5 cidades para ver arte urbana

Arte urbana em Praga, na República Tcheca | Por Mathias Boni

Arte urbana em Praga, na República Tcheca | Por Mathias Boni

 

Por Mathias Boni

 

Como a arte interage com a metrópole? Se as cidades estão todas riscadas e desenhadas, o que será que estão querendo dizer, afinal? A arte urbana no mundo inteiro vem ganhando cada vez mais o reconhecimento que merece, como uma expressão artística que causa a pausa para a reflexão no acelerado ambiente urbano.

 

A cidade é um organismo vivo, em que paixão, sonhos, frustrações e indignações transitam pelas ruas dia e noite no interior de seus dessemelhantes habitantes, que vão acumulando esses sentimentos no singrar do seu fluxo cotidiano, até que a necessidade de expressá-los  extrapola.

 

O resultado acontece nas mais variadas formas de grafites, poemas e pinturas. E onde mais isso poderia ser feito, senão na própria rua? Foi onde a arte urbana nasceu e também onde estará acessível para todos, podendo ser apreciada por qualquer um que ali passe. Além disso, pode ser feita por qualquer interessado criativo que desejar deixar alguma mensagem para os passantes.

 

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Na Europa, cidades como Londres, Berlim, Amsterdã e Paris, além de serem grandes centros turísticos, são também referências globais em arte urbana. Afora estes lugares tradicionalmente conhecidos e visitados, existem outras cidades espalhadas pelo Velho Continente que também se destacam neste segmento artístico. Abaixo, há cinco delas que, de maneiras diferentes, também merecem atenção:

 

1) Bergen, Noruega

Por Mathias Boni

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A cidade norueguesa é normalmente conhecida pelos viajantes por dois motivos: o primeiro, ser a cidade “porta de entrada” para visitar os famosos fiordes noruegueses. O segundo, ser a cidade “mais chuvosa” da Europa. Os fiordes são realmente impressionantes, e a chuva, de fato, se faz bastante presente, mas nem incomoda tanto assim, praticamente faz parte da paisagem.

 

Contudo, Bergen tem muito mais a oferecer a seus visitantes. Entre suas inúmeras vielas e becos, esconde uma atmosfera única de cultura urbana contemporânea, com grande presença da música eletrônica e das artes visuais.

 

Por Mathias Boni

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O sucesso dos músicos locais no final dos anos 1990 ficou conhecido como BergenWave, e esse movimento impulsionou a cena cultural da cidade como um todo, o que também resultou na proliferação da grande quantidade de grafites e stencils que hoje marcam a cidade.

 

O famoso artista inglês Banksy, inclusive, passou uma temporada por lá em 2000, onde deixou registros pelas ruas e, principalmente, uma grande influência. Dolk é um dos principais artistas urbanos de Bergen atualmente, e a influência que os trabalhos de Banksy têm em sua obra é clara.

 

Por Mathias Boni

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Outro artista local de destaque é Yatzy, que começou fotografando as obras nas ruas, antes de começar a deixar os seus próprios registros nos muros. Assim, Bergen convive muito harmoniosamente com todas as manifestações artísticas que abriga, contribuindo de maneira decisiva para colorir a paisagem cinzenta que o clima chuvoso causa na cidade.

 

2) Belgrado, Sérvia

Foto por Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

Não podemos ressaltar um local em Belgrado em que a arte de rua apareça mais, uma vez que está presente simplesmente em todo lugar. Todas as pontes, fachadas de prédios abandonados, portas de garagem e escadarias pela da cidade são tomadas por inúmeras manifestações de uma geração que não achou outro lugar mais apropriado para se expressar do que a rua.

 

A mesma rua que também dá espaço ainda hoje aos prédios bombardeados pela OTAN em 1999, evento que praticamente encerrou uma década de sangrentos conflitos na região dos Balcãs – muitos deles causados pelos próprios sérvios.

 

Por Mathias Boni

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Após a morte do presidente Josip Tito e o declínio do socialismo nos anos 1980, a Iugoslávia começou a se desmantelar, com algumas de suas repúblicas reivindicando sua independência. A Sérvia, sob comando do sanguinário Slobodan Milosevic, desejando manter seu poder como potência central da região, se opôs aos movimentos de independência incipientes.

 

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O governo apoiou os muitos sérvios que viviam em cada uma destas repúblicas a se rebelarem contra os novos Estados que tentavam se consolidar, e o resultado foi uma década de guerras civis, massacres e conflitos que ficaram internacionalmente conhecidos, mais notadamente as guerras da Croácia, Bósnia e Kosovo.

 

Belgrado 2

Por Mathias Boni

 

Os jovens que não encontravam amparo na retórica nacionalista e belicosa dos políticos sérvios e eram contra as guerras que seu país empreendeu na região, entre as décadas de 1980 e 1990, muitas vezes sofriam repressão interna – e a arte urbana foi uma expressão fundamental de resistência anti-guerra neste período.

 

Hoje, anos depois das guerras com seus vizinhos e com a situação relativamente estável na região, a arte urbana em Belgrado está completamente inserida no cotidiano da cidade, e continua sendo um forte artifício de protestos políticos e reivindicações sociais.

