Maquiné: paraíso de cachoeiras no sopé da montanhas

O pequeno município de Maquiné, localizado no litoral norte gaúcho, apesar de fazer fronteira com a badalada praia de Capão da Canoa, tem seus maiores atrativos no sopé das montanhas. O finalzinho de Mata Atlântica da Serra do Mar (que vem desde o litoral do estado do Rio de Janeiro, passando por São Paulo, Paraná, Santa Catarina e terminando ali, nas imediações das lagoas de Osório) resulta geograficamente em um lindo vale encravado nas montanhas, vertendo águas doces e límpidas para todos os lados, fazendo de Maquiné um desses pequenos paraísos para os amantes da natureza.

 

Por Grazi Calazans

 

Cascata do Garapiá

 

Como chegar

 

Chegar a Maquiné não é uma tarefa complicada: o centro da cidade localiza-se a menos de 5km da antiga BR-101. Entretanto, as belezas naturais estão mais afastadas do centro, sendo a Barra do Ouro (o distrito mais longe, mas onde é possível chegar de ônibus) distante 10km do centro. Da Barra do Ouro até as cachoeiras mais famosas, o percurso tem que ser feito de carro, ou bicicleta para os mais dispostos. Até a Forqueta por exemplo, onde estão duas das mais lindas cascatas que já conheci (Forqueta e Garapiá), são cerca de 8km de distância.

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Não há muitas dificuldades em conseguir uma carona da Barra do Ouro até a Linha Pedra de Amolar, onde se localiza o Recanto do Sossego, um dos locais onde se pode acampar e saborear quitutes tipicamente gaúchos, como as chimias (gauchês para geléia) e os biscoitos caseiros preparados pela simpática dona do local.

 

Entrada para a Cascata da Forqueta

 

A menos que você encontre um período de chuvas intensas – que foi o meu caso, presenteada com 4 dias de chuva constante em um feriadão de 5 dias – poderá desfrutar das paisagens e dos vários caminhos por entre os rios Ligeiro e Forqueta. Falo das chuvas porque os rios transbordam e impedem a passagem dos carros pelas barragens, então o risco de ficar ilhado existe, e foi exatamente o que aconteceu conosco. Mesmo com toda a chuva, eu e meus filhos não perdemos a oportunidade de visitar as cascatas da região, pois sou amante de quedas d’água, quase uma caçadora de cachoeiras.

 

Cascata do Garapiá

 

A Cascata do Garapiá foi a primeira a ser visitada a partir de uma caminhada tranquila de cerca de 3km desde a ponte do Rio Forqueta. Aliás, pontes são coisas que você vai ver muito pela região, especialmente as famosas “pinguelas”, aquelas pontes de madeira e aço, balançantes sobre os rios. Para chegar até a Cascata do Garapiá atravessamos quatro dessas pontes. Também é possível ir pelas barragens, pequenas estruturas de concreto que atravessam os rios, mas, como a correnteza estava fortíssima a ponto de nem carros passarem, quem diria nós irmos a pé.

 

Muitas opções de acomodação na região do Garapiá

 

A região do Garapiá tem bastante estrutura para os visitantes, são várias opções de camping, loja de artesanatos, barzinhos com comidinhas rápidas e até um restaurante vegano, o Paz na Mata, de proprietários paulistas que se encantaram pelo lugar e nunca mais saíram dali. A trilha para a Cascata do Garapiá é bem fácil e intuitiva, bastando seguir rio acima. Dali também é possível fazer uma caminhada para o município vizinho, São Francisco de Paula, um trajeto conhecido como trilha dos tropeiros. O pessoal da região disse que essa trilha é bem difícil, já que sobe a serra e é muito pouco visitada, sendo quase selvagem, mas confesso que fiquei com vontade de fazê-la um dia.

 

Com toda aquela chuva havia muita água também pelo caminho para a cachoeira. Em alguns pontos surgiam vertentes até onde, creio eu, elas não existam. Chegando a cachoeira, avistamos a imensa poça com a queda de cerca de 8 metros de altura incrivelmente forte e larga. O volume de água era tanto que o barulho da cascata era ensurdecedor. Apesar de toda a umidade e do friozinho, não resistimos a um mergulho, que foi bem rápido, pois a correnteza estava mesmo assustadora.

 

Cascata do Garapia com volume bem acima do normal

 

Entretanto, não se assuste, visitamos novamente essa mesma cascata dois dias depois, quando o sol finalmente nos brindou no nosso último dia na cidade, e apesar da queda d’água ainda estar bastante forte, o poço era tranquilo para mergulhos, até mesmo para as crianças (foto que abre o post). Havia também um grupo praticando rapel na gigante pedra ao lado da cascata, uma boa opção para os amantes de adrenalina e aventura.

 

Cascata da Forqueta

 

Nosso maior desafio naquele feriado foi conhecer a Cascata da Forqueta. Os moradores locais disseram que era melhor não irmos, pois para acessar o último trecho da trilha precisaríamos atravessar o Rio Forqueta. Com toda aquela chuva e a correnteza como estava, era um risco grande. Mesmo assim, resolvi tentar junto a meu companheiro de trilha, deixando as crianças brincando na vizinhança. Começamos a caminhada, de cerca de 5km desde a ponte do rio Forqueta, com uma pausa na chuva e uma leve tentativa do sol sair de trás das nuvens carregadas. Depois de muita estrada de chão batido e lindas paisagens de campos com hortas e animais, chegamos à placa onde dizia “Cascata da Forqueta – atravesse o rio”.

 

A ponte do Rio Forqueta

 

A correnteza era mesmo forte e atravessar o rio seria um desafio e tanto. Ali paramos e fizemos um lanche nas margens, com a nossa companheira, a chuva, voltando novamente. Não havia barragem ou pinguela, precisaríamos ir na cara e coragem entre as pedras. Meu companheiro, experiente em travessia de rios, foi primeiro, sem nada, para sentir o caminho. Depois de alguns minutos tateando pedra por pedra, ele chegou do outro lado da margem. Se ele foi, eu também consigo, pensei. Ele voltou e me disse que apesar da correnteza estar bem forte, podíamos tentar levando poucas coisas e segurando nas pedras, andando quase de quatro.

 

E foi assim que conseguimos atravessar o Rio Forqueta e caminhar mais 500m até chegar a uma inacreditável queda de uns 80 metros de altura, encravada no meio da mata, uma preciosidade escondida na natureza. Muita, mas muita água, muito frio e muita umidade… e a beleza estonteante da cascata fez valer essas condições e todo o medo de atravessar o rio. Voltamos debaixo de chuva e realizados por termos conseguido conhecer aquela pérola imponente, mesmo com toda a chuvarada.

 

A linda Forqueta

 

Espero que todos que coloquem Maquiné em seus roteiros tenham um pouco mais de sorte que nós quanto ao clima, que encontrem dias ensolarados para desfrutar de toda a beleza da região. Se com toda aquela chuva foi uma experiência inesquecível, o que será de Maquiné com a luz do sol? Um espetáculo, com certeza!