode levar em torno de 6 horas. Pois na África pode levar 3 dias! Afinal, para chegar em D, você precisa pegar um ônibus que parte de C, que por sua vez se toma em B. Então você sai às 6h de A, viaja 150 km e chega às 10h em B. Mas de B para C, embora seja mais uns 150km de distância, só há um ônibus saindo às 6h ou 7h da manhã também, de modo que você só conseguirá partir no dia seguinte. E o mesmo provavelmente ocorrerá no dia seguinte, no próximo destino. Estou aprendendo a trabalhar minha paciência como nem em países budistas fui testado! Mas estou feliz com o resultado. Tenho curtido muito essas viagens de ônibus – que sempre tocam um som africano no rádio dos carros, o que ajuda no clima, por oras me fazendo sentir como se estivesse dentro de um alternativo filme on the road.

 

 

 

 

 

Ao sair de Konso, peguei o mesmo ônibus com o qual partira no dia anterior de Addis Ababa, com o mesmo motorista, cobrador e até passageiros. Eu me tornara um “velho amigo” de todos, o branquela que andava pela Etiópia fotografando sabe-se lá o que. Nessa condição, me cederam um lugar bem na frente, a fim de que pudesse fotografar tudo que desejasse. Das montanhas baixas que avistava ao longe aos vilarejos perdidos junto à estrada. Dos passageiros dentro do veículo que apenas esperavam o tempo passar (raros liam ou conversavam) ao cobrador descolado que mastigava uma folha meio ilegal. Que aliás, ele me ofereceu.

Ilegal fora da África Oriental, diga-se. Ou ao menos da Etiópia. Trata-se do khat, uma plantinha estimulante, que dizem ser similar a uma anfetamina, provocando euforia e excitação. O cara mastigava ali, abertamente. Perguntei se era permitido e ele me garantiu que sim. Insistiu que eu provasse. Neguei. Depois, porém, pensei “oras, não quero conhecer a cultura africana? Então vamos lá”. Peguei de sua mão aquela plantinha, que me lembrou a folha de coca, bastante consumida na Bolívia e no Peru (igualmente legalizada por lá, mas proibida fora desses países) e joguei na boca. Percebi que estava sendo completamente observado por todo o ônibus, que aguardava ansiosamente pela minha reação.

 

 

 

 

 

 

 

E qual seria a reação de um estrangeiro ao provar uma polêmica substância natural africana? Bom, só sei como eu reagi. Fiz uma inevitável careta de quem achou o gosto muito, muito ruim, tentei dar algumas mastigadas mas não me contive – abri a janela e cuspi aquela gosma verde. Só ouvi gargalhadas no ônibus. Deu barato? Ora, eu era o único gringo dentro de um velho ônibus africano que tocava sons tribais no sul da Etiópia, contemplando uma paisagem absolutamente singular… a última coisa que eu precisava era de uma plantinha alucinógena pra dar barato!


Uma noite entre os Konso

Mango estava revoltado. Por que o ônibus espera lotar para sair se pode pegar passageiros no meio do caminho? – bradava ele. Eu me perguntaria isso sempre, em todas as viagens que faria pela Etiópia. Os veículos sempre partem cedo pela manhã, em torno das 6h (ou 12h, no horário etíope), e apenas eventualmente em outros horários, conforme os destinos e a procura. Estávamos no meio da tarde no aterrão que era a “rodoviária” de Arba Minch, e precisou de mais umas 2 horas, após certa confusão – o que incluiu a troca por um carro menor, uma van – para partirmos. Assim, só fomos chegar no povoado de Konso no início da noite, o que irritou Mango. Por um motivo específico: não havia luz ali. Até existia um gerador que, em alguns momentos de alguns dias, fornecia energia, mas não era o caso agora.

Descemos junto a um bar que também fazia as vezes de hotel. Hesitante, Mango me pergunta se eu não preferiria ficar naquele hotel, que, segundo ele, seria mais confortável que sua casa. Mas o lugar era tão espelunca que eu duvidava disso. E, além do mais, eu estava ali justamente para conhecer o modo de vida de sua tribo. A menos que ele não quisesse, eu estava decidido a ir com ele. E assim, guiados por uma lanterna, seguimos pela via principal – a estrada – para em seguida entrar numa ruela, de terra, que daria acesso à sua comunidade.

Em menos de um quilômetro chegamos na casa de sua irmã. A escuridão me impediu de observar o lugar, mas de imediato achei bem mais agradável do que aquele hotelzinho à beira da estrada. Logo fui apresentado a todos: irmã, cunhada, sobrinhos – como o menino Israel e a garota Jerusalém. Os nomes já revelavam a admiração da família pelo Estado de Israel – Mango me contaria depois que seu sonho era conhecer este país (Bersheva, nome da nossa amiga de quem nos despedimos em Arba Minch, também é nome de uma cidade israelense, assim como Ariel, o filho de Mango, o que torna evidente a estima de muitos nativos por esta pequena nação do Oriente Médio; aliás, também não é raro encontrar etíopes judeus).

