O que o couchsurfing pode te ensinar?

Fotógrafo que já rodou o mundo com o couchsurfing dá dicas para quem planeja adotar esse estilo barato e interessante de viajar.

 

Não há expert em viagens que não conheça o couchsurfing, uma plataforma online onde você encontra pessoas ao redor do mundo oferecendo um sofá, um chão, uma rede ou, para quem tiver sorte, uma cama confortável para passar a noite. Já “surfei” em sofás alheios algumas vezes e afirmo que é duplamente legal: para economizar grana e também para conhecer pessoas locais, que abrem suas casas para viajantes, gostam de ter amigos ao redor do mundo e querem praticar uma língua diferente.

 

No couchsurfing você pode ser hóspede ou anfitrião. Tudo de graça. E caso você não tenha como hospedar alguém, pode se oferecer para acompanhar o viajante por um tour na sua cidade, num café ou numa balada. Geralmente, os anfitriões são viajantes que estão de “volta à vida normal” mas não querem perder o contato com a cultura viajante. Mas é possível encontrar universitários, senhoras idosas, famílias e todos os outros tipos de pessoas abertas para hospedar você, viajante.

 

É bom demais pra ser verdade? É seguro? O que os anfitriões esperam de mim? O que devo fazer para não acordar sem um rim em uma banheira cheia de gelo caso encontre um anfitrião suspeito?

 

Um surfista de sofá experiente vai clarear suas dúvidas. Durante a Copa do Mundo, hospedei por algumas vezes o nipo-germânico Ryu Voelkel, um fotógrafo profissional de esportes que viaja no estilo couchsurfing há mais de 10 anos. Ele nasceu em Tóquio, fez o ensino médio em Hong Kong, a faculdade e mestrado nos Estados Unidos, morou em Londres, Paris e atualmente reside em Berlim. Ryu faz trabalhos fotojornalísticos e fotografa para a Nike, Adidas, NBA, vários outros campeonatos de basquetebol e, além desta última Copa, esteve na África do Sul em 2010 e na Copa das Confederações em 2013.

 

Ryu-Voelkel (arquivo pessoal)

Ryu Voelkel (arquivo pessoal)

 

Por aproximadamente 40 dias na época da Copa do Mundo, ele viajou pelo Brasil fotografando jogadores de diversos países e dormindo em sofás de muitos estados. Ao total foram 21 jogos do Mundial, dez estádios e dezenas de cliques fora de campo para compor um livro sobre a Copa do Mundo e essa especial relação do brasileiro com o futebol.

 

O livro Ryu x Rio será lançado em outubro pela Amazon e não tem previsão de ser vendido no Brasil, mas por enquanto podemos dar uma olhada nas dicas dele sobre esse super útil serviço que o couchsurfing fornece.

 

Michelle: Por que usar o couchsurfing?

 

Ryu: Honestamente? Primeiro é por dinheiro. Costuma ser caro se hospedar em hotel. Segundo, porque assim posso conhecer pessoas locais que de outra forma eu não conheceria se estivesse em um hotel. Hostel e albergues estão fora de questão porque eu sempre carrego equipamentos caros de fotografia e não me sentiria seguro dormindo ao lado de 15 pessoas. Sobre o negócio do dinheiro, se eu economizar €100 naquela noite, posso levar meu anfitrião para um bom jantar e ainda sairia metade disso. É questão de poder tratá-lo bem, ele me tratar bem e todo mundo ganhar. E eu gosto de passar o tempo com as pessoas, não todo o tempo, mas a maioria das vezes.

 

M: Você começou a “surfar” com couchsurfing antes ou depois de começar a fotografar?

 

R: Foi definitivamente depois de começar a fotografar. Eu percebi que meu orçamento era limitado e seria impossível ficar em quartos de hotel todas as vezes. Então seria melhor usar o couchsurfing. Eu usava o Hospitality Club antes e mudei para o Couchsurfing. É a mesma coisa, o Hospitality Club começou antes e o Couchsurfing tornou o négocio mais profissional.

 

M: Quando foi seu primeiro couchsurfing?

 

R: Foi mais ou menos dez anos atrás na Alemanha. A garota que eu encontrei no site me tratou muito bem. A cidade era muito interessante, tinha uma arquitetura pós-comunista, bem URSS, mas nada de mais para fazer lá. Ah, mas fiz algo parecido com o couchsurfing na Romênia, alguns anos antes disso, fora da internet. Simplesmente, fui para lá e duas irmãs decidiram me ajudar e me acolher para o Natal.

 

M: Quantas vezes você já se hospedou dessa maneira?

 

R: Provavelmente umas 50 vezes. Eu me sinto mal por não hospedar pessoas. Minha esposa é contra esse negócio todo de hospedagem, eu não me importo muito. Se fosse apenas eu, estaria tranquilo em ter pessoas estranhas ao redor, mas não é o caso.

 

M: Como foi a melhor experiência que você teve?

 

R: Todas as vezes que eu cheguei a conhecer as pessoas. Porque eu geralmente fico por um período de aproximadamente 24 horas, o que é pouco. Eu chego ao lugar, fotografo a partida, onde quer que ela seja, acordo no dia seguinte e volto para casa ou vou para o próximo lugar da viagem. Então, as melhores vezes eram quando chegava e o anfitrião dizia: “ei, está rolando uma festa na casa de uns amigos, vamos lá tomar uns drinques?”.

