A Escalada – Pico das Agulhas Negras

Foto: Daniel Carnielli

 

Por Daniel Carnielli

 

Quase zero grau. Levantar da cama às cinco da manhã é um desafio quando se está hospedado em um confortável chalé aos fundos da parte alta do Parque Nacional de Itatiaia. Mas o clima aconchegante não desviará o foco do que foi tanto tempo aguardado: subir o sexto ponto mais alto do Brasil, o imponente Pico das Agulhas Negras, em Minas Gerais.

 

O acesso a esta parte do parque se dá por um pequeno ponto no mapa chamado Garganta do Registro. Na realidade a entrada fica após uns 17km de terra pela BR-354, estrada que começa no pequeno comércio e marco na intersecção entre os estados de Minas e Rio de Janeiro.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Café da manhã reforçado – calorias nunca foram tão bem-vindas como agora. Mochila verificada, luvas, cordas, mosquetões, boldrié, botas apropriadas, kit de primeiros socorros, comida, água etc. Tudo pronto.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Do trajeto da Pousada dos Lírios até a entrada do parque somente veículos apropriados ou motoristas desprendidos fazem o percurso com tranquilidade. Os demais sofrem com a curta e íngreme estrada de terra e pedras por cerca de 10 quilômetros. Já na portaria, os guardas verificam a aptidão de cada um com um breve questionário e checam item a item do equipamento necessário. Tudo aprovado, vamos seguir.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Com o veículo apropriado é possível seguir de carro até o conhecido abrigo Rebouças. O caminho é curto, porém, as pedras impedem que qualquer carro comum chegue. O abrigo, que se localiza num ponto estratégico no início da trilha, foi construído em conjunto com o exército do batalhão dos Agulhas Negras de Itatiaia, que fica na parte baixa do parque. Quem quiser dormir por aqui, seja no abrigo ou no camping, precisa antes fazer sua reserva e pagar a taxa de acesso na portaria do parque. As vagas para ambos são bem limitadas, de forma a evitar grandes aglomerações, então não deixe a reserva para a última hora. O abrigo é incrível, parece um hostel de montanha com até chuveiro, mas pode esquecer do banho quente. O camping possui chão plano, banheiro completo e cozinha.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Sair cedo para fazer a trilha é muito importante porque a montanha possui diversos trechos complicados no trajeto que podem, ocasionalmente, atrasar a programação. Um destes, fica logo no início desta trilha, que apesar das enormes pedras colocadas pelo exército para auxiliar no caminho, é uma região de encharco que comumente fica alagada. E isso, além de atrasar o passeio, pode prejudicar toda a subida.

 

Até a chegada aos pés da montanha encontram-se algumas pontes pênsil, muito fotogênicas, e também um pequeno dique que acumula a pura água de uma das nascentes da montanha. Ficar atento à sinalização é essencial. Em alguns trechos há bifurcações que têm como destino final diferentes rotas de subida, com maior ou menor grau dificuldade, e também outros locais, como a cachoeira Aiuruoca. Se perder na região não é uma boa ideia, pois o frio chega intenso à noite e mesmo a rota mais “simples” requer equipamento e condutores capacitados.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

De cara, a subida assusta. A primeira parte já parece impossível de superar com facilidade. É preciso subir um paredão de rochas escuras se apoiando com as mãos nos vincos rochosos e o vento é muito forte. Íngreme e longa, esta subida requer calma, foco e cuidado em cada passo.

 

Na sequência, a subida pelos vincos é interrompida por um trajeto bem mais complicado. Neste trecho, o mais experiente faz uma “escalada guiada”, onde ele avança por cima de uma pedra utilizando os grampos já instalados no local. Estes pontos de escalada guiada, ou ancoragem, são muito comuns nos locais mais visitados. Em seguida este escalador desce uma corda fixa para os demais também subirem. Dependendo do grupo, também é possível que os outros escaladores sejam puxados pelo primeiro a subir.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Não estamos no cume e o visual já é impressionante. A montanha nos presenteia com um vale escondido a cada metro superado. É impossível não notar que estamos escalando uma montanha, os vincos e a inclinação da rocha ficam cada vez mais íngremes e profundos, como se estivesse nos avisando “Você está entrando no Agulhas Negras”. O nome, inclusive, se dá justamente pelas rochas escuras, que com seus enormes vincos verticais que dão a impressão de serem agulhas negras fincadas no solo quando vistas de longe.

 

A dificuldade cresce na trilha de grandes rochas que leva até quase a “ponta destas agulhas”. Mais à frente é preciso subir por outra trilha que fica em uma fenda estreita e alta até encontrar uma pedra grande e plana. Dali, o visual maravilhoso dá acesso aos dois lados da montanha. No entanto, ainda não é o topo.

 

O próximo desafio é subir à espreita de uma rocha. Qualquer deslize e a queda é fatal. Ainda assim é comum ver “aventureiros” irresponsáveis atravessando sem qualquer equipamento.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

A emoção toma conta. Falta pouco até o ápice da montanha. Mais um caminho de rochas grandes e ali está o cume do Agulhas Negras.

 

Desafio concluído! Desta vez, por mim e mais seis amigos aventureiros. Agora somos parte de um seleto grupo pessoas que já esteve em um dos dez pontos mais altos do Brasil, na verdade o quinto! Seus imponentes 2794 metros de altitude dão notoriedade e documentam sua importância em nossa geografia. Porém, é a peculiaridade e beleza desta região que engrandecem a experiência de explorá-la.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Pode chorar, pode admirar, pode agradecer, é momento de celebrar! E comer rapidamente o lanche para começar a voltar, antes que o tempo mude. Subir foi um desafio no seco, mas descer centenas de metros em rochas íngremes e molhadas é o tipo de coisa que verdadeiros aventureiros querem evitar.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

A escalada, ao contrário do que muitos pensam, não é estar 100% do tempo ancorado em uma parede de pedra. É determinar um desafio, fazer o que for necessário para chegar ao cume e voltar com segurança.

 

De todas as montanhas que já subi, esta é uma das que mais me encanta por sua imponência, beleza e aprendizado. De seu cume, somos lembrados a todo instante o quanto a natureza e nossos limites individuais precisam ser respeitados. É a montanha que controla a escalada, não nós.

 

Foto: Daniel Carnielli

 

Como chegar:

 

Estrada do Parque Nacional, Km 8,5, Itatiaia – RJ, 27580-000
A subida deve ser programada para que a partida da entrada aconteça antes das 7h30. Há limite de pessoas no cume, então dias mais movimentados é bom chegar mais cedo.

 

Quando visitar:

 

De abril a novembro são as melhores épocas, sendo que de maio a agosto é a temporada de inverno, no local é comum ter temperaturas próximas e abaixo de 0 graus desde o entardecer até a manhã seguinte. Então escolha com sabedoria e prepare-se.

 

Evite de novembro a março. Este período é o de chuvas e as chances de ter o passeio frustrado pelo mau tempo é grande.

 

Com quem ir:

 

Na portaria, também conhecida como Posto do Marcão. É comum encontrar guias dispostos a agregar a grupos para os passeios. Verifique também no Guia do Visitante a lista de condutores autorizados.

 

Taxas e outras informações:

 

ICM Bio – Parque Nacional de Itatiaia
Guia do Visitante

 

Colaboração: Lais Tellini (MTB 65307SP)