Percebi que a casa era pequena, e fiquei preocupado em tirar a cama de alguém – talvez essa fosse a justificativa pela hesitação de Mango. Embora preferisse dormir ali, perguntei ao meu amigo etíope se não era melhor eu ir pro hotel, a fim de que ninguém perdesse seu colchão, mas ele me garantiu que havia outras casas no terreno, e tinha espaço para todos.

Hora do jantar. Imediatamente recebemos um prato com algo tipo batatas com uma planta verde. Mango me explicou que tratava-se de korkufa com moringa. Korkufa era parecida com batata, só que feita à base de milho e farinha. Mas o orgulho dele era a moringa, cultivada ali mesmo na sua casa. Segundo ele, era uma planta de grande valor nutricional, difícil de ser encontrada na capital, mas abundante na região de Konso. Confesso que não apreciei o sabor, mas seria muito mal-educado não comer. Fiquei imensamente feliz quando surgiu um segundo prato, a minha já conhecida injera, acompanhada de feijão, ou uma temperada lentilha, sei lá, chamada aqui de berbere stew.

Mango me convida a conhecer mais do povoado. Nossa primeira parada é a casa da noiva, e o local já estava em festa. Enquanto os mais jovens escutavam música e dançavam, os mais velhos, em especial as mulheres, preparavam a comida que seria servida no dia seguinte, na cerimônia de casamento. Fui extremamente bem recebido, sendo apresentado a um por um – a maioria familiares de Mango. Logo aprendi o cumprimento nativo: me curvar junto ao ombro esquerdo da pessoa, enquanto ela faz o mesmo comigo.

Sou levado a uma cabaninha onde, em um grande barril, faziam um preparo especial: a cerveja da tribo Konso, que imediatamente me é oferecida. Encorpada e saborosa, aprovei. Conheci a noiva, que me posou para uma foto ao lado do seu vestido. Aliás, fotografei bastante, talvez mais a pedido de Mango do que por minha iniciativa. Havia me tornado uma espécie de “fotógrafo de casamento”, incumbência que não me incomodou nem um pouco.

Eu estava na “zona urbana” de Konso, e Mango queria me mostrar o lado mais típico do povoado. E assim seguimos por mais meio quilômetro até uma área fechada, que ele adentrou com grande intimidade. Se antes havia algumas luzes esparsas, mais a fogueira que fervia a água das caçarolas, agora estávamos numa escuridão absoluta, e a lanterna do meu celular de 25 dólares demonstrava ser de grande utilidade. Andávamos por um labirinto cercado por muros de pedras e galhos de árvores. Mas realmente fui sentir que estava numa zona tribal ao avistar um dos elementos mais tradicionais dos Konso: as cabanas, geralmente abertas, com uma base de pedras, estrutura de madeira e teto de palha. Um cara dormia em uma delas.

Caramba, eu estava num tour particular, era isso que Mango me proporcionava. Enquanto andávamos pelo labirinto de ruelas, aquele simpático etíope me contava sobre a cultura da sua tribo – a funcionalidade das casas, a liderança dos mais velhos, as particularidades da língua própria, a economia baseada na agricultura, o cerimonial de morte. O que muitos faziam de forma turística eu estava tendo o privilégio de vivenciar da forma mais genuína possível.

Escutamos um barulho vindo de algum lugar, e fomos até o local – um grupo de garotos cantava e dançava em estilo tribal (embora estivessem vestidos “normalmente”). Estavam a celebrar o casamento de um deles. A poligamia é costume entre os Konso – não é de se estranhar, portanto, tantas festas de casamento no povoado. Mango, sempre popular e socializante, com nove irmãos (seu pai tinha apenas duas esposas), não tardou a nos inserir no ambiente.

Já era tarde quando voltamos à sua casa. No quarto, havia duas grandes camas de casal. Em uma, dormia sua irmã e duas crianças. A outra estava reservada para nós. Tentei não demonstrar surpresa ao perceber que dividiria a cama com Mango. Nem preocupação por não haver rede de proteção de mosquitos, o que eu sempre havia encontrado até então na Etiópia. Mas não percebi mosquitos por ali. Apenas me acomodei no canto direito e tive uma das noites mais bem dormidas de toda a viagem.


Um ônibus chamado aventura

Eu sempre dependo da bondade de estranhos. Essa é uma daquelas frases famosas do cinema, imortalizada pela atriz Vivien Leigh no filme Um Bonde Chamado Desejo. E poderia ser bem aplicada a toda minha viagem pela África.

Considerando que você não fala amárico, no caso da Etiópia, nem é um afrodescendente, será inevitável em algum momento, em algum lugar (pra não dizer em vários momentos, em vários lugares), se encontrar perdido. É aí que o instinto samaritano do africano, do etíope em especial, se manifesta de forma latente, e sempre aparecerá alguém, com uma surpreendente base de inglês, para te ajudar, indicar que caminho seguir – ou onde pegar o ônibus certo.

