O Vale do Café e suas fazendas históricas

| Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

Fazenda Cachoeira Grande | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

Por Bruna Cazzolato Ribeiro

 

O estado do Rio de Janeiro mantém parte da nossa história em suas terras. Apesar de Petrópolis ser o destino mais popular entre os viajantes, é em outros cantos da Serra Fluminense que os visitantes podem conhecer a história da época áurea cafeeira, no chamado Vale do Café.

 

No século XIX, a estrada da Polícia foi construída, ligando os estados de Minas Gerais e Rio Janeiro, com o objetivo de escoar a produção cafeeira do interior do país ao porto da cidade do Rio de Janeiro. Muitas fazendas da região aproveitaram esse momento e, assim, iniciaram a cultura cafeeira. Hoje é possível conhecer parte desta história no Vale do Café, região que compreende, entre outros municípios, Vassouras, Valença e Rio das Flores. O triângulo das cidades fluminenses apresenta exemplos do que foi um dia cotidiano e hoje virou nossa história.

 

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Vassouras pode ser uma boa escolha como base de visitação às fazendas localizadas na região. Espalhadas entre os quilômetros que separam Vassouras, Valença e Rio das Flores, a maioria das fazendas está escondidas nas pequenas estradas vicinais. Para visitá-las é necessário agendamento prévio e os próprios hotéis podem ajudar nessas reservas.

 

Não existe consenso sobre a quantidade exata de fazendas nesta área, uma vez que ainda engloba Barra do Piraí, Paty dos Alferes e também Barra Mansa. Segundo a organização Preservale são 27 fazendas localizadas nos seis municípios citados. Neste cantinho do Rio onde é possível desvendar parte da história brasileira, separamos aqui quatro fazendas que valem a visita.

 

Cachoeira Grande

Entrada da Fazenda Cachoeira Grande | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

Entrada da Fazenda Cachoeira Grande | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

Uma boa escolha para começar seu passeio é pela fazenda Cachoeira Grande, localizada na Estrada Vassouras-Mendes (RJ-127), antiga residência do Barão de Vassouras. Em 1820, o menino prodígio Francisco José Teixeira Leite, de 16 anos, veio à região para trabalhar na estrada da Polícia e recebeu como dote de casamento a fazenda. Depois da abolição da escravatura, em 1888, o local ficou em ruínas, houve saques e a deterioração do tempo arruinou os móveis originais. O lado positivo é que a atual família reformou cuidadosamente a casa e decorou os aposentos com móveis de época.

 

Móvel pertenceu à escritora Cecília Meirelles | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

Móvel pertenceu à escritora Cecília Meirelles | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

Durante um papo com o atual proprietáriodescobrimos, no meio da sala, um móvel que pertenceu a Dom Pedro II, além de conhecermos detalhes de um cardápio de 1884 de um jantar oferecido à Princesa Isabel. O ponto mais impressionante é que foi servido sorvete à princesa, algo difícil de encontrar em uma época em que não havia geladeira – no passeio é possível descobrir como o gelo chegou por aqui.  Não deixe de reparar que a construção da casa tem o formato de um T, de Teixeira, em alusão ao sobrenome do barão.

 

Santa Eufrásia

Fazenda Santa Eufrásia - Bruna Cazzolato Ribeiro

Fazenda Santa Eufrásia, na estrada Vassouras-Mendes | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

A fazenda Santa Eufrásia possui sua propriedade na beira da Rodovia Lúcio Meira (BR-393) no sentido Barra do Piraí e é a única da região tombada como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Triste constatar a realidade de que é a menos conservada, mas não por isso a menos interessante.

 

Infelizmente pouco se sabe da fazenda na época áurea do café, uma vez que a atual família, ao adquirir a propriedade, preferiu investir em gado (eles trouxeram gado zebu da Índia!). O local é muito arborizado e suas grandiosas árvores emolduram uma singela paisagem para aquela fazenda de paredes brancas.

 

Mulungu Vermelho

Clima bucólico na entrada da Fazenda Mulungu Vermelho | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

Clima bucólico na entrada da Fazenda Mulungu Vermelho | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

Mulungu Vermelho é uma fazenda como assistimos em filmes: paredes brancas com janelas azuis. Ao conversar com a anfitriã, ela explica que a área de terra era muito maior e pertencia à família de imponência, mas após a queda do café, houve uma separação de bens entre seus membros. Ela adquiriu esta área da propriedade e explica que o nome faz referência a uma flor vermelha presente no terreno.  A surpresa está na parte debaixo da casa datada de 1831: uma parte da antiga senzala ainda mostra a construção em pau a pique e o que possivelmente seria uma área de castigo. A fazenda está localizada na Rodovia RJ 121, no bairro de Bingue, em Vassouras.

 

Fazenda do Paraizo

Fachada da Fazenda Paraizo | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

Fachada da Fazenda do Paraizo | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

Ao norte do estado, próximo a Minas Gerais, localiza-se o município de Rio das Flores. Para chegar à Fazenda do Paraizo, a próxima parada, é necessário dirigir pela rodovia RJ-145 que resguarda ainda mais história em seu trajeto. Foi ali em Rio das Flores, por exemplo, que descobrimos ser o local de batismo de Santos Dumont. A fazenda Paraizo (grafia com Z) mantém construção e decoração original da época de sua fundação, em 1845.

 

A fazenda está na beira da rodovia e logo é possível ver o corredor de palmeiras imperiais. Já no início do passeio há quem reconheça suas instalações de cenários de novelas ou filmes – o filme Através da Sombra (lançado em dezembro de 2015) foi gravado no local.

 

Área original destinada à secagem do cafe | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

Área original destinada à secagem do cafe | Foto Bruna Cazzolato Ribeiro

 

Não é possível fotografar o interior da fazenda, mas sua casa possui detalhes como pinturas nas paredes e retratos originais; fique atento à pintura “Bahia de Guanabara” de José Maria Vilaronga na sala de jantar. Durante o passeio, os caminhos vão sendo percorridos com riqueza de detalhes tanto nos ornamentos quanto na história.

 

Seguindo pela estrada rumo a Petrópolis, descobre-se ainda mais fazendas. O caminho percorre o Rio Negro que separa os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma paisagem onde natureza e história começam a apresentar um cenário novo de uma época quase esquecida. E somos nós os desbravadores deste mundo desconhecido. Boa viagem!

 

Como chegar


A cidade mais conhecida no Vale do Café é Vassouras, que está a 55 km de Volta Redonda e 123 km da cidade do Rio de Janeiro; Valença está a 33km de Vassouras e Rio das Flores, mais 17km adiante. Para desbravar as estradas e chegar até as fazendas o melhor meio de transporte ainda é o carro.

 

Passear

O turismo no Vale do Café ainda caminha a passos lentos e sobrevive muito pela contribuição das famílias que habitam as fazendas. Ao visitar as propriedades é possível notar que se não fosse o amor deles à história muito não haveria sobrevivido.

 

Os passeios nas fazendas duram por volta de 2h e servem um pequeno lanche aos seus visitantes. Os valores para visita-las são um pouco salgados e variam entre R$ 45-70, por isso é indicado visitar uma por dia e seguir para outro destino, como Petrópolis por exemplo. É possível reservar os passeios por meio dos hotéis.

 

Onde ficar

Escolha uma cidade como base e organize seus passeios a partir dela. Uma boa opção para pernoitar é Vassouras. Considere se hospedar no hotel Mara Palace, um casarão de 1870 próximo ao centro que permite caminhar pelo centro histórico da cidade (Mara Palace – Rua Chanceler Doutor Raul Fernandes, 121 – diárias a partir de R$ 157).