Circo de Soaso, uma visita aos Pireneus

Circo de Soaso ainda se recuperando do inverno | Foto por João Paulo de Vasconcelos

Circo de Soaso ainda se recuperando do inverno | Foto por João Paulo de Vasconcelos

Por João Paulo de Vasconcelos

 

A Europa é um famoso destino de viagem entre os brasileiros. Normalmente se ouve muito falar das visitas ao Louvre, em Paris, das fotos em frente ao Big Ben, em Londres, e de quanto eram gostosas as tortillas espanholas. Mas raras são as vezes que alguém se lembra das maravilhas naturais do continente – que, por sinal, são muitas – e deixam de lado um outro mundo que pode ser ainda mais impressionante para quem vive em um país tropical. Os alpes na Suíça, a costa da Noruega, e as praias no sul da França são conhecidos, mas um lugar que surpreende qualquer viajante é o Circo de Soaso, no Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido.

 

Localizado no nordeste da Espanha, onde os Pireneus marcam a fronteira com a França, o parque nacional se isola um pouco dos mais conhecidos destinos do país, sendo que a grande cidade mais próxima é Zaragoza, a 164km de distância. Alguns outros centros menores como Huesca e Sabiñánigo também ficam a menos de 100km de distância, mas o lugar mais próximo para se hospedar e visitar o parque diariamente é um pequeno vilarejo chamado Torla.

 

Torla

 

As ruas de Torla levam o viajante ao passado |  Foto por João Paulo de Vasconcelos

As ruas de Torla levam o viajante ao passado | Foto por João Paulo de Vasconcelos

 

Cerca de 8km antes da entrada principal do Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido, está Torla. Com aproximadamente 300 habitantes, é o principal centro próximo ao parque, onde há um posto de turismo (muito interessante para informações sobre o parque, trilhas, campings e atividades na região), além de alguns restaurantes e hotéis.

 

A cidade conquista os visitantes antes mesmo da chegada, com as estradas de pista simples cheias de curvas que a cada volta revelam um pouco mais da paisagem dos Pireneus, e ambienta com as paredes de rochas e os túneis apertados que furam a montanha. Com construções medievais, Torla parece uma fortaleza de pedra que parou no tempo, e mistura o charme do antigo com a história da Espanha.

 

A cidade também oferece pequenos mercados onde se pode comprar comida para levar na caminhada (muito recomendado), lojas de equipamento para trilhas, além de alguns restaurantes de todos os preços. Quem estiver de passagem e quiser economizar, vale a pena comer um bocadillo em algum bar na rua principal e fugir dos restaurantes para turistas. Em apenas alguns minutos se cruza a cidade toda a pé, e ao fim da rua principal o caminho volta à estrada que leva ao parque.

 

Circo de Soaso

 

O caminho é bem demarcado e intuitivo | Foto por João Paulo de Vasconcelos

O caminho é bem demarcado e intuitivo | Foto por João Paulo de Vasconcelos

 

A região tem inúmeras trilhas, e opções não faltam para quem quer simplesmente caminhar em meio à natureza ou já tem algum conhecimento de escalada e quer se aventurar um pouco mais nas áreas menos visitadas. Mas a trilha mais conhecida é a que começa na Pradera de Ordesa (no estacionamento da entrada principal) e vai até o Circo de Soaso.

 

Antes de começar a trilha é importante lembrar de algumas recomendações. O caminho é longo, e se for feito com pressa é possível chegar ao fim da trilha em menos de 3h, mas a melhor maneira de aproveitar o parque é explorar e apreciar o percurso. Por isso, é possível que o trecho de ida e volta envolva cerca de 8h de caminhada, então é importante levar ao menos um agasalho, comida para as paradas (pois não se vende nada dentro do parque), água ou uma garrafa que possa ser cheia no rio, além de muita atenção ao horário (para que o sol não se ponha e seja necessário fazer a volta no escuro), e uma lanterna caso o item anterior seja ignorado.

