Na estrada da Garden Route

Por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Addo Elephant National Park | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Addo Elephant National Park | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Quando ouvi a proposta, não soube o que pensar:

 

– Poderíamos fazer a Garden Route.

 

A ideia era ambiciosa e tínhamos pouco tempo: cerca de seis dias, incluindo ida e volta. Loucura. Uma loucura que valia a pena, como oportunidade única.

 

Mas o que é essa tal de Garden Route? A South African Tourism diz que essa rota se distribui entre Cape Town, a capital da África do Sul, e Port Elizabeth, na porção mais a sudeste do litoral. O Sérgio, meu amigo e a mente por trás da ideia, estava disposto a percorrer essa distância de carro. Depois, pareceu ter sido a opção mais acertada – não me lembro de ter visto muitos ônibus circulando pelas estradas.

 

Tínhamos dois problemas: o primeiro é o fato de, no país, seguirem o padrão inglês de mão. Ou seja, não apenas o Sérgio encararia a novidade de se sentar no banco da direita para dirigir, mas também seria preciso encarar uma estrada de imediato, sem tempo para treinos. O segundo problema era percorrer cerca de 750 km para ir. E mais uns 750 km para voltar, claro (compramos as passagens aéreas antes, pensando em apenas visitar a Cidade do Cabo). Bem, depois de muito quebrar a cabeça, decidimos, ainda por cima, dar uma esticada até o Addo Elephant National Park – mais 80 km acrescentados ao trajeto.

 

Trajeto feito por Ana e Sérgio na Garden Route

Trajeto feito por Ana e Sérgio na Garden Route

 

Alguns pontos importantes inevitavelmente foram sacrificados, como a praia de Victoria Bay e as cidades de George e de Hermanus, tida como um dos melhores lugares do mundo para avistar baleias. Mas a África do Sul é daqueles lugares que nos obrigam a uma segunda visita.

 

Primeiro dia

Falemos aqui do primeiro dia de viagem. Chegamos a Cape Town via Joanesburgo. Sem contar o vai e vem, burocracias e esperas, são por volta de 11h dentro de um avião até o destino final. E há uma diferença de cinco horas entre Brasília e Cape Town (isso sem o horário de verão). Sobre a migração, é muito importante citar: não se esqueça da vacina da febre amarela e do respectivo documento oficial da Anvisa – que você pode conseguir no aeroporto brasileiro.

 

Pegamos o carro e seguimos até Stellenbosch, distante 50 km de Cape Town. Nosso primeiro contato com a N2, a longa rodovia que nos guiaria por praticamente toda a viagem, ocorreu sem problemas e com paisagens surreais – a primeira delas foi a visão da respeitável Table Mountain, que é abraçada pelo centro urbano da capital. Chegamos em meia hora, o que nos deu tempo para almoçar. Escolhemos o Thai Café – rápido e com opções saborosas e de agradável apresentação.

 

 

Chegando em | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Chegando em Stellenbosch | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Essa é uma cidade de colonização holandesa, conhecida pela produção de vinhos. Um lugar ensolarado e muito bonito, onde tivemos nossa primeira experiência com o grande poder de persuasão dos vendedores sul-africanos. Eles sabem como chamar a atenção, enaltecendo exaustivamente a qualidade de suas mercadorias e de seus “preços especiais”. E eles adoram brasileiros, sempre abrem um belo sorriso. A boa notícia é que cada rand, a moeda local, vale cerca de 26 centavos de real, atualmente. Não é difícil ter uma boa refeição com pouco dinheiro, e de sair carregado de animais feitos de ébano, além de outras quinquilharias.

 

Carregamento de avestruzes na estrada | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Carregamento de avestruzes na estrada | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Pegamos o caminho até a cidade portuária de Mossel Bay e passamos a noite no ótimo Aquamarine Guest House, onde comi a melhor salada de frutas da minha vida. A hospitalidade sul-africana é encantadora: fomos muito bem recebidos nessa cidade, como em todas as outras por onde passamos. Essa é uma das melhores lembranças que carregamos conosco dessa breve estada no país.