 

3) Praga, República Tcheca

Por Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

A belíssima capital da República Tcheca é conhecida como um dos grandes centros culturais da Europa, palco de manifestações artísticas de alta relevância em áreas como literatura, música clássica, jazz e tantas outras. A Pérola do Oriente hoje é um dos destinos mais procurados no Velho Continente por turistas do mundo inteiro, até pelo seu preço significativamente mais barato em relação às outras grandes cidades europeias mais a oeste.

 

Para quem anda por Praga hoje em dia é difícil imaginar que a cidade ficou praticamente intocada pelos turistas até a Revolução de Veludo, em 1989, que pacificamente pôs fim ao governo comunista no país – e por isso leva esse nome.

 

Por Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

E foi justamente nos anos 1980 que surgiu na cidade talvez o seu principal ponto de referência em arte urbana: o John Lennon Wall. O muro começou a receber inserções com letras de música e poemas do cantor logo após a sua morte e, desde então, foi sendo completamente tomado por inúmeras manifestações pregando a paz e a tolerância entre as pessoas.

 

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No final de 2014, em uma celebração ao 25º aniversário da Revolução de Veludo, o muro teve toda sua parede pintada de branco por jovens artistas, com o objetivo de abrir espaço para as mensagens das novas gerações. A arte urbana é também outro motivo para não deixar de visitar Praga quando tiver a chance– como se ainda precisasse de mais um.

 

4) Copenhague, Dinamarca

Por Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

Copenhague é um lugar fascinante. Elegante, organizada e modelo de desenvolvimento sustentável, a capital dinamarquesa é um perfeito exemplo de cidade escandinava – inclusive no alto preço. É uma grande referência quanto às inovações estruturais que faz ao repensar o seu espaço urbano, sendo sua política cicloviária uma conhecida prova disso.

 

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A arte urbana também está muito presente no cotidiano dos habitantes; além dos tradicionais grafites e stencils pelas paredes, durante o verão as pessoas também podem conferir uma já habitual exposição que apresenta arte na forma de castelos de areia. O Copenhagen International Sand Sculpture Festival ocorre periodicamente, sempre com obras ligadas à preservação ambiental e à relação do ser humano com o planeta.

 

Copenhague - arte urbana - Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

Quanto às próprias relações humanas, Copenhague abriga em suas ruas um experimento fantástico, que também se relaciona muito com a arte, Christiania. Conhecida também como Freetown, essa comunidade autogestionada surgiu em 1971, numa área até então de uso militar, ao ser ocupada por diversos habitantes descontentes com as leis e os valores imobiliários vigentes na época.

 

Hoje, Christiania conta com cerca de 850 moradores permanentes, dentre os quais muitos artistas, o que garante intensa atividade cultural no local. Regulado por lei especial, o lugar conhecido pelo comércio legal de maconha, fator que também acaba atraindo muitos turistas para cá.

 

Entrada de Christiania | Por Mathias Boni

Entrada de Christiania | Por Mathias Boni

 

Apesar de haver muitos belos trabalhos em sua parte interna, é terminantemente proibido tirar fotos aqui dentro, os moradores abordam os turistas diretamente para não o fazer, inclusive pegando câmeras e telefones das suas mãos. Talvez seja justamente por isso que a imagem do seu pórtico de entrada seja tão conhecida.

 

5) Liubliana, Eslovênia

Por Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

A charmosa capital da Eslovênia começa a ser aos poucos descoberta pelos viajantes. Muitos apenas a utilizam como parada para visitar a belíssima Bled, mas Liubliana guarda um espírito único, alternativo e um pouco pitoresco, que a diferencia de todos os outros lugares, e definitivamente vale a visita por si só.

 

A arte urbana está presente por toda cidade; há grafites, desenhos e mensagens espalhadas por todos os lugares onde o olhar alcança. Nas ruas, pequenos guarda-chuvas e pares de tênis pendurados pelos cadarços nos fios dos postes dão o tom do passeio pelo centro. Mas quando se fala de arte em Liubliana, há um lugar que é referência não apenas local, mas em todo continente europeu: Metelkova Mesto.

 

Por Mathias Boni

Por Mathias Boni

 

Metelkova é uma comunidade que exala arte por todos os lados, e está localizada em um antigo alojamento militar abandonado em 1989, que foi ocupado em 1993. Desde 1989 a comunidade local desejava dar uma finalidade cultural para toda aquela estrutura, mas como o governo local nunca deu a atenção devida aos pedidos e planejava demolir os prédios, os artistas resolveram eles mesmos ocuparem o lugar definitivamente.

 

Com o apoio da comunidade, os governantes, mesmo torcendo o nariz, tiveram que tolerar o movimento. As pinturas e esculturas estão nas paredes das casas, nos muros dos bares e no meio da rua. Durante o dia, artistas movimentam ateliês, salas de música e outros espaços culturais, e, à noite, os bares garantem atividade intensa. Em 2006, Metelkova foi finalmente declarada Patrimônio Cultural da Eslovênia, o que consolidou definitivamente o lugar dessa especial comunidade no país e na Europa.

 

Por Mathias Boni

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