Católicos x protestantes: qual a origem do conflito?

"Você está entrando em território protestante": grafite nas ruas de Belfast | Foto GeorgeLouis (CC BY-SA 3.0)

“Você está entrando em território protestante”: grafite nas ruas de Belfast | Foto GeorgeLouis (CC BY-SA 3.0)

 

Por Henrique Kugler

 

“Era uma colorida loja de flores em Belfast”, disse-me Joy, uma amiga irlandesa. “Minha mãe, aos prantos, queria comprar rosas brancas para o enterro de minha avó, falecida na noite anterior”. Elas selecionaram algumas flores. E, momentos antes do pagamento, o dono da loja lançaria uma pergunta aparentemente inocente: ele queria saber em que bairro acontecia o enterro.

 

E, quando sua mãe respondeu que o velório era numa área católica da cidade, a reação do comerciante foi devastadora: “Desculpe, senhora, a loja acabou de fechar e não posso mais vender essas flores. Tenha um bom dia”.

 

Pensei se tratar de um episódio dos tempos passados – década de 1970, ou década de 1980 quem sabe. “Nada disso”, corrigiu-me minha amiga. O episódio aconteceu em 2012. E ilustra bem o inacreditável clima de animosidade que ainda existe entre católicos e protestantes em Belfast.

 

É bem verdade que a matança indiscriminada, e as copiosas doses de sangue derramadas em nome de um sectarismo anacrônico, já não acontecem mais. “Entretanto, acho que ainda teremos de esperar o tempo de três gerações para que cheguemos a um ponto de convivência genuinamente pacífica e harmônica entre católicos e protestantes”, disse-me Eugene, veterano taxista da capital.

 

De fato, ainda hoje o clima é tenso em certas regiões da cidade. Há zonas neutras – como o centro – onde Belfast até consegue disfarçar ser uma cidade como outra qualquer. Mas em muitos bairros você verá bandeiras que ainda sinalizam uma territorialização político-religiosa.

 

Bandeiras do Reino Unido serão onipresentes em bairros protestantes e bandeiras da Irlanda indicarão que você caminha por bandas católicas. Há variantes: em certos locais, em vez de pendurarem bandeiras nacionais, o pessoal usa símbolos e bandeiras de grupos paramilitares ou facções radicais que ainda vagam no submundo da capital da Irlanda do Norte.

 

Mas, afinal, que história é essa? Por que houve, e ainda há, tanta confusão entre essas duas tradições religiosas na Irlanda do Norte? A história é meio biruta – e deveras complexa para caber nas linhas desse modesto relato. Mas arrisco aqui um singelo resumo. E que me perdoem os historiadores.

 

Prelúdio do conflito

A treta entre católicos e protestantes é antiga pacas. Vejamos. O catolicismo na Irlanda foi introduzido no século 4, quando, reza a lenda, Saint Patrick batizou seu primeiro discípulo por aquelas bandas. Tudo corria bem. Até que, pelos idos do século 17, os britânicos resolveram brincar de colonialismo e subjugaram a Irlanda ao regime imperial. É claro que isso não poderia dar certo.

 

A relação entre irlandeses e britânicos passou a ser tão traumática quanto possível. E um cara que personificou bem esse espírito foi o infame Oliver Cromwell (1599-1658), oficial inglês osso-duro-de-roer que, em seu tempo de vida, tocou o horror por toda a Irlanda. Incendiou igrejas católicas; destruiu escolas católicas; mandou chumbo do grosso em vilarejos católicos; não economizou esforços para varrer do mapa tudo que tivesse a ver com o catolicismo.

 

O legado de Cromwell foi a mais ‘refinada’ expressão da arrogante postura britânica diante do território irlandês. Isso gerou duas coisas. Primeiro, é claro, o império britânico passou a ser odiado pelos irlandeses. Segundo, tal regime de opressão teve como efeito colateral um grande sentimento de unidade, de pertencimento, de solidariedade entre as comunidades católicas oprimidas pelo regime imperial. Era o coro dos marginalizados.

 

Aliás, foi conhecendo essa história que finalmente entendi o significado de uma antiga canção irlandesa de que gosto muito, chamada I courted a wee girl. A certa altura, diz a letra:

 

The man she is wed to has houses and land

He may have her since I couldn’t gain her

 

Não é uma estrofe inocente. O pobre coitado chora as mágoas de seu coração partido – afinal, o sujeito com quem sua amada se casou tinha “casas e terras”. E isso explica por que esses versos são tão poderosos.

