Roteiro de 4 dias na Chapada dos Veadeiros

Cachoeira Almecegas I 01

Cachoeira Almecegas | Foto: Daniel Carnielli

 

Por Daniel Carnielli

 

Berço das principais nascentes do Brasil, a Chapada dos Veadeiros, no estado de Goiás, dispõe de um dos mais ricos ecossistemas no mundo.

 

Galhos retorcidos, pedras quebradiças, água pura nascendo timidamente sob o solo impermeável e duro. O verde insistente mesmo sob a escassez das épocas de seca ou deslumbrante nas épocas de chuva, fazem do cerrado de altitude o refúgio de rara beleza natural.

 

Raizama 01

Trilha para o Raizama | Foto: Daniel Carnielli

 

“As gotas de vida que brotam na Chapada dos Veadeiros semeiam sonhos e realizações que sempre estiveram ali, no cantinho do coração, esperando para serem cultivadas. ”  A Chapada desnorteia os visitantes que se perdem a tantas oportunidades de passeios e locais a serem visitados nos tradicionalmente curtos períodos que podemos viajar.

 

Neste roteiro de 4 dias pela Chapada dos Veadeiros, o foco não será as cachoeiras populares nas redes sociais. A proposta aqui é de um roteiro, talvez alternativo, que resultará na certeza de que mesmo não vendo tudo, tudo que foi visto nestes 4 dias, foi vivido da melhor maneira possível.

 

Macaquinhos 01

Comboio de aventureiros indo para Macaquinhos | Foto: Daniel Carnielli

 

Há trilhas que são longas e exigem preparo, mas há também as trilhas que são bem curtas e que permitem que possamos chegar de carro muito próximo das atrações.

 

A variedade de cachoeiras parece teimar para que até os mais resistentes não resistam. Grandes, pequenas, claras, escuras, altas, baixas, com poço enorme, sem poço, rasas, profundas. Cachoeira é o que não falta e se alguém diz conhecer todas, desconfie. Há sempre algum canto ainda não explorado escondendo algo.

 

Preparando a viagem

Devo ir de carro? Se possível, sim! Tudo fica mais fácil e talvez mais barato. Este roteiro não tem locais de acesso restrito a veículos mais preparados. Então na maior parte do ano, qualquer carro de passeio pode acessar tudo.

 

Mas se você não tem carro, não há problemas. Vários guias estão motorizados e, inclusive, preferem utilizar seus próprios veículos. Neste caso a dica é juntar uma “turminha”, na pousada mesmo, para que o custo por pessoa não saia muito elevado.

 

Onde dormir?

Apesar de o vilarejo de São Jorge ser mais popular, este roteiro está mais centralizado em Alto Paraíso. Portanto vale a pena ficar na cidade, que, além de ótima oferta gastronômica, oferece diversas opções de hospedagem e noites mais tranquilas.

 

Noite na Chapada dos Veadeiros

Céu estrelado faz parte do roteiro! | Foto: Daniel Carnielli

 

O que levar na trilha

Sempre é recomendável usar calça comprida em trilha. O motivo é a gosto do freguês. Podem ser simplesmente para evitar os insetos, ou para que pequenos galhos não raspem na perna, também podem ser para que em um eventual e provável escorregão, nenhum corte profundo aconteça. Poderíamos também pensar na iminência de algum animal peçonhento, mas vamos deixar os motivos mais tensos de fora né, sem apelação.

 

  • Calça comprida e confortável.
  • Roupa de caminhada.
  • Mochila pequena para alimentos e itens básicos, como capa de chuva, remédios, protetor solar…
  • Alimento para o dia de trilha. Comidinhas leves e nutritivas como granola, frutas secas, barra de proteína…
  • Garrafa de água. Pode ser pequena, água potável não faltará nos trajetos.
  • Chapéu ou boné.
  • Esparadrapo por precaução.

 

Raizama 02

Fauna e flora na trilha para Raizama | Foto: Daniel Carnielli

 

Preciso de guia?

Teoricamente não, quando pensamos somente no trajeto. Mas a menos que você saiba como lidar no caso de encontrar um animal peçonhento no seu caminho ou reconheça instintivamente os sinais das fatais trombas d’água, talvez o guia faça diferença entre a segurança e a sorte. Além disso, em cada uma das cachoeiras há diferente formas de diversão que os guias podem ajudá-lo a aproveitar ao máximo.

 

Leia mais em 10 razões para contratar um guia e decida com sabedoria.

 

Para encontrar um guia basicamente há três formas infalíveis.