 

Segundo dia

No segundo dia durante a rápida viagem pela África do Sul, estive em Mossel Bay, distante 388 km de Cape Town, e conheci um de seus pontos principais: a praia de Santos. Essa é uma praia tranquila, aparentemente pouco movimentada, de lindos jardins floridos e com muitas pedras ao longo da clara superfície arenosa. Foi o meu primeiro contato com o Índico – um contato bastante gelado, devo dizer.

 

Mossel Bay | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Mossel Bay | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Ainda antes do almoço, eu e o Sérgio, meu companheiro de jornada, voltamos à estrada. Iríamos pernoitar num charmoso casarão vitoriano reformado já em Port Elizabeth, o St. Phillips Bed & Breakfast. O deslocamento, 368 km, seria longo. Aliás, aconselho enfaticamente que as reservas sejam feitas com antecedência, do contrário você pode se deparar com grandes dificuldades. As cidades parecem dormir cedo por lá, incluindo os atendentes de hotéis – passamos por alguns apertos por conta disso, mesmo com as reservas.

 

Knysna, a quilômetros de Port Elizabeth | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Knysna, a 113km de Mossel Bay | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

No caminho, demos uma breve parada em Knysna, a 113 km de Mossel Bay, cujos campos de golfe se destacam na paisagem. E Plettenberg Bay, logo à frente, se revelou um lugar encantador para se banhar e para comprar. Almoçamos no A Taste of Mozambique, onde, é pena, não encontramos nenhum falante de português. Mas encontramos vinho – vinho de qualidade é o que não falta por toda a rota para os apreciadores.

 

Plettenberg Bay | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Plettenberg Bay | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Terceiro dia

No dia seguinte, depois de conhecer um pouco da orla de Port Elizabeth, partimos para nosso destino mais ao leste: o Addo Elephant National Park. Foi por pouco, mas conseguimos ver elefantes bem de perto por lá. A recomendação é expressa: não saia do carro, você está num ambiente selvagem, mesmo que de forma controlada. O portão da parte mais reservada fecha às 18h (o principal fecha às 19h), mais ou menos quando o sol se põe, e grande parte dos animais só se revela perto desse momento. Ou ao amanhecer.

 

Addo Elephant National Park | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Addo Elephant National Park | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Nesse dia, o terceiro da viagem, um imprevisto: não conseguimos localizar o hotel que reservamos em Addo. Ninguém sabia nos informar a respeito dele, então resolvemos agir logo: o Sérgio decidiu que dirigiria até onde suas forças permitissem. Esperávamos, na mais otimista das previsões, alcançar Plettenberg Bay, um lugar já nosso conhecido e razoavelmente movimentado nos pareceu a melhor saída para uma noite sem rumo.

 

No final deu certo, mas não foi fácil encontrar um lugar para dormir: depois de procurar um pouco, vimos aberto o Bayview Hotel, um alívio após um trajeto tão cansativo. Na manhã seguinte, ainda tivemos um farto café da manhã no The Med Seafood Bistro, uma opção paga à parte no hotel. O garçom foi atencioso ao extremo; ficamos impressionados com tantos pratos e xícaras vindo em nossa direção, com tantas pessoas nos perguntando se estava tudo bem.

 

Quarto dia

A volta para o oeste contou com menos paradas. Foi cansativo, especialmente para o motorista, mas deu tudo certo. Uma delas foi na praia de Wilderness, à beira da N2, com areia clara a se perder de vista – um bom ponto para fazer companhia a si mesmo. Outra foi em Swellendam, no restaurante La Belle Alliance. A comida é divina, o ambiente é um grande atrativo também: uma antiga casa maçônica que já contou com a presença de ninguém menos que Nelson Mandela, em 1999.

 

Praia de Wilderness | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

Praia de Wilderness | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio

 

Encerramos aquela quarta tarde em Cape Agulhas – uma parada que não pode ser ignorada. Cape Agulhas é o ponto mais ao sul do continente africano. Lá, dizem, é onde o Índico se encontra com o Atlântico. Um lugar para você se perder na admiração das ondas sobre as pedras irregulares, bom para visitar quando o farol começa a emitir seus primeiros feixes de luz esverdeada aos primeiros sinais do anoitecer.

 

O ponto mais ao sul do continente africano | Foto por Ana Lucia Mendes Antonio

“Você está no ponto mais ao sul do continente africano” | Foto por Ana Lúcia Mendes Antonio