 

Em tempos de domínio britânico, os irlandeses católicos tiveram seus direitos aniquilados. Passaram a ser considerados cidadãos de segunda categoria. E, entre inúmeras privações, sequer podiam adquirir “casas e terras”. Esse direito fundamental era de fato proibido, mesmo se o cara tivesse dinheiro.

 

Ao longo dos séculos, o clima de animosidade foi fermentando. Muitas águas rolaram. E com as crescentes tensões políticas entre a coroa britânica e os irlandeses – que no plano religioso se materializava no conflito entre protestantes e católicos –, estariam plantadas as sementes da segregação.

 

Essas sementes germinariam com o passar do tempo e, de certa forma, ainda germinam nos dias de hoje. Muitos protestantes ainda odeiam católicos – e vice-versa. Em plenas luzes do século 21, o recrudescimento desse sectarismo atingiu suas dimensões mais sangrentas. Mas por que diabos isso aconteceu?

 

The troubles

Foi em 1916 que a Irlanda conquistou sua independência do Reino Unido. Nessa altura do campeonato, a ilha era um país, digamos, unificado. Mas na região norte do território inglês vivia uma turma que, em sua maioria, era cultural e politicamente alinhada ao regime britânico – esses grupos ficaram conhecidos como unionists ou loyalists, termos icônicos que marcam a história irlandesa.

 

Após uma espécie de referendo, a turma local votou majoritariamente para que a região continuasse sob a batuta do Reino Unido. E assim foi feito. Em 1920, o território irlandês foi dividido: ao norte, a recém-criada Irlanda do Norte; e, ao sul, a República da Irlanda.

 

O grande lance foi que, na Irlanda do Norte, os unionists e loyalists ficaram com hegemonia do poder político. Eram maioria. E eram protestantes. Para as minorias católicas que lá viviam, no entanto, essa ideia de fazer parte do Reino Unido nunca desceu muito bem. Católicos queriam uma Irlanda livre e unificada.

 

E aqui a história parece se repetir: aquelas minorias católicas continuaram a ser marginalizadas e discriminadas – como foram ao longo de boa parte da história irlandesa durante os últimos três séculos. Essa discriminação, na prática, significava que católicos se ferravam para conseguir boa educação, bons trabalhos, boas condições de vida.

 

Até que um dia eles ficaram de saco cheio. E, em várias cidades da Irlanda do Norte, protestavam por igualdade e justiça. O ano de 1968 é considerado, pela maioria dos historiadores, como o início do período em que a coisa realmente esquentou.

 

Uma das mais marcantes manifestações aconteceu em 20 de janeiro de 1972. Foi nas ruas de Londonderry, não muito longe de Belfast, onde mais de dez mil pessoas se reuniram em nome dos direitos civis. Foi um notório domingo. Um domingo que ficou conhecido, nas páginas da história, como o domingo sangrento – ou, em inglês, o famoso bloody Sunday.

 

Os manifestantes foram duramente reprimidos pelo exército britânico – que não economizou munição e não pareceu muito sensível às causas pelas quais aquele pessoal protestava. E, ao tentar botar ordem na casa, os militares desceram a borracha na galera. Terminaram por assassinar 13 manifestantes – deixando feridos mais de uma dúzia de outros. O episódio se imortalizou na cultura popular com a música do U2, Sunday bloody Sunday, lançada em 1983.

 

 

Tais protestos não despertaram somente truculência policial. Despertaram também a ira dos unionists e loyalists – que não perderam tempo em responder aos levantes com mais violência e mais sangue por toda a Irlanda do Norte. Explodiram carros, incendiaram casas católicas, mandaram bala na moçada, tocaram o horror geral.

 

Então você deve estar pensando: “Nossa, esses protestantes eram terríveis, hein?”. Correto. Mas não pense que a violência gratuita era apenas de um lado. Como disse minha amiga Joy, “a postura de ambos era igualmente repulsiva ao longo das décadas do conflito”. A Irlanda do Norte vivia tempos de hostilidade generalizada.

 

Foi nesse contexto que o mundo testemunhou a ascensão e o protagonismo de tantos grupos paramilitares e ‘terroristas’ dos quais você com certeza já ouviu falar. O mais emblemático deles foi o Irish Republican Army, o famoso IRA.