 

  1. Pergunte na pousada. Elas costumeiramente indicam guias parceiros, o que costuma ser bom porque você nem precisa sair do seu local de hospedagem para fazer o contato ou encontrá-lo.
  2. Vá ao CAT (Centro de Atendimento ao Turista). Em Alto Paraíso fica na Av. Ari Valadão Filho, em frente ao Grande Hotel Paraíso. Não tem erro e lá se obtém muita informação sobre a região.
  3. Agência de turismo da região. Na própria Av. Ari Valadão Filho, tem a agência Travessia. É a mais antiga agência de esporte da cidade e possui os guias com maior conhecimento aventureiro da região. Na mesma avenida há também outras agências.

 

Flores do Cerrado 01

Flores típicas do Cerrado | Foto: Daniel Carnielli

 

Roteiro

Vamos ao roteiro? A cada dia vou explicar o roteiro sugerido e o porquê. O objetivo deste roteiro é expor você a uma viagem inesquecível na Chapada dos Veadeiros informando as atrações certas para estes 4 dias na região. A indicação de caminho não será exata porque podem variar com o tempo em detalhes importantes. Mas no CAT dá para esclarecer o “como chegar”. Algumas destas propriedades são particulares e costumam facilitar o quanto puderem o acesso.

 

Estrada Sao Jorge - Alto Paraiso

Estrada São Jorge | Foto: Daniel Carnielli

 

Dia 1

Roteiro do Rio São Miguel

Vale da Lua 05

Vale da Lua | Foto: Daniel Carnielli

 

São Miguel, o anjo que nos protege das ciladas do demônio tem em seu rio uma morada no mínimo curiosa, mas de nada demoníaca. O rio é o afluente das atrações Vale da Lua, Raizama e Morada do Sol. Geologicamente falando, a formação deste afluente foi uma das primeiras regiões a se solidificarem no planeta, o que explica o leito rochoso e delicadamente esculpido pela água.

 

O guia aqui é recomendável. Pela característica impermeável das rochas, o risco de é elevado. Mas nos próprios locais costumam haver instruções para proteger os visitantes. Além disso, os guias orientam sobre os “cantinhos atrevidos” que podemos ou não entrar para desfrutar melhor da região: um mergulho atravessando dois poços, hidromassagem embaixo da rocha, escorregador natural, entre outros “segredinhos” fascinantes.

 

Primeiro, o Vale da Lua

Vale da Lua 03

Vale da Lua | Foto: Daniel Carnielli

 

O nome não é apenas sugestivo, esclarece exatamente o que encontramos neste local. Um vale lunar em pleno Cerrado. Densas rochas esculpidas pela incansável passagem da cristalina água.

 

Vá cedo. Chegar por volta das 9h fará com que o Vale da Lua seja todo seu. Um bom passeio aqui dura em torno de 3 horas. A trilha é bem curta e fácil para todas as idades.

 

Oriente-se antes de descer para o vale. Pergunte sobre o que eles recomendam conhecer antes, vale a pena.

 

Na “portaria”, há uma simples lanchonete vendendo pasteis e água de coco. Parada obrigatória na saída antes de prosseguir ao próximo destino.

 

Como chegar: Pegue a estrada que liga Alto Paraíso a São Jorge e após a montanha da Baleia fique atento aos acessos à esquerda. Estará sinalizado.

Trilha: Fácil (1km)

Custo: R$ 15 por pessoa

Tempo ideal de passeio: 2 a 3 horas.

 

Agora é a vez do Raizama

Raizama 05

Cachoeira do Raizama | Foto: Daniel Carnielli

 

Entre duas montanhas, um rio que cava seu leito pela ação única do tempo, encontra aqui uma fenda que eleva sua profundida e beleza. A água exibe vórtices, poços e quedas singulares neste local.

 

Partindo do Vale da Lua, 10km adiante em parte asfaltada, o levam até o Raizama. A trilha tem entre 2 e 3 km e boa parte dela é plana, mas próximo ao rio fica mais íngreme. Quando chegar ao rio, antes de descer para o local de banho, siga a trilha beirando o desfiladeiro pela parede. Mesmo com a proteção local, cuidado para não escorregar e olhe antes de apoiar! Aqui é o habitat de pequenas aranhas e lagartas de fogo.

 

O mirante no fim do desfiladeiro é lindo! A cachoeira neste ponto, a qual mal podemos ver o fim, tem aproximados 40mts.

 

O melhor local de banho é onde a trilha encontra o rio na primeira descida. Após a visitação ao mirante, volte pelo mesmo local e siga até as piscinas lá atrás.

 

Cuidado no Raizama. É lindo, é seguro, mas não aceita brincadeiras.

 

Como chegar: Siga a estrada sentido São Jorge, o acesso fica à esquerda, pouco depois de São Jorge.

Trilha: Moderada (3km)

Custo: R$ 20 por pessoa

Tempo ideal de passeio: 2 a 3 horas.