 

Com o caminho bem demarcado e inicialmente demandando pouco esforço, é comum ver pessoas de mais idade ou até pais com crianças no início da trilha. Ela começa com um visual que não é estanho aos brasileiros, com um percurso de terra bem aberto, e uma densa mata ao redor com o barulho de água correndo como trilha sonora sempre ao lado. Aos poucos se vê uma pequena cachoeira que chama um pouco a atenção, logo que se segue nota-se uma um pouco maior, depois outra com um volume considerável, até que a caminhada vai levando a diversos pontos de observação com cachoeiras de diversas formas e tamanhos. Uma haste de ferro quase na altura do peito demarca o limite de proximidade para a vista, mas é comum ver algumas pessoas passando das barreiras e se aventurando por conta própria, o que deve ser feito com muito cuidado.

 

Vijantes exploram o parquet além dos limites | Foto por Thiago David

Viajantes exploram o parque além dos limites | Foto por Thiago David

 

Aos poucos a paisagem vai mudando, e o que antes era uma mata fechada vai abrindo e se enchendo de pedras. A trilha começa a ficar um pouco mais cansativa pois a subida é cada vez maior, mas a companhia do rio ao lado faz com que seja possível muitas vezes encher a garrafa com água pura e fria para se refrescar. Na metade do caminho também existe uma pequena bica d’água aos que não gostam de se abaixar à margem do rio. Com o tempo, as pedras e cachoeiras tomam todo o trajeto, até que se atinge o Circo de Soaso.

 

O final da caminhada é também o mais impressionante ponto do parque. O Circo é um grande vale com vegetação baixa onde corre um rio, e é possível avistar diversas nascentes de água nos arredores em meio ao verde. As montanhas nas laterais são em parte rochosas e às vezes com árvores e cachoeiras aparentes, e quando ainda é o fim do inverno é possível ver ao fundo uma grande montanha com o cume nevado, logo atrás da última grande cachoeira da trilha.

 

Quem tem conhecimento de escalada pode seguir o caminho até o refúgio de Góriz (recomenda-se fazer uma reserva no site), onde é possível dormir e continuar a trilha no dia seguinte para a subida ao Monte Perdido.

 

Onde ficar

 

Para quem prefere ficar hospedado na cidade, os hotéis mais simples têm preços que variam de €40 a €100 por noite na alta temporada (de junho a setembro), mas em outras épocas do ano é possível encontrar preços melhores. Vale lembrar que a visita à região durante o inverno pode não ser tão proveitosa já que a neve dificulta a caminhada na trilha, e que entre dezembro e fevereiro os dias são menores e tende a escurecer por volta das 16hs, ao contrário do verão, quando é possível caminhar com sol até perto das 21h, e fazer os passeios com mais calma.

 

Campings

 

As opções mais baratas de hospedagem estão fora da cidade, espalhadas por campings nas estradas que levam ao parque. Os principais possuem banheiros compartilhados com chuveiro, além de um pequeno restaurante caso a comida levada não seja suficiente.

 

Preços

 

Por pessoa: €4,50

Por barraca: €4,50 (barraca pequena) ou €5,20 (barraca grande)

Carro: €4,50

Refúgio: €28 (para duas pessoas) até €65 (para 5 pessoas)

 

Principais campings:

 

San Antón: O mais simples da região, mas vale por fazer tarifas especiais em algumas épocas do ano, além de ficar muito próximo ao parque, sendo possível caminhar até a entrada.

 

Valle de Bujaruelo: Com preços similares ao San Antón, o Valle de Bujuarelo tem uma grande área para barracas, banheiros mais completos, e uma incrível vista tanto do camping quanto na pequena estrada que o leva ao parque.

 

Ordesa: É o mais completo dos três, com mais opções de entretenimento. Os preços são um pouco mais altos na alta temporada, mas aos que fazem a visita no verão e acabam descansando um dia no camping, é uma boa opção por ter piscina e um bom restaurante.

 

Distâncias e como chegar

 

  • Zaragoza: 164km – saindo da cidade, pegar a N-330 sentido França, e depois a N-260 em direção a Torla.
  • Lleida: 163km – pegar a A-22, depois a saída 51 para a N-123 e continuar até a N-260 sentido Torla.
  • Barcelona: 323km – saindo de Barcelona pegar a A-2 até Lleida, seguindo pela A-22 até a saída 51 para a N-123 e continuar à N-260 sentido Torla.
  • Madrid: 473km – pegar a E-90 até Zaragoza, depois a N-330 sentido França, e a N-260 em direção a Torla.

 

Para fazer a viagem de trem é possível sair das principais cidades pegando a linha da RENFE até a estação Sabiñánigo, e de lá pegar a linha HUDEBUS até Torla.