 

Homenagem às vítimas do Ataque do Bayardo Bar, em Belfast, 1975 | Foto Zizo Asnis

Homenagem às vítimas do Ataque do Bayardo Bar, em Belfast, 1975 | Foto Zizo Asnis

 

Não foi por acaso que Belfast, entre os anos de 1968 e 1998, acabou levando a alcunha de capital europeia do terrorismo. Foi, de fato, considerada uma das cidades mais perigosas do mundo por aqueles tempos. Esse período, no linguajar local, ficou conhecido como the troubles. Ou, traduzindo toscamente, “a rixa”, “a treta”, ou, numa interpretação mais literal, simplesmente “os problemas”.

 

Ao todo, mais de 3.500 pessoas morreram. Os ânimos só começaram a se arrefecer no ano de 1998, com o chamado Good Friday agreement. Foi um acordo entre os grupos paramilitares de ambos os lados; e os governos da Irlanda do Norte, da República da Irlanda e do Reino Unido.

 

De lá para cá, a situação melhorou? Sem dúvida. Mas, na realidade, um azedo ranço de ódio e segregação ainda perdura, infelizmente, na sociedade irlandesa.

 

Curiosidades do conflito em Belfast

Curiosidade 1: Num dos murais de Belfast, nas proximidades da Shankill Road, há a imagem de um líder paramilitar protestante cujo retrato está circundado por 18 flores vermelhas. “Cada flor simboliza um católico que este senhor matou”, disse-me Eugene, o taxista a quem me referi anteriormente.

 

 | Foto washingtonydc (CC BY-NC-SA 2.0)

Mural em Shankill Road presta homenagem a Stevie Topgun | Foto washingtonydc (CC BY-NC-SA 2.0)

 

Conta-se que aquele cara, quando em ação, tinha uma sinistra marca registrada. Um estilo particular. Ele se aproximava de sua vítima, já morta, e disparava quatro tiros no rosto do cadáver. Motivo: arruinar o velório. Nos funerais católicos, é muito comum que o caixão esteja aberto – para que amigos e familiares vejam, pela última vez, o rosto de quem está a partir.

 

Pois bem, acredite, quatro tiros na face são mais que suficientes para desfigurar a aparência de qualquer vítima. Esse era o objetivo do amável camarada pintado, com ares de louvor e heroísmo, naquelas paredes infames. Causou-me irremediável embrulho no estômago saber que, entre os protestantes que vivem naquela área, muitos ainda o reverenciam como um herói.

 

Curiosidade 2: Pelos muros de Belfast, não é difícil encontrar grafites com o acrônimo KAT. A sigla significa “kill all taigs“, sendo que taigs é um termo derrogatório usado para se referir a católicos na Irlanda. Há, ainda, uma variante singela dessa mesma mensagem: KAT ATAT. Quer dizer “kill all taigs; all taigs are targets“. Em bom português, algo como “matem todos os católicos; todos os católicos são alvos”. Quem me ‘traduziu’ essa peça da cultura local foi o próprio Eugene – ele é católico.

 

KAT, detalhe na pichação que não passa mais despercebido | Foto Henrique Kugler

KAT, detalhe na pichação que não passa mais despercebido | Foto Henrique Kugler

 

Acontece que, pelas ruas dos bairros próximos, era comum encontrar também grafites com a sigla KAH. Que significaria isso? Eugene não mencionou nada a respeito. Mas, dando uma pesquisada depois na internet, descobri que se trata de uma mensagem tão amável quanto. O tal KAH é uma abreviação de “kill all huns“. E huns, como é de se suspeitar, é um termo pejorativo para se referir aos protestantes.

 

Dica: Uma visita a Belfast é, sem dúvida, a melhor maneira de se entender toda essa treta – que encharcou de sangue as páginas da história britânica do século 20. A forma mais interessante para se mergulhar nessa inquietante história são os icônicos Black Cab Tours. São taxistas da velha guarda que, naqueles estilosos táxis pretos, te levam por um rolê na cidade enquanto narram, à sua maneira, os detalhes da ‘quase guerra’ que dividiu o país por tantas décadas.

 

Para saber mais, confira o post sobre os Black Cab Tours, um dos programas mais procurados por viajantes ávidos em entender a história do conflito norte-irlandês.