Só assim, no emaranhado de veículos parados naquele aterro tomado por poças d’água (havia chovido à noite), entre milhares de viajantes africanos acompanhados de suas malas e sacolas, ainda no crepúsculo da madrugada, consegui descobrir qual era o ônibus que iria ao povoado de Jinka, no sul do país. Um cara cujo rosto eu mal podia enxergar me levou até o carro certo – e o fez de forma que não pude deixar de achar engraçado: me conduzindo pela mão, como se eu fosse um garoto de 8 anos guiado pelo pai.

O veículo, como eu já esperava, era uma lata velha que testaria todas as minhas virtudes viajantes (bom-humor, paciência, instinto de aventura), aliás, como deve ser em qualquer viagem, principalmente aqui, no continente africano. Para confirmar se eu estava no carro certo e conseguir comprar a passagem contei com a ajuda de outro estranho – que em algumas horas iria ganhar o status de irmão africano -, o carismático Mango.

Mistura de Muçum com Aílton Graça, Mango vestia uma camisa que fazia com que ele parecesse o turista estrangeiro. Divertido, conversador, fluente no inglês, não economizava no largo sorriso. E assim foi fácil nos tornarmos amigos, ainda mais quando ele mudou de lugar (não que houvesse lugares marcados) para sentar ao meu lado. Quando o ônibus encheu e estava prestes a partir, perto das 7h da manhã (quase 1h após eu ter chegado), surge uma passageira que, num improvisado banquinho no meio do corredor, senta ao lado de Mango. Bersheva era seu nome. Estava formada a dupla que seria minha companheira pelas próximas 10 horas.

Bersheva era engenheira civil. Se dirigia a Arba Minch, para trabalhar nas estradas que estavam sendo construídas no sul do país, obra dos chineses invisíveis que invadiram parte do continente. Simpática, discreta, nascida na capital, era o retrato da etíope urbana, classe média, profissional liberal.

Já Mango era a verdadeira figura folclórica africana, e sobre sua história passamos longas horas conversando. Ele pertencia à tribo Konso – se destinava para lá, no vilarejo de mesmo nome, para um casamento -, e demonstrava grande orgulho de seu povo. Nos mostrou vídeos em sua filmadora, com cenas de músicas e danças. Descreveu as casas típicas, sem paredes e com teto de palha. Comentou aspectos culturais, como a poligamia. Ele, no entanto, que morava em Addis Ababa, tinha somente uma esposa. Mas flertava com Bersheva descaradamente. Não resisti em lembrá-los que ela poderia ser a segunda esposa dele. Rimos da situação, Mango confirmando que sim, Bersheva afirmando que jamais seria a segunda mulher de ninguém.

Também passei boa parte da viagem fotografando as paisagens rurais pela janela do ônibus. Isso se tornaria um hobby ao longo dos trajetos rodoviários seguintes. Já na metade da viagem todos os passageiros demonstravam estar íntimos comigo, e me incentivavam a ir para a parte da frente do veículo para fotografar alguma determinada imagem ou mesmo algum dos passageiros.

 

 

Mango, ciente da minha inesgotável curiosidade, me faz uma proposta indecente: acompanhá-lo em seu vilarejo. Hesitei num primeiro momento, mas logo percebi que era uma rara oportunidade de conhecer uma das tribos africanas pelo olhar de um verdadeiro nativo.

O ônibus terminaria seu trajeto aquele dia em Arba Minch, por volta das 16 horas (continuaria a Jinka no dia seguinte – por questões de segurança, aliado a uma impressionante falta de pressa, raramente os veículos trafegavam à noite). E no dia seguinte, pela manhã, passaria por Konso, o povoado do meu novo amigo, de modo que eu poderia ainda naquele fim de tarde conhecer o seu vilarejo, passar a noite com sua família e, no dia seguinte, embarcar no mesmo ônibus.

Na última hora, a hesitação partiu de Mango. Talvez receoso que eu não fosse gostar, ou que achasse seu modo de vida muito simples, ou ainda que eu ficasse desconfortável em sua casa, senti que ele titubeou por um momento. Se eu não quisesse, que não me constrangesse a não ficar com eles. Tarde demais. Ainda que um pouco inseguro, eu já havia decidido: queria conhecer a tribo Konso e passar à noite por lá, sem ter a menor ideia de como seria isso.


Travel-writer Z.
Zizo Asnis
Viajante na vida, publicitário no diploma, jornalista na prática, escritor no ofício, fotógrafo no instinto, cineasta na beirada. Ou apenas travel-writer, já que outra tradução não há. Brasileiros na Europa ou na América do Sul me culpam pelos Guias O Viajante. Dever cumprido.
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