Era 1989 quando o garoto Zizo Asnis trancou matrícula de seu curso de Publicidade e Propaganda na PUC/RS, largou a namorada (“oi Mariel, você ainda tá zangada comigo?”), chutou o trabalho (onde já se viu um garoto de 20 anos passar o dia de gravata!) e foi morar um ano em Londres. Chegou de mãos abanando, sem nada saber e quase sem dinheiro.

Ralou legal. Descolou um emprego de lavador de pratos e foi isso que fez nos meses seguintes – lavou pratos. Mas também ia a museus, concertos de rock, parques, feiras de Camdew Town. Lavou tanto prato que juntou uma graninha. E foi gastar suas economias circulando de trem por toda Europa – no emblemático ano em que a Cortina de Ferro e o Muro de Berlim desabavam. E depois de passar por Israel e Egito e um ano inteiro cheio de histórias e experiências, voltou ao Brasil.

Como um quase-pioneiro-viajante, na jurássica era pré-internet, Zizo se tornou uma fonte de informações sobre a Europa, e assim passou a dar dicas a amigos, a amigos de amigos, a amigos de amigos de amigos. Seu destino no momento, porém, era se empregar numa multinacional – e logo se viu, por cinco anos, dentro da Xerox do Brasil.

A coceira

Em seus anos de adulto-sério, Zizo constatou que seu passado de mochileiro provocava uma infindável coceira – e só havia um remédio. Assim, novamente, deixou o trabalho (onde já se viu um garoto de 26 anos passar o dia de gravata!), largou a namorada (“oi Gladis, você ainda tá zangada comigo?”) e lá foi de novo à Europa.

Em Londres, desta vez, foi promovido – agora trabalhava como cozinheiro e garçom. Não sabia cozinhar, mas felizmente na Inglaterra isso não era um problema. Também não sabia servir, mas felizmente na Inglaterra ninguém lhe xingava por derrubar batatas suculentas nos clientes. Tanto cozinhou e carregou bandeja que melhorou – e chegou a servir um banquete para o Príncipe Charles. Oh! Juntou uma boa graninha e já sabia o que fazer: voltar a circular pela Europa. E depois, conhecer a Ásia. Para, finalmente, após dois anos fora, retornar ao Brasil.

De volta, começou a pensar em um projeto que incentivasse mais pessoas a se tornarem viajantes. Sabia, afinal, que muita gente não encarava uma viagem por falta de informação. Ou por insegurança. Ou por falta de dólares. Informação ele tinha, segurança ele poderia tentar passar (insegurança com o quê, viajante??) e dinheiro, bem, por experiência, ele sabia que era possível sair pelo mundo com muito menos grana do que se imaginava. E, acima de tudo, tinha a convicção de que uma viagem era uma vivência sem igual, pela qual todos deveriam experimentar.

Algum tempo depois, Zizo largou mais uma vez o trabalho, mas desta vez pra viajar nas suas próprias ideias: passou a criar um guia de viagem, com base nos seus anos de viajante mundo afora – mas um guia diferente de todos os outros que havia no Brasil. Em 1999, formou uma equipe de viajantes para percorrer a Europa e coletar informações. Neste mesmo ano, lança o site O Viajante, ou www.oviajante.uol.com.br, então o primeiro na internet a enfocar o turismo mochileiro e independente. Poucos meses depois, o site se torna parceiro do UOL, o maior portal e provedor da América Latina, que bota fé na ideia e o incorpora ao seu conteúdo.

A grande viagem

O passo seguinte talvez tenha sido ainda mais significativo: Zizo lança, em junho de 2000, o Guia Criativo para O Viajante Independente na Europa – o primeiro guia de viagens sobre o continente europeu em português, feito por e para brasileiros, não sendo apenas a tradução de um guia estrangeiro.

Conhecido como O Viajante, a publicação entrava assim no seleto clube de guias destinados a viajantes independentes, onde fazem parte o australiano Lonely Planet, o americano Let’s Go, o inglês Rough Guide, o espanhol Trotamundos, o francês Le Guide du Routard. Apesar de contar com uma divulgação limitada, a receptividade do primeiro guia O Viajante foi excepcional, não tardando a penetrar nos restritos círculos editoriais de distribuição e nas mãos – e malas e mochilas – de viajantes.

Desenvolver guias em português para brasileiros tornou-se do agrado de todos: dos viajantes selecionados, que viajavam para coletar informações; do Zizo, que agora tinha uma boa desculpa pra viajar; das livrarias, que os (bem) vendiam; e, principalmente, do público, que ganhava uma publicação com sua cara e identidade. Na sequência, um novo e inusitado destino: América do Sul. E, em junho de 2002, é lançado o Guia Criativo para O Viajante Independente na América do Sul, o primeirão, em português, a apresentar o nosso continente para brasileiros.

Nos anos seguintes, são publicados um livro no segmento literatura viajante – Uma Estrada para o Chile, de Alberto Schwanke – e mais dois guias vinculados ao continente sul-americano: o Guia O Viajante Argentina e o Guia O Viajante Chile (ambos lançados em 2007).

Em 2008, Zizo cria uma iniciativa inédita: o Curso Travel-Writer – para os interessados em escrever sobre suas viagens e ainda quem sabe ganhar por isso. O curso se mostra um sucesso, sendo ministrado anualmente desde então, já tendo turmas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e Recife.

Em 2010, a editora publica seus dois primeiros títulos sobre terras brasileiras: o Guia O Viajante Santa Catarina e o Guia O Viajante Rio Grande do Sul. Dois anos depois, um guia de uma única cidade – e que cidade –, Londres. Mais dois anos depois e já estamos em 2014 – o Uruguai é o pais do momento, e ganha um guia próprio.

Nesse mesmo 2014, O Viajante comemora 15 anos – e lança seu novíssimo site, de cara nova. Enquanto isso, novas edição são trabalhadas, planejadas – já são 10 títulos e 27 edições, mais de 200 mil exemplares vendidos. E Zizo nunca mais precisou largar seu trabalho pra viajar…