 

E onde fica a Morada do Sol?

Morada do Sol

Cachoeira na Morada do Sol | Foto: Daniel Carnielli

 

Seguindo a estrada, após passar São Jorge por mais aproximados 5km, a sua esquerda haverá uma casa que recepciona os visitantes. Discretas placas indicam que ali é a Morada do Sol.

 

De carro chega-se muito perto do rio São Miguel; informe-se na entrada.

 

O poço de banho tem vários “cantinhos” muito agradáveis de hidromassagem natural. Há também uma cachoeira linda no leito do rio abaixo, que podemos ver por cima.

 

É aqui que o sol se esconde. Leva este nome porque no fim do dia o sol reflete nas rochas formando um cenário pacifico e atraente.

 

Trilha: Fácil (1km)

Custo: R$ 15 por pessoa

Tempo ideal de passeio: 2 a 3 horas.

 

Se o tempo permitir

 

Visite pouco mais adianta as Águas Termais. É um local agradável com piscinas cuja nascente profunda aquece a água. O local tem uma boa estrutura, restaurante e até uma sauna úmida ao lado das piscinas.

 

Jardim de Maitreya

Jardim de Maitreya | Foto: Daniel Carnielli

 

Para finalizar o dia

 

Volte para São Jorge e permita-se conhecer os restaurantes locais. A criatividade na gastronomia aqui rendeu pratos deliciosos. Chega a ser difícil escolher e opções contemplam todos os gostos.

 

Dia 2

Macaquinhos!

Macaquinhos 06

Cachoeira no Macaquinhos | Foto: Daniel Carnielli

 

Pense num local incrível onde o rio forma cachoeiras maravilhosas, de água azul transparente, muito pura, e em um visual cênico inspirador. Não há como resistir a estas quedas d’água. O local tem basicamente quatro cachoeiras, sendo a última a Cachoeira do Encontro. Cavernas, poços para saltos, fendas, escorregador, hidromassagem e muito visual pelo Cerrado. Para mim o Macaquinhos é especial!

 

Aproveite as cachoeiras na ordem que as encontrar. Só não demore para ir à última, pois é a primeira a esfriar também.

 

Como chegar: Pegue a estrada, sentido de volta a Brasília por mais ou menos 18km. Fique atento à primeira entrada à esquerda, logo após uma grande descida de mais de 2km; haverá sinalização para os Macaquinhos. Aliás, não confunda entre Macaquinhos e Macacos. Macacos é uma cachoeira maravilhosa, mas o acesso exige veículo adequado na maior parte do ano.

 

Macaquinhos 04

Cachoeira no Macaquinhos | Foto: Daniel Carnielli

 

Para Macaquinhos, serão cerca de 35km de estrada de terra. Vá com calma e atento as discretas sinalizações a cada bifurcação.

 

Já após aproximados 30km, você passará pelo ultimo portão e nele verá um horizonte a sua direita. Siga um pouco e, na cruz, pare. Dá para descer em um mirante incrível. Deste mirante é possível ver as montanhas que dividem Goiás e Bahia.

 

Macaquinhos 08

Cachoeira no Macaquinhos | Foto: Daniel Carnielli

 

O acesso ao Macaquinhos costuma ser complicado no início da volta. Repare o caminho para na volta estar prevenido, se necessário.

 

Trilha: Moderada (8km)

Custo: R$ 20 por pessoa

Tempo ideal de passeio: 5 a 8 horas.

 

Dia 3

Catarata dos Couros

“Se Deus morasse na Terra, é aqui que ele moraria. “ E foi assim que me apresentaram as Cataratas dos Couros. Este incrível refúgio do Rio dos Couros.

 

Catarata dos Couros 04

Catarata dos Couros | Foto: Daniel Carnielli

 

Ao contrário de outras, o melhor aqui é descer até a ultima cachoeira e aproveitar cada cachoeira na volta.

 

Para os aventureiros, há bastante diversão aqui. O último poço dá acesso por cima de uma cachoeira incrível, mas nesta não dá para descer por trilha.

 

Sempre achei difícil descrever locais tão belos quanto este, então vou resumir novamente. “Se Deus morasse na Terra, é aqui que ele moraria.”

 

Como chegar: O caminho não é bem sinalizado e há várias bifurcações no trecho de terra. Basicamente é preciso dirigir sentido Brasília por 10km e entrar à direita. Por terra são mais uns 35km. Atualize-se sobre as instruções na pousada ou CAT para evitar enganos. Poderia descrever o caminho, mas é possível que o induza a erros porque há fazendas na região. Então vale se informar.
Trilha: Moderada (6km)

Custo: Grátis

Tempo ideal de passeio: 5 a 6 horas.