 

Durante semana, fica difícil para o anfitrião sair à noite porque ele tem que ir para o trabalho ou para a universidade no dia seguinte. Mas durante o fim de semana, eles me convidam para festas, nós vamos, conhecemos pessoas e isso sim é interessante. Todos foram muito bons, me providenciaram um lugar para ficar, tudo foi muito bom. Tiveram algumas pessoas estranhas que me hospedaram, mas em geral os anfitriões sempre são muito bons e gentis. E eu sempre espero poder contribuir com algo para a vida deles. Quando o tempo permite, eu cozinho para eles, tentei algumas vezes ensinar pessoas a fotografar e tento sempre trazer uma garrafa de vinho ou algo parecido. Mas tiveram vezes que eu trouxe o vinho e a pessoa não bebia álcool. Isso acontece às vezes [risos].

 

M: Qual foi a pior experiência?

 

R: Eu acho que é quando a pessoa é um pouco estranha ou a casa é muito pequena. Uma vez tive que dormir em cima de um beliche, senti que tinha voltado aos 10 anos ou algo assim [risos]. Mas realmente a pior coisa é quando você não se sente seguro. Às vezes meus amigos no Japão me perguntam se eu me sinto seguro quando tenho um anfitrião gay. Claro que respondo que é obvio que eles não vão me atacar, e na verdade algumas das minhas melhores experiências com couchsurfing foram com homossexuais. A gente conversava por horas sobre assuntos gays, é muito interessante. Eu tento me hospedar com casais e famílias porque me faz me sentir mais seguro, mas nada contra ficar na casa de caras gays também.

 

M: Então você tem um critério de escolha entre as pessoas que decidem te hospedar?

 

R: Sim, geralmente eu tenho. Escolho pessoas com boas referências, mas às vezes não tem opção e eu não posso fazer muita coisa. Bem, eu sou homem e de certa maneira me sinto mais seguro do que uma garota viajando sozinha e se hospedando na casa de estranhos. Eu não recomendaria isso. Bom, eu cheguei a cruzar com pessoas suspeitas, mas nunca senti que fosse morrer ou algo assim.

 

Um sofá, uma rede, ou quem sabe uma cama confortável para passar a noite | Foto por emdot

Um sofá, uma rede, ou quem sabe uma cama confortável para passar a noite | Foto por emdot

 

M: Você analisa o perfil da pessoa que vai te hospedar? Procura pelas fotos, preferência de livros, musicas e gostos em comum?

 

R: Não. Não é nada fácil conseguir um lugar para ficar. Você literalmente tem que mandar centenas de pedidos para todo mundo e dizer quem você é e o que faz. A maioria das pessoas não responde. Durante a Copa do Mundo foi muito difícil, mandei de 600 a 700 pedidos. Em alguns lugares tive sorte, como em Brasília, que obtive um grande número de respostas – infelizmente só fui uma vez para lá. É uma questão de sorte você encontrar um bom anfitrião.

 

Espero ter sido um bom hospede também, às vezes eu não fui, porque estava muito cansado e só queria descansar e isso também é um problema; quando você realmente precisa descansar eu não acho que é possível usar o couchsurfing. Não é como um hotel, você tem que interagir com seu anfitrião e tudo o mais. Uma noite tive que alugar um apartamento pelo Airbnb. Consegui um lugar para dormir e foi ótimo. E precisava daquele dia para apenas dormir e não ser incomodado. Existem pontos positivos e negativos sobre o couchsurfing, mas ele é um serviço interessante.

 

M: Você passou por alguma experiência onde o anfitrião te cobrou pela noite?

 

R: Sim, estive em situações que o possível anfitrião me cobrou, aconteceram várias vezes durante a Copa do Mundo, algumas pessoas pediam dinheiro, mas não paguei por nenhuma hospedagem no Brasil. Paguei uma vez na Copa passada na África do Sul.

 

M: Mas então você era avisado que ia ser cobrado previamente?

 

R: Sim, e foi tudo bem. Eles não pedem muito dinheiro, até porque se pedissem ia ser mais barato ir para um hotel.

 

M: E se algo desagradável acontecer? Como ser o mais educado possível para sair correndo de lá?

 

R: Existem várias diferentes mentiras que você pode usar [risos]. Se você está lá e não se sente confortável, você pode dizer: “ei, escuta, eu acabei de receber uma mensagem de um amigo e ele disse que está na cidade e tem um lugar para ficar, então eu vou ir encontrá-lo e ficar com ele”. Existem várias coisas para dizer sem machucar os sentimentos do anfitrião. Às vezes ele é só um cara estranho e não tem más intenções, mas se você não se sentir confortável, você tem que sair de lá. Não é um favor para ninguém você ficar em um lugar onde não se sente bem e o anfitrião notar isso. Eu minto, invento uma história e dou o fora de lá. E seja honesto com a sua mentira, do tipo: “me desculpe mesmo, mas preciso ir, porque você sabe…”.

 

M: Você tem dicas para os “surfistas” de primeira viagem?

 

R: Você tem que estar com uma boa comunicação com o anfitrião, ter certeza de que pode contatá-lo fora do couchsurfing, por e-mail, whatsapp, celular, ou o que puder usar. Tente ser bom, ajudá-lo, sempre perguntar se precisa de alguma coisa ou se você pode fazer algo por eles. E eu, definitivamente, traria alguma pequena lembrança.

 

Se não custar muito no seu país, leve uma garrafa de vinho. É um bom gesto. Se você não comprou uma garrafa de vinho, mas vai sair com ele para beber, pague um drinque. Pequenas coisas para dizer: “obrigado por tomar conta de mim e me dar um lugar para dormir”. A coisa mais importante é se manter consciente da hospitalidade deles. Eles estão fazendo algo de bom para você, você deve ser capaz de retribuir e dar algo em troca.