Atenção: O MST invadiu as terras próximas às Cataratas. Às vezes cobram pedágio de R$ 5 por pessoa para o acesso às cataratas, que não possuem proprietário oficial. Já os vi fortemente armado, mas nunca ouvi relatos de perigo.

 

Dia 4

Roteiro do Rio dos Couros pela Fazenda São Bento

Cachoeira Sao Bento 02

Cachoeira São Bento | Foto: Daniel Carnielli

 

O Rio dos Couros leva este nome porque nasce no Vale dos Couros, um vale próximo a Pouso Alto, o ponto mais elevado da Chapada dos Veadeiros. Local conhecidamente com muitas cobras – daí vem o nome.

 

A Fazenda São Bento tem rica história na região. Inicialmente funcionava como uma marcenaria, mas a partir da criação do parque encontrou no turismo a sua fonte de renda, agora, o Hotel Fazenda São Bento. No mais puro estilo colonial, nos faz esquecer que estamos no Cerrado por alguns instantes.

 

A sede dá acesso à estrada que leva às cachoeiras Almecegas I e Almecegas II. Já a cachoeira São Bento fica a pé a 200 mts da sede.

 

Como chegar: Sentido São Jorge, fica a apenas 8km de Alto Paraíso. Entre na fazenda São Bento e obtenha as simples instruções na recepção.

Custo: R$ 20 por pessoa

Tempo ideal de passeio: 3 a 4 horas.

 

Cachoeira Almecegas I

Cachoeira Almecegas | Foto: Daniel Carnielli

Cachoeira Almecegas | Foto: Daniel Carnielli

 

A trilha mais difícil de todas, cerca de 3km com os últimos metros bem íngremes. A bronzeada água inquieta, talvez pelos 40 metros de queda, ainda convida incessantemente os presentes. A parede da queda parece até dizer “cheguem mais perto”, e, assim, pisando descalço, com dificuldades nas desconfortáveis pedras na beira do poço, nós vamos aos poucos atendendo seu convite.

 

Trilha: Moderada (6km)

 

Cachoeira Almecegas II

Cachoeira Almecegas II

Cachoeira Almecegas II | Foto: Daniel Carnielli

 

De carro se chega a poucos metros da cachoeira. O acesso é muito simples e na trilha praticamente não há inclinação alguma. No canto direito, um espaço parece desenhado para os ousados saltadores caírem em suas águas.

 

As pedras com coloração perolada enriquecem o visual.

 

Trilha: Fácil (< 1km)

 

Cachoeira São Bento

Cachoeira Sao Bento 01

Cachoeira São Bento | Foto: Daniel Carnielli

 

Na cachoeira que está no circuito do campeonato nacional de Polo Aquático, a água parece tão refrescante quanto uma Coca-Cola gelada. À direita do poço, uma parede de cristais em rocha é uma verdadeira escola para quem quer aprender a criar coragem de pular na água. Dá para saltar de várias alturas com o único risco de dar a inexperiente barrigada.

 

Um deleite para a despedida da Chapada dos Veadeiros. O fácil acesso nos convida a sempre retornar aqui.

 

Trilha: Fácil (< 1km)

 

Para finalizar o dia

Fazenda Sao Bento

Fazenda São Bento | Foto: Daniel Carnielli

 

O barzinho na recepção da Fazenda oferece uma saborosa cerveja artesanal produzida na região, além de torradas de pão integral servidas ao azeite temperado.

 

Para encerrar o dia, vale a pena dirigir até o Rancho de seu Waldomiro. Fica na “cabeça” da montanha da Baleia no sentido São Jorge. Lá, seu Waldomiro encanta os visitantes com suas histórias ou estórias sobre o tempo em que caçava onças e sobre as luzes que ele não acredita, mas vê saindo da mágica montanha da Baleia. A Matula, prato de feijão cozido nas folhas de bananeira é seu “carro chefe”, acompanhado dos incontáveis sabores de licor preparados ali mesmo com os sabores do Cerrado.

 

da natureza nada se leva

No meio da trilha, um aviso | Foto: Daniel Carnielli

 

Informações úteis

A época de chuva é de dezembro a março. Neste período as cachoeiras ficam lindíssimas, mas aumenta muito o risco de enxurradas repentinas provocadas pela chuva na cabeceira ou nas nascentes.

 

Não há ônibus comercial entre Alto Paraíso e São Jorge.

 

CAT (Centro de Atendimento ao Turista)
Av. Ary Valadão Filho, 1.100 – Alto Paraíso de Goiás
Tel.: (62) 3646-1159

 

Rodoviária de Alto Paraíso

Tel.: (62) 3646-1359

Site: http://www.guiaaltoparaiso.com.br/.